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13/02/2020 Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN Edição 3920 Uma Igreja que vai à frente
F/Diretrizes Caratinga
"Sair da comodidade, ir às periferias humanas e geográficas, assumir uma pastoral decididamente missionária fugindo da “simples administração”"

 

O Papa Francisco, com uma eclesiologia fundamentada no Concílio Vaticano II, tem desafiado toda a Igreja a assumir corajosamente uma nova etapa evangelizadora marcada pela Alegria do Evangelho (cf. EG, n. 1). Queremos propor a você querido (a) leitor (a), algumas reflexões acerca do modo como Francisco pensa a Igreja, refletindo acerca de alguns verbos que estão em destaque no seu documento programático, Evangelii Gaudium (n. 24) “a Igreja ‘em saída” é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam”.

Neste primeiro artigo vamos aprofundar o verbo Primeirear que significa ir na frente, sair, arriscar... Este verbo é como que a locomotiva do pontificado de Francisco, como ele mesmo afirma: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar ás próprias seguranças” (EG, n. 49). Assim como o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-nos em seu amor (1 Jo 4, 10), a comunidade missionária também vai à frente, sai ao encontro, procura os afastados e chega às encruzilhadas dos caminhos para convidar os que estão à margem.

 

Sair da própria comodidade

Recordando o Documento de Aparecida (n. 63), o Papa Francisco afirma: “assim se gera a maior ameaça, que é o pragmatismo cinzento da vida cotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai se deteriorando na mesquinhez. Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu” (EG, n. 83). Nossas comunidades, pastorais e movimentos preferem muitas vezes o modelo pastoral da “manutenção”. Porém, “a pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: ‘fez-se sempre assim’. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa se repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG, n. 33).

Sair da comodidade, ir às periferias humanas e geográficas, assumir uma pastoral decididamente missionária fugindo da “simples administração”. Isso exige de nossas comunidades uma verdadeira conversão pastoral. Porque assim como o Bom Pastor que procura e cuida da ovelha perdida, nós também não podemos ficar satisfeitos apenas com as ovelhas que estão no nosso redil.  Nosso agir pastoral precisa assemelhar com o modo de Deus agir.  “A ação de Deus é ir sempre em busca dos filhos perdidos e, em seguida, fazer festa e se alegrar com eles por tê-los encontrado. É um desejo ardente: nem mesmo noventa e nove ovelhas podem parar o pastor e mantê-lo fechado no redil. À imitação de Jesus, cada pastor por vezes, por-se-á à frente para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo, outras vezes manter-se-á simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá caminhar atrás do povo, para ajudar aqueles que se atrasaram. Que todos os pastores sejam assim!”(Papa Francisco).

Falar, portanto, de uma Igreja que primeireia, é falar de uma Igreja “em saída” que procura responder às urgências da sociedade de hoje, não se refugiando do mundo, mas encarnando, em particular nas periferias geográficas e existenciais.  É ser uma Igreja “hospital de campanha” e seus ministros deixarem-se contagiar pelo “cheiro das ovelhas”.

 

Primeirear é adiantar-se ao outro

O verbo primeirear não é comum em nosso vocabulário. A origem dessa palavra vem, segundo o Papa, da linguagem futebolística portenha que expressa a ação de chegar antes, adiantar-se ao outro ou tomar a iniciativa. Pensando em nossa ação pastoral, quantas vezes chegamos atrasados. Quantas realidades hoje gritam por cuidado e atenção que a Igreja ainda não deu conta de chegar. Não podemos deixar os pobres sozinhos em suas lutas e esperanças.

Na verdade, quando o Papa nos chama a ser uma Igreja que vai à frente, que toma a iniciativa, que seja profética, é porque ele percebe que ainda somos uma Igreja “medrosa”, acomodada, que prefere muitas vezes uma pastoral de simples “manutenção”. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Como nos recorda o Concílio Vaticano II: “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et SPES 1,1).

Faz-se necessário, portanto, viver a dinâmica do amor apressado que chega primeiro (cf. Jo 20,4). Para tanto, precisamos romper a barreira da indiferença que frequentemente reina soberana para esconder nossa hipocrisia e egoísmo. “Quantas situações de precariedade de sofrimento presente no mundo atual! Quantas feridas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. [...] Não deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói” (Papa Francisco. Rosto da Misericórdia, n. 15).

 

Maria, a mulher apressada

Maria, a mulher da prontidão, apressada no servir (cf. Lc 1, 38-45) é um grande exemplo para toda Igreja. Apressadamente: não é só a velocidade com que Maria anda, mas a atenção cuidadosa com a qual enfrenta a viagem, o seu entusiasmo em cuidar de alguém que exigia a sua presença.

Na pressa de Maria reconhecemos a urgência missionária da Igreja. Maria tão logo recebeu a visita do Anjo, sentiu-se “cheia” da graça do Espírito Santo e saiu apressadamente para visitar sua prima Izabel que já idosa precisava da sua ajuda. Lucas narra a alegria da presença de Maria entrando na casa de uma idosa necessitada. Izabel repleta do Espírito Santo e emocionada exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e Bendito é o fruto do teu Ventre! Como mereço que a mãe do meu Senhor venha me visitar? E até a criança pulou de alegria no ventre de sua mãe. Nota-se que não foi o discurso de Maria que encantou Izabel, foi simplesmente a sua presença gratuita e amorosa. Ainda hoje, as pessoas também se alegram com a nossa presença; através de nossa visita gratuita, elas sentem-se visitadas pelo próprio Deus que cuida com carinho e jamais abandona o seu povo.

Este amor apressado é característico de quem descobriu que em relação ao outro estamos sempre atrasados. Pois não sou eu quem dito o momento de começar e quando parar de amar, mas a necessidade do outro. Quem ama toma a iniciativa, antecipa, chega primeiro. Não foi assim também nas bodas de Canaã? (cf. João 2, 1-12). Ainda não tinha chegado a hora de Jesus, mas Maria se apressa, porque eles não tinham mais vinho, e Jesus realiza o milagre, devolve a alegria, a esperança e a vida.

A exemplo de Maria, a Igreja também é chamada a primeirear, a tomar a iniciativa sem medo, a ir ao encontro, a procurar os afastados, a chegar primeiro... “Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG, n. 20).

 

* Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo, Belo Horizonte - MG.

 

 

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