Destaques Igreja Hoje
15/03/2020 Denilson Mariano da Silva Edição 3922 Viver é dom e compromisso
F/ Pixabay
"Como discípulos e missionários de Jesus, também nossa vida é dom e compromisso, temos a missão de recriar, no hoje de nossa história, as ações libertadoras de Jesus. "

No contexto do Evangelho de Lucas, compreendemos Jesus como o Bom Samaritano que passou pelo mundo fazendo o bem, promovendo a justiça, a solidariedade e a paz. Em sua peregrinação terrena, Jesus está sempre crescendo na compreensão dos mistérios do Reino e no engajamento que ele exige. Ao retomar o eixo missionário de Isaías nas Escrituras, Jesus o aplica e o atualiza em sua vida. “O Espírito do Senhor está sobre mim... Ele me ungiu para pregar a boa nova aos pobres. Ele enviou-me, proclamar a boa nova aos pobres, a liberdade aos presos, recuperar a vistas dos cegos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19).
Eis aí o sentido de sua vinda ao mundo. A vida de Jesus e sua missão no mundo implica um compromisso como os pobres e sofredores, Ele veio para libertá-los. Como discípulos e missionários de Jesus, também nossa vida é dom e compromisso, temos a missão de recriar, no hoje de nossa história, as ações libertadoras de Jesus. Temos a missão de agir como bons samaritanos no mundo de hoje. Nossa vida é dom e compromisso.
A CF 2020, ao tratar da vida como dom e compromisso nos leva a uma conversão pessoal, comunitária e também social (TB nº 112). Assim nos alerta o Papa Francisco: “A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. [...]. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG, 202) (TB nº 113).

Ter compaixão: romper a indiferença
Na parábola do Samaritano , a surpresa vem do terceiro homem, um samaritano, desprezado pelos judeus e tratado como pessoa de uma raça inferior. Entretanto foi ele que rompeu a indiferença. Foi ele que se aproximou do homem ferido, que se moveu de compaixão – o que significa que o samaritano participou das dores daquele homem, sentiu com ele sua situação, teve compaixão e misericórdia, deu àquele homem, em situação de extrema miséria, o seu coração –, dedicou-lhe tempo curando suas feridas, utilizando o que tinha, óleo e vinho.
A compaixão fez com que mudasse seus planos, atrasasse sua viagem. Ele colocou o homem ferido em seu próprio animal e o levou a uma hospedaria. O amor leva ao comprometimento. No samaritano, podemos ver a Palavra de Deus interiorizada, transformada em misericórdia, em gesto concreto, em atitude de defesa da vida do necessitado. O Samaritano tem olhos abertos à realidade, coração sensível ao sofredor e mãos generosas para ajudar o necessitado. Ele se fez próximo...
Assim, uma Igreja samaritana é sinal e expressão da caridade de Cristo. Uma Igreja capaz de ver além das aparências e para além das circunstâncias. Uma Igreja em saída, hospital de campanha, que cuida pessoalmente daqueles que estão feridos a beira do caminho e que não permite que lá permaneçam. “Uma Igreja das pessoas e não dos papeis e dos poderes.” Em todo o tempo é tempo de fazer o bem. Para quem vive o mandamento do amor caridade, sempre é tempo de cuidar, pois, o próximo é quem cuida com misericórdia. (Lc 10,37)

Traduzir o Evangelho na vida
A CF 2020 nos recorda que a vida é dom e compromisso e nos exorta a recriar em nós as atitudes de Jesus, o Bom Samaritano da história. Somos chamados por Deus a olhar as pessoas, mover-nos por compaixão e a cuidar da vida humana e do planeta recriando em nós as atitudes de Jesus. Neste sentido, A contribuição cristã mais característica a serviço da vida é o amor. Deus é amor (1Jo 4,8) Quem quer se descuida do amor, se descuida dos outros, do ser humano e se torna devastador do meio ambiente.
Veja como São Francisco, tomado pelo amor a Deus se torna tão pronto a servir aos irmãos e a ter uma atitude de fraternidade com todos a criação de Deus. O espírito de ódio e violência que fere a vida humana e a vida no planeta denuncia uma ausência, um distanciamento de Deus. Revela que não temos ainda em nós, os mesmos sentimentos que havia em Cristo. É urgente essa conversão.
A Campanha da fraternidade de 2020 quer proclamar em todo país que a vida é samaritana! Convertidos pela palavra de vida e salvação, somos convocados a testemunhar e estimular a solidariedade; fortalecer a revolução do cuidado, da ternura e da fraternidade como testemunho de vida dos discípulos missionários daquele que oferece vida em plenitude.
Nossa missão evangelizadora brota de um coração capaz de cuidar e de ser cuidado. “Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, se identificou especialmente com os que sofrem (cf. Mt 25, 40). Isto nos recorda que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra. Mas, no modelo ‘do êxito’ e ‘individualista’ em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida” (EG 209).
Há uma íntima conexão entre evangelização e promoção humana que deve exprimir e desenvolver em toda a ação evangelizadora. Tudo a partir do coração do Evangelho. É preciso “primeirear”, como nos diz o Papa Francisco, ter iniciativa, ousar, criar, inventar... Não basta ter sensibilidade diante de quem sofre. É preciso, à semelhança do bom pastor que sai em busca da ovelha perdida (Lc 15,1-7), tomar a iniciativa, não se contentando em atender os que chegam. É preciso sair em busca dos que não tem mais forças para chegar até nós.

