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07/04/2020 Michel Carlos da Silva Edição Tradição e Crise: A estrutura dinâmica das sociedades
F/ visualhunt
" A cultura é o local ou a casa da política, da economia e da religião."

 

          Não é uma característica particular de nossos tempos a dúvida sobre elementos da tradição. A crise, palavra que virou mantra nos dias atuais se encontra presente nas mais diferentes épocas históricas. Minha intenção não é ser mais um a cantar esse mantra “estamos em crise”, mas demonstrar como a incerteza se instala no interior da cultura como elemento constituidor da mesma; e como a ação popular é a construtora de caminhos essenciais para a estruturação das sociedades.

           A constituição humana utilizando uma visão Vaziana [1]se estrutura em dois polos essenciais sobre os quais o indivíduo se afirma como ser de presença ou sujeito.  Esses polos são, natureza e cultura. A natureza ou physis como se aplica aos gregos, carrega a necessidade já dada no simples estar no mundo e essa necessidade biológica é compartilhada com demais seres vivos, necessidade de nutrição e reprodução. O polo da cultura é estruturado como algo propriamente humano, é a partir da ideia de uma necessidade de se realizar e expressar-se como ser de presença, que surgem os elementos simbólicos. A cultura é o mundo simbólico no qual se manifesta toda expressão desse ser que se afirma como sujeito.

           A cultura é o local ou a casa da política, da economia e da religião. Todos esses modos simbólicos construídos historicamente são possíveis mediante uma estrutura que garanta a permanência desses elementos. Esse é o papel da tradição. A tradição nada mais é que, a estrutura garantidora da permanência de elementos que na história se caracterizaram como importantes para a subsistência da comunidade.  Porém, no ato de se autoafirmar como sujeito da história essa autoexpressão se faz em épocas distintas e a partir dessa autoafirmação racional se introduz uma dúvida sobre esses elementos da tradição que pela estrutura da permanência se instalaram historicamente nas sociedades. Para que os elementos se atualizem na realidade presente é preciso que primeiro passem pelo consenso social do hábito[2].

           Essa dúvida pode ser chamada de crise. A crise no interior da tradição pode ser identificada em cada época como, por exemplo, no personagem Sócrates 469 a.C. ou na figura de Jesus Cristo. O que há em comum nessas duas personalidades históricas é que esses foram grandes geradores de crises na tradição. Embora esses personagens representem os geradores de instabilidade na cultura, a crise é propriamente gerada não por um querer particular, mas por um questionar coletivo que se instaura em épocas diversas sobre elementos éticos, religiosos e políticos.

           A constituição do sujeito perpassa pela subjetividade no momento da autoafirmação como ser de presença como foi dito no inicio, ao mesmo tempo, se constitui como intersubjetividade[3]. É intersubjetivo, pois o individuo não se constitui sozinho, ele necessita do outro e o outro é também uma subjetividade. Essa inter-relação dentro de uma coletividade constitui aquilo que denominamos sociedades. Para o bem- viver será preciso estabelecer acordos e regras entre os sujeitos que agora se denominam cidadãos para que as particularidades possam ser superadas em nome de uma vida em comum. As sociedades não são coesas, elas são formadas pela diversidade. Há no seu interior momentos de acordos e conflitos. A crise acompanha o desenvolvimento da comunidade como um mecanismo dinâmico, pois é no florescer das incertezas nas sociedades que seus caminhos são construídos.

           No momento da expressão mais aguda da crise aparecem os “heróis e os mitos”. Não há “salvador da pátria”, por mais que o imaginário popular crie esses seres simbólicos, eles se dissolvem com o peso da realidade. Os “salvadores da tradição”, ou melhor, “os guardiões da moralidade” desconhecem o valor da crise na constituição das sociedades, por muitas vezes ignoram os fatos; criam falsos heróis e vilões, tentam gerar no imaginário popular uma ignorância à história. Esses pseudos intelectuais não ajudam em nada a população, é no mínimo ridículo tentar resguardar a tradição da crise.  O importante não são os cantadores de mantras da crise, mas o caminho escolhido pela população durante o afloramento das incertezas.

A ação popular é a geradora de novos modos sociais, porém, para que possa haver uma mudança nas sociedades essa ação deverá se tornar costume e depois tradição, ou seja, ser transmitida para futuras gerações que novamente duvidarão desses elementos e se for necessário para sua subsistência continuará sendo um elemento a ser cultivado. Duvidar da política, dos modelos econômicos, da religião é importante para a estruturação das sociedades que de tempos em tempos deverão se reformular ou atualizar seus elementos da tradição para garantir a estabilidade mínima da vivência em comum.

* Postulante sacramentino.

 

[1] Cf. É importante conferir na obra de Henrique de Lima Vaz nos Escritos de Filosofia II Ética e Cultura o tópico Ethos e Tradição, onde o pensador define os dois termos essenciais para o entendimento da Ética e da Cultura.

[2] Cf. Padre Vaz apresenta um círculo dialético da formação do ethos no qual o hábito é uma das fases no qual se instala os elementos essenciais das sociedades.

[3] Cf. Em Os Aspectos Fundamentais da Antropologia Filosófica do padre Vaz, artigo na Revista Veredas do Direito v.1, n. 2 (2004), Francisco Javier Herrero chama a atenção para a importância das categorias na antropologia filosófica vaziana  que são elas: estrutura, relação e unidade. Na categoria da relação está contida entre outros o aspecto o da intersubjetividade, ou seja, um ser-para- o- outro como um dos elementos essenciais para a constituição do sujeito.

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