Formação Missão
13/01/2020 Pe. Odésio Magno da Silva Edição 3919 Testemunho da Missão em Angola
F/ Arquivo SDN
"Não pensei duas vezes em dar meu sim e aceitei na hora."

 Partilho uma pequena experiência Missionária na Diocese de Luena, país de Angola, no imenso continente africano, onde os Sacramentinos de Nossa Senhora assumiram uma frente missionária em Cavungo, província de Moxico, no ano de 2012.

Para melhor nos situarmos, é preciso ter presente que a Religião Católica teve inicio, nesta região, somente em 1934. Neste contexto, o Catequista tornou-se a principal referência da Igreja Católica. Ele era o responsável pela celebração dos cultos religiosos. Os Padres Gregório e Abílio, que eram Beneditinos (Ordem de São Bento), apenas saiam da sede Municipal para pregar e batizar os crentes e nesta altura não havia residência em Cavungo, somente a Igreja.

Em janeiro de 2012 a Congregação assumiu a missão enviando o Pe. Renato Dutra Borges SDN e Pe. João Lúcio Gomes Benfica, SDN. Pe. João Lucio regressou ao Brasil em outubro de 2014.

 

Saber pisar o solo do outro

A missão sempre me encantou e em novembro de 2013 quando o Pe. Aureliano, na época nosso Superior Geral, me fez convite de ir pra Angola e disse: “Pense uns 15 dias e me responda.” Não pensei duas vezes em dar meu sim e aceitei na hora. Em dezembro de 2014 fui formar comunidade com Pe. Renato. Confesso que fui com muito medo por causa das notícias que me passaram de lá, sobretudo com relação a alimentação e doenças, um pouco acima do que era a realidade, mas isto não tirou meu encantamento pela missão e ainda mais por se tratar de pisar em terras estrangeiras, a exemplo de Nosso Fundador Pe. Júlio Maria de Lombaerde. Por “Amor e Sacrificio” fui partilhar o pouco que eu tinha com o povo carente da Palavra de Deus, povo pobre em tudo.  

Ao chegar em Angola, fui muito bem recebido por Pe. Renato, Ir. Dorinha (Franciscana do Amparo) e por todos da Paróquia, porém, sabendo da mudança de vida que já estava acontecendo em mim. Adentrar a cultura do outro, os costumes, a língua, a alimentação, me proteger contra a malária, que na segunda semana já havia pegado a primeira, febre tifóide e por fim saber pisar o solo do outro exigiu desfazer alguns paradigmas pré construídos em mim. Não foi fácil, mas escutando o irmão que já estava na missão a três anos e bebendo dos ensinamentos dos leigos que queriam transmitir seus costumes tradicionais, a língua e já sua experiência de fé , isto foi o maior aprendizado de toda minha vida. Tudo muito gratificante, lindo de se vê e viver, quando fiz a experiência de abrir o meu coração para acolher o novo.

 

Nada me fez desistir

Quando cheguei em Cavungo já havia um ótimo trabalho sendo realizado: formação Bíblica, formação de comunidades, novos catequistas, sacramentos e as pessoas com um olhar amoroso para com a pessoa de Jesus. A princípio fui por dois anos e fiquei quase cinco anos, pois, quando a gente deixar ser conduzido por Cristo, pelo amor ao próximo, a missão fala mais alto que tudo. Tive trinta e três malárias (33), quarenta e quatro (44) febre tifóides, duas vezes infecção no pâncreas, gordura no fígado e desenvolveu ai o acréscimo do ácido úrico e outras enfermidades menores.

Porém, nada disso me fez desistir e nem deixar de percorrer as 33 comunidades da paróquia, por um tempo com a presença do Pe. Renato, outras vezes com a presença dos padres Valdecir Paulo Martins e Geraldo Mayrink. Em vários momentos estiveram os leigos e eu, e, muitas vezes, somente eu e Deus. Foram quatro anos e dez meses de missão e destes, estive um ano e três meses sozinho. Na Paróquia foram realizados encontros de formação dos catequistas, pastoral da criança, pastoral da saúde, com medicação farmacêutica e natural, formação Bíblica e Missionária. Também o atendimento mensal às comunidades das aldeias com sacramentos da Eucaristia, Reconciliação, Batismo, matrimônio e unção aos enfermos. E ainda, visitas missionárias, caridade aos órfãos e viúvas, incentivo e organização dos grupos de reflexão, com material produzido por Pe. Renato e Pe. João Lúcio e traduzido para língua local pelos catequistas e outros e também eu deixei minha contribuição nestes trabalhos missionários.

Além dos trabalhos de evangelização, realizamos vários trabalhos de construção civil: a reforma do centro de catequese e social, construção da Igreja Matriz, armazém, suporte da caixa d’Água com capacidade pra sete mil litros, horta, mudas frutíferas em todo terreno, cercas nos terrenos da missão para demarcar os lugares físicos e construção da casa paroquial. Nesta missão tinha que ser tudo um pouco: mecânico, eletricista, pedreiro, enfermeiro, médico, professor, etc.

 

Tusakuilileno kuli Mwangana Kalunga Ketu

Alem de toda parte de Formação Bíblica e Espiritual, tem o lado afetivo-familiar que criamos com aquele povo de Deus: o futebol com as crianças e adultos, o cinema todos os sábados para as crianças, os remédios que doamos gratuitamente, as viagens de emergência pra socorrer doentes de Cavungo para o hospital de Cazombo, a 60 km, com a certeza de que ao chegar ao hospital não iríamos encontrar medicamentos e tão pouco médico pra um bom atendimento, mas fazia por que só tinha o nosso carro na paróquia. Senti com o povo o que eles sentiam, sentem e sentirão, isto é, vivi uma experiência de fé e de amor incrível.

Agradeço a Deus em primeiro lugar, à Congregação que confiou a me enviar em missão Ad Gentes, a cada irmão que pude partilhar muito da missão, as tristezas e alegrias. Agradeço a Dom Jesus Tirso Blanco que acreditou, nos acolheu, confiou a nós a paróquia nos dando liberdade de trabalhar e até aproveitando o nosso Carisma em sua Diocese. Agradecimento também à Congregação, às paróquias e leigos que ajudaram financeiramente e espiritualmente e, de maneira especial, agradeço a intercessão de Maria Santíssima, minha mãe querida que nunca me abandonou, e de Nosso Fundador, Servo de Deus, Pe. Julio Maria que esteve sempre presente caminhando comigo.

Por fim, a parte difícil da missão foi a despedida em setembro do corrente ano. As sete mulheres velhinhas, que cuidamos com alimentação e remédios, chorando e pedindo pra não as abandonarmos. As crianças dizendo: “não teremos mais futebol e nem cinema”, ficaremos como “filhos sem pai” e boa parte do povo clamando mais aprofundamento nos estudos e quem cuide da saúde de nossas famílias. Os abraços apertados na última missa me fez chorar de tristeza em deixá-los e ao mesmo tempo choro de alegria por ter dado o melhor de mim pra servi-los e amá-los de coração. Por tudo só agradecimento: Tusakuilileno kuli Mwangana Kalunga Ketu “Demos Graças ao Senhor nosso Deus”

 

* Missionário Sacramentino de Nossa Senhora

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