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16/07/2019 Daniel Rops Edição 3914 Vicente de Paulo, apóstolo da caridade
F/ Franciscan Media
"Numa época de trevas ferozes, ele fez brilhar a grande luz da bondade. Lançou as bases daquilo que hoje chamamos “doutrinas sociais”"

 

 

Daniel Rops

 

Missões, seminários, conversão das massas, reforma do clero: bom trabalho, com certeza. E no entanto, para o homem infatigável que era Vicente de Paulo, isso ainda era pouco. O amor de Deus e do próximo é paixão devoradora que não consente repouso a quem se lhe entrega. Solicitado de todos os lados pela miséria, Vicente respondia a todos os apelos e até se antecipava em ir ao encontro das aflições que não se manifestavam.

Das suas mãos saíam, uma após as outras, as obras, as instituições, os grupos, cujo único objetivo era tornar a vida menos dura para os humildes deste mundo, menos injusta, menos cruel. Diante dele, caíam as barreiras sociais, e o dinheiro deixava de ser prisioneiro do egoísmo.

Numa época de trevas ferozes, ele fez brilhar a grande luz da bondade. Lançou as bases daquilo que hoje chamamos “doutrinas sociais”, empenhando-se nessa tarefa de um modo simples e direto, sem se preocupar com teorias. A palavra de ordem que deu às suas filhas espirituais era o lema da sua própria existência: “A caridade de Cristo crucificado nos urge”.

Não é outro o retrato que a posteridade, por uma vez agradecida, iria guardar desse homem de Deus. Vicente de Paulo, apóstolo da caridade: até vem mencionado assim nas enciclopédias. Vicente, agasalhando sob o seu enorme capote os meninos abandonados que achou pelas vielas escusas. Vicente, correndo a substituir aos remos da galé um forçado que desmorona sob as chicotadas do guarda. Vicente, servindo com as próprias mãos os doentes amontoados nos hospitais, tratando deles sem repugnância, sem temer o risco do contágio. Vicente, feito provisor das regiões devastadas, organizador de um Auxílio católico que há de inspirar o nosso tempo, e salvando da fome províncias inteiras...

São imagens do santo que o povo francês guardará no espírito e no coração: ninguém as repassa sem emoção. Vicente, o mais humano de todos os santos...

O milagre de Vicente de Paulo foi ter sabido fazer frente a todas as desgraças que os acontecimentos e a inconsciência dos homens provocavam; foi fazer aparecer, para ajudá-lo na sua imensa tarefa, tesouros de caridade que estavam escondidos nessa sociedade egoísta, frívola e brutal. Porque o misterioso fulgor que dele irradiava atraía para os seus empreendimentos centenas, milhares de dedicações.

Com a sua doçura imperiosa, impunha sacrifícios. “Uma rainha não precisa de joias!” – dizia ele, gentilmente, a Ana de Áustria, que hesitava em doar os seus diamantes. O entusiasmo na dedicação aos outros, a emulação na generosidade – eis os impulsos que Vicente de Paulo soube despertar nas almas, porque a sua própria alma transbordava deles.

(Fonte:A Igreja dos Tempos Clássicos”, Ed. Quadrante, S. Paulo, 2000.)

 

DANIEL ROPS é o pseudônimo literário de HENRI PETIOT [1901-1965]. Escritor e historiador francês, foi diretor da revista Ecclesia (Paris) e tornou-se mundialmente famoso sobretudo pelas obras de historiografia que publicou: a coleção História Sagrada, que abrange os volumes: O povo bíblico [1943], Jesus no seu tempo [1945] e os onze tomos da História da Igreja de Cristo [1948-65]. Publicou mais de cem livros, diversos ensaios, obras de literatura infantil e romances históricos, entre os quais se destacam: Morte, onde está a tua vitória? e A espada de fogo. Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.

 

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