Formação Espiritualidade
01/04/2021 Ir. Dione Afonso, SDN Edição 3935 Um lugar à mesa
F/ Reprodução - facebook Zuleica
"A mesa de Jesus é também a mesa do serviço, da disponibilidade, da gratuidade. Estar juntos à mesa também exige que coloquemos nossos dons e talentos a serviço. "

Um lugar à mesa

A mesa é símbolo central da reunião e do encontro. Na casa, ela sempre tem um lugar de destaque. Nunca fica no canto ou esquecida. É a mesa também, sinal de diálogo, partilha e convivência. Sentar-se à mesa em companhia de alguém significa que você se põe ali para reunir, encontrar, dialogar, partilhar e conviver. Se assim não estiver disposto, a mesa, para si, torna-se lugar de solidão e rejeição. Nesse caso, sento-me ali apenas para cumprir a função daquele lugar.

Hoje Jesus nos convida à sua mesa. Mesa da vida. Mesa da partilha. Mesa do encontro. Mesa da refeição. Sua mesa está cheia, repleta, talvez não de alimentos ou da variedade deles, mas de desejos, “Ele desejou ardentemente estar conosco” (cf. Lc 22, 15). Aquele que dela participar não sentirá fome e nem será rejeitado. Aquele, que se sentar nesta mesa, partilhará do alimento da vida, porque este alimento é a sua vida dada por nós: Jesus é o alimento sublime desta mesa, o “pão eucarístico tem por fim próprio alimentar-nos. Alimentar é dar mais vida. Quem recebe mais vida, recebe mais ser... Eucaristia é Deus em nós” (SdD, Pe. Júlio Maria De Lombaerde).

Dispor-se a lavar os pés

A mesa de Jesus é também a mesa do serviço, da disponibilidade, da gratuidade. Estar juntos à mesa também exige que coloquemos nossos dons e talentos a serviço. “Pôr a mesa”, prepará-la e, nela servir. Jesus então nos serve, nos alimenta e nos lava. Ele se levanta e “veste a toalha do serviço” (cf. Jo 13, 4) e lava os pés dos seus amigos. Nesse gesto, Ele aponta para aqueles tantos que queriam estar na mesa, ceando, se nutrindo, mas não podem, não conseguem, não são convidados.

Hoje, nosso lava-pés indica com mais força aqueles tantos pés que precisam ser lavados por nós. Quantos enfermeiros estão vivendo 24 horas um lava-pés, a cada dia nos leitos de tratamento intensivo contra esse vírus; quantos pais e mães estão num lava-pés montando barracas irregulares nas calçadas de suas casas tentando sobreviver com aquilo que suas mãos conseguem produzir; quantos adolescentes e jovens estão num eterno lava-pés tentando concluir seus estudos na precariedade de um ensino em regime virtual... esse é o lava-pés de cada um deles. Qual é o nosso, qual é o seu lava-pés?

Recordar os que partiram

Nesse Tríduo Pascal somos convidados a olhar a mesa com olhos diferentes. Jesus está ali. Jesus permanece ali. E junto de nós também lamenta aquele lugar vazio de alguém que se foi. De alguém que irá cear na mesa definitiva do Reino celeste. Mais de 320 mil foram levados pela pandemia. São como vítimas oferecidas naquele banquete de morte a uma estrutura político-social que pediu “numa bandeja de prata a cabeça de João Batista” (cf. Mc 6, 25).

Jesus nos convida à sua mesa e, diante dela, o que importa não é o requinte das bandejas, talheres de ouro ou pratos da mais fina porcelana. Seu alimento só depende de uma coisa: coração puro e sincero para recebê-lo.

Amigos, vizinhos, conhecidos, tio, tia, irmão, marido, esposa, filhos, avós, avôs, irmã, tantos que não estarão mais conosco em nossa mesa. Tantos que não estarão mais contando piada na Ceia de Natal, ajudando no cardápio do Domingo de Páscoa ou sendo cúmplice naquele aniversário secreto. Não se sentirão mais à mesa em destaque de nossa casa. Mas ela continua sendo lugar de encontro, de partilha, de vida e também de memórias.

Partilhar a vida na mesa

Está na hora de tudo isso parar. Está sobrando cadeiras em nossas mesas. E essa ausência dói mais que a da falta do alimento. A dor do luto e da ausência é enorme. Hoje quantos Jesus foram condenados à morte pela pandemia. Andaram pelo Calvário dos corredores dos hospitais sem leito e sem espaço. Quantas vezes caíram carregando o peso da cruz pela falta de oxigênio, falta de medicamentos e a falta de políticas públicas de um governo ignora a dor e maltrata o pequeno. São os Cristos que estão sendo crucificados hoje, 2 mil, 3 mil, quase 4 mil por dia... Todos eles privados de poder voltar a sentar-se em nossa mesa junto se nós.

Nesta quinta-feira Santa, abertura do Tríduo Pascal, cuidemos de nossas mesas. E que cada um de nós tenha compromisso e sensibilidade em partilhar a vida sempre que desta mesa participar. Nos encontraremos na alegria da Ressurreição! Amém!

Ir. Dione Afonso, SDN - Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

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