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A tentação da Igreja Participação ativa Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as) Chamados para uma missão Comitê de Bacia investe em saneamento

A tentação da Igreja

Carlos Scheid

Uma rápida varredura na História da Igreja permite identificar a tentação permanente que ronda o “pessoal da Igreja” – expressão de Jacques Maritain – quando a missão parece difícil, as barreiras se multiplicam e a solução aparente est…

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Participação ativa

Um dos princípios orientadores da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II foi o da “participação ativa”, como lemos no número 14 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium [SC]: “É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem à…

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Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as)

O EMM nos dá um presente, que é viver o FDS, um verdadeiro encontro consigo, com o outro e com Deus, que nos mostra o caminho para a conversão com mudanças de atitudes, a escuta com o coração e com a decisão de amar sempre. Isto tem sido um porto seg…

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Chamados para uma missão

João da Silva Resende, SDN*

 

“Eu te segurei pela mão, te formei e te destinei para unir meu povo e ser luz das nações. Para abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que moram nas trevas.” (Is 42,6-7.) Assim …

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Comitê de Bacia investe em saneamento

CBH-Manhuaçu conclui 16 Planos Municipais e agora acompanha sua implantação.

Passam-se os anos, trocam-se governos, novas políticas públicas são anunciadas e o saneamento básico segue um descalabro no Brasil. Embora seja um direito previsto na Const…

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Um outro olhar sobre o terrorismo – De todos os fundamentalismos, o religioso talvez seja o mais violento de todos

27Prof. Edward Guimarães*

1 – Cresce a onda de terrorismo no mundo atual. Lembramos, entre outros, o rapto de mais de 200 meninas nigerianas pelo grupo Boko Haram, o recente ataque violento à sede da revista francesa Charlie Hebdo, com diversas mortes em nome de “vingar o profeta”. O que isso representa no momento atual?
R.: O fenômeno da violência, com as suas muitas facetas, acompanha a história da humanidade. Entre as diversas manifestações, destaca-se, atualmente, nos grandes meios de comunicação, o terrorismo, sobretudo, com viés religioso.
O tema da violência, por sua complexidade, exige constante reflexão, análise crítica e diálogo. O ser humano não nasce pronto. Enquanto ser constitutivamente inacabado, ser de desejos e sentimentos, livre e ambivalente, e em contínuo processo de autoaprendizagem e autoconstrução, cada um de nós – independente de etnia, nacionalidade, cultura, crença religiosa, orientação sexual – possui necessidades básicas estruturantes.
Para forjar a sua autonomia, com sensibilidade e responsabilidade intersubjetiva e social, a pessoa humana precisa ser bem cuidada, ser reconhecida em sua dignidade, ser tratada com afeto, carinho e amor, experimentar convivência pautada pela justiça, pelo diálogo, sobretudo na gestão dos conflitos, ser tratada com paciência, cultivar o perdão, amplos horizonte de esperança e contagiantes ideais para retomar, a cada erro ou fracasso, o projeto de ser a cada dia uma pessoa melhor. Além disso, o ser humano precisa estar submetido e submete-se a um contínuo processo de ensino-aprendizagem, com referências concretas de pessoas humanas adultas e equilibradas.
Entre as tendências do contexto atual, sobressaem, primeiramente, o crescente processo de urbanização marcado pelas contradições, injustiças e históricas desigualdades sociopolíticas e econômicas; a configuração da vida pessoal e social, cada vez mais conectada pelas novas tecnologias de comunicação e informação. Soma-se a essas duas, o clima de insegurança quanto ao futuro, provocado pela crise das grandes utopias de inclusão e paz social e as crescentes ameaças armamentistas e de desequilíbrio ecológico.
Creio firmemente que não se pode compreender as recentes manifestações de terrorismo citadas, de uma forma isolada e sem refletirmos, de forma crítica, tanto sobre o processo de formação de grupos extremistas e violentos, quanto sobre a ambiguidade e as contradições ideológicas da propalada democracia ocidental.
Creio igualmente que é um equívoco pensar que se combate uma manifestação de violência com ameaças ou outras formas de concretizar violência, ainda que institucionalizadas pelos aparatos de força do Estado. Não avançaremos na construção da paz mundial sem concretizar estruturas de justiça e inclusão social e investir continuamente na educação para a paz de qualidade, e estruturada pela igual dignidade entre as pessoas e por valores tais como respeito mútuo, reconhecimento do pluralismo cultural e religioso.