Cuidar e restaurar a vida
Na parábola em que o dono da vinha sai, várias vezes, para contratar trabalhadores (Mt 20,1-11) encontramos um exemplo de justiça restaurativa. Aquele que chama os trabalhadores para sua vinha olha o ser humano de forma integral, desejoso de contribuir com a restauração da sua dignidade, corrompida pela falta de trabalho. Cuidar da vida, ser justo, é também ter um bom coração. O Papa Francisco afirma que “a injustiça e a falta de oportunidades tangíveis e concretas são também uma forma de gerar violência: silenciosa, mas violência.” “Não existe democracia com fome, desenvolvimento com pobreza nem justiça com iniquidade” (TB nº 131).
A CF 2020 nos recorda que há uma justiça retributiva e outra restaurativa. Sob o olhar retribuitivo a justiça é vista meramente como punição. É a concretização da lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Por outro lado, a justiça restaurativa nasce de um novo olhar sobre a pessoa que errou e também sobre o conflito ao qual ela se encontra envolvida. Trata-se de uma alternativa ao sistema punitivo que tem apresentado poucos resultados e pouca eficiência no combate à violência. É preciso ver, ter compaixão e cuidar...
A CF nos convida a um compromisso com a vida humana e com a vida no planeta. Esse compromisso é pessoal, familiar, comunitário e social. Em cada um destes setores de nossa vida é preciso: Primeirear. Ter iniciativa. Ser mais ousados. Cultivar a beleza do compartilhar a vida (TB nº 214). Envolver: a vida é um intercâmbio de ternura e cuidado (TB nº 215). Acompanhar: iniciar processos (TB nº 216). Frutificar: não perder a paz por causa do joio. É Deus quem tudo conduz! (TB nº 217). Festejar: vida – dom a ser anunciado e compromisso a ser realizado. E ainda, desenvolver nossa colaboração social (TB nº 218). Acolher: encontrar ações que levem a sociedade mais humanizadora. Organizar espaços de acolhida, casas pró-vida, lugares de escuta e apoio à vida, casas terapêuticas e de apoio a familiares de dependentes químicos, enfim, espaços urbanos onde a vida possa ser cultivada e promovida; Criar centros de escuta e programas de prevenção de suicídio (TB nº 219); Proteger (TB nº 220); Promover (TB nº 221); Integrar (TB nº 222).
Dar efetivamente voz aos pobres valorizando a iniciativa do “Dia mundial dos pobres”. Promover: ações que levem a criar condições de melhor qualidade de vida. Desenvolver gestos e atitudes que transformam: - assumir um compromisso radical com a justiça e a solidariedade; - apostar na capacidade das pessoas de serem construtoras da vida;- eliminar todo tipo de exclusão social; - respeitar a vida das diversas culturas e das diferentes etnias; - ampliar as lutas para a conquista de direito; Integrar: ações da Igreja em parceria com outras forças vivas da sociedade. Promover a ecologia integral cuidando: - da vida no seu conjunto; - dos bens da natureza; - dos mais pobres; - da justiça entre as gerações.


Para aprofundamento:
1. Que passos precisamos dar para ajudar os demais cristãos a vencerem a indiferença e a serem mais ativos na defesa e preservação da vida? Dê exemplos.
2. Nas questões políticas e sociais, nós pessoas de Igreja, estamos avançando ou recuando? Por quê? Em que podemos melhorar?

[Texto adaptado do Livro Fraternidade e vida: Dom e Compromisso. Dom Cavati: Mobon, 2020.]PAGAR AGORA

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS