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16/02/2021 Denilson Mariano Edição 3933 Sombras que quebram a fraternidade (CFE 1/3) Especial CFE 2021 - Artigo 01 de 03
F/ CNBB / Conic
"Esta CFE 2021, entre os seus vários objetivos, propõe: redescobrir a força e a beleza do diálogo como caminho de relações mais amorosas; denuncia a instrumentalização da fé em Jesus Cristo que legitima a exploração e a destruição socioambiental; anima o engajamento em ações concretas de amor ao próximo (TB 3)."

Sombras que quebram a fraternidade (CFE 1/3)

Grande polêmica instaurou-se em torno desta V Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) dominando as redes sociais e espalhando muita confusão no seio das igrejas. Este fato denuncia o crescimento de grupos tradicionalistas que, na pretensa defesa da Tradição Cristã a negam no seu núcleo mais fundamental: a prática da justiça, do amor e da misericórdia como claramente vemos nos Evangelhos (cf. Mt 25, 31-46). Buscamos aqui explicitar, por meio um dos eixos desta CFE: Ver a realidade.

Desafios da Pandemia

Neste ano passado (2020), a pandemia da Covid 19 evidenciou muitos desafios. Um vírus mortal e invisível denunciou nossa fragilidade pessoal, familiar, comunitária e social. Fomos obrigados a manter o isolamento social, a usar máscaras, evitar encontros e festas, restringir os abraços e visitas. Por outro lado, a pandemia escancarou situações de violências nos diversos seguimentos da sociedade: aumentou a violência doméstica, a agressão às mulheres, o feminicídio, o racismo, o oportunismo na corrida pelo auxilio emergencial, as polarizações políticas, agressões verbais e também psicológicas.

A pandemia, ao invés de unir o país ao redor de uma política comum de proteção da população, fez crescer a polarização, que já havia começado na eleição de 2014 e foi radicalizada na de 2018. Os debates levaram ao confronto entre os que defendiam o “cuidado com as pessoas” e os que pretendiam “salvar a economia”. Vimos o “retorno do Brasil ao mapa da fome, ao desemprego massivo, ao aumento das pessoas em situação de rua, à cultura da violência contra as mulheres, contra as pessoas negras, contra os indígenas e as pessoas LGBTQI+” (TB 31). Tudo isso foi exposto pela situação de pandemia.

As redes sociais tornaram-se palco de guerra, cheia de violências, desacatos, maus tratos e desinformação. Não raro as FAKE NEWS eram mais fortes e mais convincentes que os FATOS. Neste ambiente, também nos deparamos com fundamentalismos religiosos que ignoraram os cuidados sanitários e até justificaram atitudes violentas; espalhou-se uma onda de argumentos “negacionistas”, diante da ciência e dos protocolos da Organização Mundial da Saúde, contrários até à vacina, confundindo as pessoas e levando ao aumento do contágio e das mortes.

Além disso, o poderio econômico dos grandes se fortaleceu, fez avançar o desequilíbrio ambiental com as queimadas e desmatamentos, fazendo “passar a boiada” com o desmonte do código ambiental, favorecendo o agronegócio, as mineradoras, os garimpeiros e as madeireiras. Invadiram áreas de preservação e aldeias indígenas provocando uma verdadeira devastação da natureza e poluição dos mananciais de água. Mais preocupados em “salvar” a economia que em salvar a vida das pessoas e do planeta. Em resumo, “a Covid-19 revela nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade e nosso potencial autodestrutivo” (TB 26). A exemplo dos discípulos de Emaús, fomos tomados por uma onda de medo, impotência e insegurança.

Sinais de solidariedade

Mas, nem tudo está perdido em meio a esta pandemia. Temos muitos gestos de solidariedade dos profissionais da saúde arriscando suas vidas para salvar vidas. Igrejas solidárias passaram a fazer suas celebrações à distância para evitar aglomerações. Houve também muitas ações solidárias de forma anônima. Nosso papa Francisco denunciou a economia de mercado que degrada a vida e a natureza. Está incentivando o cuidado com a Amazônia juntamente com os povos indígenas, quilombolas. E agora nos presenteia com uma carta Fratelli Tutti (FT) que nos remete à caridade social, que nos recorda que somos todos irmãos: Somos “uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos” (FT 32).

Em toda a Bíblia Sagrada, Deus se manifesta como o Deus que conduz o seu povo para a prática do direito e da justiça. Por isso, os atos de piedade, os gestos externos, os cultos e celebrações devem ser marcados por uma sincera atitude de mudança de vida, que revele a sincera disposição de colocar em prática a vontade de Deus. Assim, o jejum querido por Deus é aquele que garante a prática da justiça, o agir com retidão, aquele que devolve a dignidade das pessoas, que socorre os famintos e dá abrigo os pobres. Essa atitude faz a luz Deus brilhar sobre as trevas, esse jejum chega a Deus. E só assim, Deus escuta a oração de seu povo. Quando o povo e as autoridades se afastam da justiça e do direito, as sombras se tornam mais densas e indicam a quebra da fraternidade querida por Deus.