2 – Todas as grandes religiões anunciam a paz, a justiça e a esperança confiante de que dias melhores virão no futuro, no entanto, há em muitas manifestações do terrorismo motivações claramente religiosas. Por exemplo, muitos fiéis do judaísmo, do islamismo e do cristianismo são agentes de ações terroristas, e a região onde se localiza o berço dessas tradições religiosas é frequentemente palco de graves e violentos conflitos. Como entender isso?
R.: A religião é feita de pessoas. Como tudo que é humano, ela é também visceralmente ambivalente. Toda manifestação religiosa contribui no processo de construção das identidades e de humanização das pessoas e de coesão social, mas, simultaneamente, mostra-se marcada por limites e contradições que precisam ser discernidas, avaliadas, entendidas, corrigidas e combatidas. Não se pode baixar a guarda crítica diante de qualquer construção humana, pois estas sempre estarão sujeitas a processos de decrepitude, de deturpação e de deterioração. Não existe, portanto, religião imune a erros e desacertos. Assim como a vida de qualquer pessoa, as religiões são marcadas por altos e baixos. Como realisticamente nos alerta o Evangelho, o trigo e o joio crescem juntos; importa, portanto, vigiar e orar para não cair em tentação.
Como dimensão necessária e incontornável em toda caminhada histórica, as religiões precisam criar mecanismos de conversão, correção de rota e retomada do carisma original, bem como espaços de reflexão, de crítica e autocrítica, de diálogo aberto e fraterno, processos de volta às fontes para releitura e ressignificação cultural da experiência primeira no contexto onde se enraízam.

3 – Muito jovens têm deixado seu país de origem, alistando-se como voluntários em grupos terroristas. Um drama para seus familiares. O que motiva isso neste contexto atual?
R.: Todo ser humano precisa de horizontes esperançados com perspectivas históricas críveis e possíveis. Manter tais horizontes revela-se fundamental para perseverarmos na busca de realização e felicidade.
No período da juventude, essa necessidade revela-se mais aguda, devida, sobretudo, ao processo de construção da identidade social e às preocupações quanto ao futuro típicas dessa etapa da vida. Em muitos países, o deficit de políticas públicas, de modo especial as voltadas para as juventudes, favorece a vulnerabilidade dos laços familiares e a procura por grupos ou tribos urbanas que oferecem elementos identitários e horizonte de busca de sentido.
Uma nação que não cuida de suas crianças e da integração social dos jovens favorece, a nosso ver, esse tipo de fenômeno social mencionado na pergunta. Em contexto de insatisfação, falta de perspectivas e vulnerabilidade nos vínculos sociais, jovens passam facilmente a identificar-se com ideologias extremistas que içam bandeiras de mudança radical do mundo.
Além disso, igualmente favorece tal fenômeno, o que vivemos hoje – como diagnosticava João Batista Libanio em seu livro “Para onde vai a Juventude?” – o chamado “presentismo”, mentalidade resultante, especialmente, da cultura do consumo e da busca da felicidade instantânea. Com ela, não se cultiva a perspectiva histórica, não se valoriza a memória e o entendimento dos processos, mas o flash do tempo vivido, curtir o instante, o aqui e agora, sem se preocupar com o amanhã. Perde significação a valorização das raízes, da visão histórico-processual e da visão de conjunto.
4 – O que pode ser feito em nossas comunidades e junto às nossas juventudes diante desta situação? Qual o caminho para não ficarmos de braços cruzados?
R.: Sem qualquer pretensão de oferecer receitas, uma coisa é certa: quando identificamos as causas, temos maior probabilidade de perceber a direção em que se encontram as soluções. Importa saber para onde queremos ir enquanto membros da humanidade conscientes de viver nessa “aldeia global”. Não há soluções simples para questões complexas.

