Formação Bíblia
05/03/2020 Pe. Nelito Dornelas Edição Uma primeira visão da Bíblia sobre a cidade  
F/ visualhunt
"Nela o rei e o sumo sacerdote subiam para se encontrar e falar com a divindade... Uma invenção muito esperta para controlar todo o povo."

 

A Torre de Babel.  As primeiras páginas da Bíblia são as mais conhecidas e, talvez, as menos compreendidas. São muito populares as histórias narradas no livro do Gênesis do capítulo primeiro ao capítulo onze. Elas trazem um sentido profundo para aquele tempo como para o nosso.

Focalizemos nossa atenção sobre o episódio da Torre de Babel, uma cidade construída na planície ou vale de Senaar (Gn 11,1-9). Pensamos logo na cidade de Babilônia, o centro de um vasto império que dominou todo o Oriente Médio, inclusive a Palestina. Mas precisamos ter cuidado com esta identificação.

Os exegetas nos advertem que tanto o nome “Babel” como o trecho “na terra de Sanaar” podem ser acréscimos tardios num texto bem mais antigo. Assim sendo, ficamos apenas com uma cidade construída numa planície e, dentro dela, uma grande torre em construção.

O ponto central de Gn 11,1-9 é a crítica à cidade que fala uma só língua, e, principalmente, à torre que o povo da cidade está construindo. Isso é coisa boa ou ruim? O texto faz chegar à conclusão de que não, pois toda a segunda parte mostra o julgamento de Deus, que confunde as línguas, destruindo a coesão da cidade e impedindo a construção de chegar ao fim.

Quem teria criado a história que se cristalizou nesse texto? Certamente alguém que não morava na cidade ou, se morasse, tinha bons motivos para não gostar dela. Ora, podemos pensar logo no camponês, que não vive na cidade, é explorado por ela tanto no seu trabalho como no que produz, e sempre faz o papel do ridículo quando nela se encontra.

Mas o camponês não é tolo, e o nosso texto mostra que ele sabe muito bem o que está por trás da bela aparência da cidade. Assim, o que temos em Gn 11,1-9 é a crítica do camponês à estrutura e pretensão da cidade, principalmente às metrópoles e megalópoles, que falam uma só língua e são cheias de torres. Estamos usando o plural “torres”, o que se explicará logo a seguir. O importante é não perdermos de vista que por trás desse texto existe um conflito da cidade contra o campo e citadino contra o camponês.

O que pretendiam os construtores da torre? Muito provavelmente a cidade nasceu de um ponto em que as pessoas se encontravam para trocar o que haviam produzido. Desse encontre nasceu a atividade política como exercício organizador das liberdades, e, principalmente, do conflito de interesses. Da troca de produtos nasceu a atividade econômica que acabou dando no comércio. E aí temos o germe da cidade, a política e a economia. O que se criou depois foi apenas sofisticação do arranjo comercial e político do encontro. Aparecem os técnicos num e noutro setor, surgem as edificações e cria-se o centro urbano, polarizado no exercício da troca dos produtos, a economia e das lideranças, a política.

Mas o encontro se diversifica, pois nela há quem tem mais, outros menos, e outros muito menos ainda. Surgem então as classes sociais: os que estão lá em cima, os que estão no meio, e os que estão lá embaixo. Mas como dar coesão a tudo isso? É preciso uma ideia comum, uma linguagem comum, para que todos aceitem a cidade como ela é, ou como acabou sendo, uma ideia ou uma linguagem aceita por todos, embora os grupos diversos tenham poder aquisitivo, participativo e posição social diferente e desigual. E vem então o milagre social da língua única: a ideologia. Esta pode, muitas vezes, se explicar como código ético, que determina o que é bom e o que é mau. Outras vezes a ideologia se explicita nitidamente através de construções religiosas que, em última análise, justificam tudo através da vontade de algum deus: “Deus criou as coisas assim” ou “Deus quer assim”. Poucos se dão ao trabalho de verificar o que se esconde por trás da vontade desse deus, ou mesmo enxergar quem é esse deus. Pode ser um ídolo. Mas a função da ideologia é justificar a desigualdade na construção econômica, política e social da cidade.

O ponto nevrálgico do texto é a construção da torre. Se identificarmos a cidade com a Babilônia, logo veremos a torre como um zigurate, a torre alta do templo. Nela o rei e o sumo sacerdote subiam para se encontrar e falar com a divindade. E daí vinham as leis e normas para tudo, sempre, é claro, como vontade da divindade mediada pelo sacerdote e representada pelo rei. Uma invenção muito esperta para controlar todo o povo. Essa torre foi inventada pela cidade e o texto deixa isso bem claro.

Enquanto que o camponês fazia suas edificações com pedras ou tijolos secados ao sol, o citadino faz as suas construções com tijolos cozidos no fogo. O camponês não usa argamassa ou, se a usa, serve-se do barro. O citadino, porém, já usa o betume, o que lhe dá chances de construções fortes, maiores e mais elevadas. A cidade pode, portanto, dar-se ao luxo de construir elevadas torres. Mas o que significa essa torre?

 

 

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