Sombras que quebram a fraternidade

Uma dessas sombras que pairam sobre nós é como foi tratada a crise econômica de 2018 que levou milhões de pessoas à pobreza e agora é reforçada pela pandemia. O socorro aos bancos foi muito maior e mais expressivo que o socorro aos pobres. A alegação foi de que o Estado é responsável por “salvar o sistema econômico mundial” (TB 48). Os recursos econômicos que deveriam ser investidos a serviço do povo: saúde, educação, moradia, geração de emprego e renda, foi desviado para alimentar o sistema financeiro. O resultado disso: desemprego, aumento da pobreza, da fome e das intolerâncias, pois, “para justificar essas desigualdades foram criados falsos inimigos, entre eles, os direitos humanos, os povos indígenas, as religiões de matriz africana, os mulçumanos (TB 49).

A sombra torna-se ainda mais densa com a chamada “necropolítica”, uma política da morte, uma política que mata. Por meio dela o Estado se julga no direito de decidir quem morre e quem vive. Nega-se a humanidade do outro. Por isso, são incentivadas as políticas de inimizades que nos fazem inimigos uns dos outros. Exemplo disso é a repressão violenta contra os negros, os pobres, os homossexuais... a não regulação dos territórios indígenas, o descaso com o combate à Covid-19, a morosidade e a politização do processo de vacinação. A “necropolítica” se volta contra as maiorias enfraquecidas que incomodam o sistema: juventude negra, mulheres, povos tradicionais, imigrantes, grupos LGBTQI+, vistos como “não cidadãos”, como inimigos... (TB 58).

A sombra da violência é apresentada como solução dos problemas. Armar a população é a falsa propaganda que promete resolver o problema da segurança pública. Mas, na verdade, faz crescer a violência que se comprova nestes dados: entre 2008 e 2018 as taxas de homicídios cresceram 11,5% para as pessoas negras; aumentou 4,2% os assassinatos de mulheres, em sua maioria negras e ocorridos dentro de casa = feminicídio. As pessoas negras são as quem tem menor acesso às políticas públicas e as que mais sofrem violência e repressão policial. Essa visão faz crescer entre nós o preconceito, o racismo e a intolerância. O que ainda é reforçado pela falsa ideia de que direitos humanos servem apenas para “defender bandidos”. Um discurso que reforça as sombras de morte, faz crescer a violência policial, aumenta o número de assassinatos dos ativistas por direitos humanos e enfraquece a construção da justiça e da paz.

A sombra se manifesta com as perdas das garantias trabalhistas e previdenciárias, conquistadas ao longo de um extenso período histórico por meio de lutas e organizações populares. As reformas na Lei trabalhista precarizaram o trabalho, atingindo principalmente as mulheres (70% das trabalhadoras domésticas ainda não tem carteira assinada). Aumentaram o número de trabalhadores informais, sem nenhuma garantia e o trabalho em situações análogas à escravidão.

A sombra se estende por meio da depredação e devastação da Mãe Terra. Ela tem sido agredida pelo avanço do desmatamento por interesses do agronegócio, das madeireiras, das mineradoras e garimpeiros, fazendo crescer as queimadas, o efeito estufa e desequilibrando o clima e o ecossistema em prejuízo global, sobretudo para os povos indígenas e tradicionais.

Ao levantar essas questões, a CFE 2021 quer promover um diálogo maduro, fraterno e responsável que acorde em nós o compromisso de amor com a vida humana e a vida no planeta. Não podemos seguir a “onda”  individualista e desumana que  tem dominado as redes sociais. Precisamos ter senso crítico, analisar melhor a situação e nos guiar, primeiro, pelo amor de Deus revelado em Jesus. Como seguidores(as) de Jesus Cristo, temos  que encontrar meios de colaborar para a construção de uma sociedade mais humana, justa, solidária e fraterna.

Esta CFE 2021, entre os seus vários objetivos, propõe: redescobrir a força e a beleza do diálogo como caminho de relações mais amorosas; comprometer-nos com as causas que defendem a nossa “Casa Comum”, denunciando a instrumentalização da fé em Jesus Cristo que legitima a exploração e a destruição socioambiental; animar o engajamento em ações concretas de amor ao próximo (TB 3).

APROFUNDAMENTO: Nossa caminhada quaresmal tem feito de nós pessoas mais humanas, justas, solidárias e fraternas? O que ainda nos falta?

 

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