Não acredito
em mudanças
sem investimento contínuo
em educação.
Há muitas
iniciativas,
mas incipientes
e restritas
a uma parcela
pouco significativa de crianças
e jovens.

As desigualdades sociais e de oportunidades são aviltantes. Ficamos impressionados quando temos acesso ao número de jovens, por exemplo, que não estudam, nem trabalham em nosso meio.
Venho, nos últimos anos, convivendo com jovens universitários oriundos das diversas classes sociais. Eles se mostram famintos de experiências de prazer, mas também cheios de sonhos pessoais. Estão cada vez mais conectados e fascinados com as novas tecnologias. Eles viajam mais que seus pais e vivem, quase sempre, submersos no contexto urbano. São muito abertos ao diálogo e ao debate. Acontece que estão muito pouco preocupados com metas sociais, com o coletivo e com o outro. Cada vez mais, eles mostram-se autocentrados e preocupados, quase que exclusivamente, com a própria felicidade.
Não é fácil despertá-los para que ampliem seus horizontes, já que a cultura atual favorece tal mentalidade. Nós adultos não temos sido boas referências alternativas. De qualquer forma, não que exista alternativa que não seja trilhar o árduo caminho da educação libertadora.
Quando me refiro a educação libertadora não penso apenas no espaço escolar, mas também nos diversos espaços sociais, dentre outros, a convivência familiar e em comunidades de fé, os desafios enfrentados pelas equipes de trabalho ou vividos no trânsito. Os jovens precisam de referenciais éticos, mas concretamente encarnados nas posturas diárias e nas atitudes cotidianas de pessoas adultas que se mostram capazes de lidar com os conflitos e dificuldades de forma cidadã dialógica, serena e honesta.

5 – Como cultivar o verdadeiro sentido da religião sem resvalar para esse fundamentalismo que se fecha ao diálogo e dissemina ódio e violência?
R.: O fundamentalismo é um fenômeno complexo e que se faz presente, de forma universal, em todos os âmbitos da vida: na política, na economia, na cultura, no amor, na sexualidade, no esporte, na ciência, na arte e, como não poderia deixar de ser, na religião. Ele é sempre doentio, porque cega-nos para contemplar a beleza e reconhecer a igual dignidade do outro. O maior antídoto contra o fundamentalismo é a reflexão crítica e autocrítica. Esta nos faz tomar consciência de nossas ingenuidades e miopias e superar ignorâncias.
De todos os fundamentalismos, o religioso talvez seja o mais violento de todos. Aquele que sofre a doença do fundamentalismo religioso tem a ilusão e carrega a pretensão de agir em nome de Deus, como se o divino precisasse ser defendido ou o nomeasse para defendê-lo. A pessoa, com esta doença, torna-se capaz de matar em nome de Deus e sentir a consciência tranquila do dever comprido.
Primeiramente, creio que precisamos educar-nos para que a própria religião não seja “endeusada”, ou seja, absolutizada, sacralizada ou divinizada. A religião é e sempre será uma construção humana, sujeita, portanto, a acertos e erros, avanços nos processos de aperfeiçoamento ou retrocessos e deturpações. Por isso, em toda caminhada, precisamos aprender a arte do discernimento, das ponderações e do diálogo franco e fraterno. Conquistar o equilíbrio não é fácil, mas é necessário. Além disso, todos nós precisamos aprender a ser críticos e autocríticos.
Em segundo lugar, precisamos educar-nos para reconhecermos a beleza do pluralismo cultural e religioso. O pluralismo precisa ser reconhecido como resultante da diversidade humana e como algo intrinsecamente positivo e que enriquece a humanidade. Não se trata, portanto, de uma ameaça, mas de ampliação de nossos horizontes.
Em terceiro lugar, precisamos aprender, eticamente, a reconhecer, respeitar e valorizar o sagrado do outro, e não apenas o nosso. Tão sagrada quanto a nossa liberdade, autonomia e dignidade, é também a do outro. Sem padrões éticos globais mínimos, capazes de avançarmos na construção de uma “outra sociedade planetária possível”, não combateremos os diversos fundamentalismos presentes em nosso meio.]

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