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09/04/2020 Frei Inácio José do Vale   Edição Sociedades empobrecidas tendem a adotar deuses moralizantes
F/ Pixabay
"Quando a vida é dura ou quando é incerta, as pessoas acreditam em grandes deuses."

 

As crenças religiosas são moldadas por uma combinação de fatores históricos, ecológicos e sociais. A partir dessa perspectiva, as sociedades mais pobres tendem a adotar deuses fortemente moralizantes.

A conclusão é de um estudo do NESCent (Centro Nacional de Síntese Evolucionária), um centro de ciência sem fins lucrativos dedicado à investigação interdisciplinar da evolução. Ele é operado pela universidade americana Duke e patrocinado pela National Science Foundation.

Entre os fatores interdisciplinares que levam ao culto a “altos deus” está, por exemplo, a combinação de complexidade política e a limitação de recursos naturais, com água e terras agricultáveis. Para o estudo, assim como as adaptações físicas ajudam populações a prosperarem em ambientes inóspitos, a crença em deuses moralizantes pode ser igualmente vantajosa para as culturas em ambientes mais pobres.

"Quando a vida é dura ou quando é incerta, as pessoas acreditam em grandes deuses", diz Russell Gray, um dos autores do estudo e professor da Universidade de Auckland. Ele disse que o surgimento da religião tem sido explicado como o resultado da cultura ou de fatores ambientais.

Contudo, Carlos Botero, da Universidade da Carolina do Norte e principal autor do estudo, afirmou que, pelo novo estudo, a crença religiosa advém da mistura de variáveis ecológicas, históricas e culturais. Gray se dedica à intersecção da psicologia com linguística; e Botero é um ecologista evolutivo que acompanha o comportamento de aves.

O novo estudo contou também com a colaboração de especialistas em meio ambiente, história, cultura, antropologia e estudos religiosos. Os pesquisadores analisaram 583 sociedades. Botero verificou que a distribuição global de sociedades que acreditam em deuses moralizantes é bastante semelhante ao mapa de reprodução cooperativa em aves. Para ele, isso sugere que em ambos os casos fatores ecológicos desempenham um papel importante.

Ele disse que o estudo identificou somente a ponta do iceberg da análise do comportamento humano a partir de um ponto de vista interdisciplinar. "Estamos em um momento sem precedentes na história." "Agora somos capazes de aproveitar uma combinação de disciplinas multidisciplinares para explorar de forma empírica vários tipos de questões”, afirmou.

Usando o mesmo cruzamento de dados, Botero e seus colaboradores vão estudar outros comportamentos humanos, incluindo os tabus, a circuncisão e a modificação de habitats naturais (1).

Países menos religiosos têm mais justiça social

O sociólogo norte-americano Phil Zuckerman diz ser balela o conceito segundo o qual a sociedade que não cultua Deus está condenada a atrocidades de toda ordem.

Phil Zuckerman é sociólogo, com mestrado e PhD em Sociologia pela Universidade do Oregon. Atualmente, é professor do Pitzer College, em Claremont, no sul da Califórnia.

Ele constatou que os países menos religiosos são os que tendem a ser mais saudáveis, morais, igualitários, livres. Já onde há forte presença de Deus, das religiões, há mais corrupção, pobreza e crimes.

Zuckerman chegou a essa conclusão após ter comparado a Dinamarca e a Suécia, os dois países mais irreligiosos do mundo, com nações cuja população tem forte fé em Deus.

Em recente entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos, mantido por uma universidade jesuíta brasileira, Zuckerman disse que esses dois países, onde morou por mais de um ano para estudá-los, apresentam o menor índice de crença na vida após a morte, na ressurreição de Jesus, no céu e no inferno etc. E não entanto são as sociedades mais prósperas e igualitárias.

Dinamarca e Suécia estão no topo da civilização, diz. É onde mais se respeita as crianças, os velhos, a natureza, é onde mais se cuida da saúde, da democracia e do combate à criminalidade.

O sociólogo disse que nos países onde é forte a influência das religiões existe o conformismo de que tudo afinal “está nas mãos de Deus”.

Em países seculares, a população sabe que tudo depende dela e apenas dela. “Os dinamarqueses e os suecos contam apenas com seu próprio esforço – não com orações a Deus. E eles têm um respeito muito forte pela dignidade humana e, para isso, não precisam de Deus.”

Ele citou o Brasil como exemplo de país injusto socialmente, embora seja forte em religiosidade. “Vocês [brasileiros] têm taxas de pobreza e de criminalidade elevadas, níveis muito altos de desigualdade, de corrupção política, um sistema de saúde pobre, centenas de milhares de pessoas vivendo nas ruas, milhares de crianças pedindo comida.”

Zuckerman deixa claro que Dinamarca e Suécia, onde poucos levam Deus a sério, são mais humanos que o Brasil. Afirma não ser contra as religiões e que, como estudioso, apenas faz constatações (2).

Phil Zuckerman  explica que a religião nos EUA é um assunto de grande importância – e eu abordo isso no meu livro. Em poucas palavras, os altos índices de religiosidade nos EUA têm a ver com o seguinte: a religião é pesadamente comercializada e agressivamente “vendida” aqui. Nós também temos altas taxas de pobreza, de criminalidade e de desigualdade, nós também temos altos índices de diversidade racial e étnica e um excesso de comunidades imigrantes – tudo isso contribui com a nossa forte religiosidade aqui nos EUA.

Segundo ele, a maioria de seus conterrâneos norte-americanos “pensa que qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-Lo no centro de sua cultura será condenada”, ou que “sem uma religião forte, um país se desintegrará no caos, no crime e na imoralidade”. Assim, entrevistando 150 cidadãos dinamarqueses e suecos, ele quis mostrar que, mesmo sem Deus, “é possível que uma sociedade seja forte, saudável, moral e próspera”.

As sociedades menos religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais saudáveis, mais morais, mais igualitárias e mais livres – e as nações mais religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais corruptas, pobres, dominadas pelo crime e caóticas. Eu sei que as pessoas relativamente não-religiosas que eu conheci e/ou entrevistei na Escandinávia estavam entre as pessoas mais gentis e mais humanas que eu já conheci – e tudo sem muita fé em Deus, afirma Zuckerman (3).

Conclusão

A Escravidão

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

 

O sergipano Tobias Barreto de Meneses (1839-1889), filósofo, poeta, crítico e jurista, ao escrever esse verso denunciava a infame permissividade religiosa com a cruel escravidão brasileira.

 

Como sempre registra a História, o sistema religioso comungou e legitimou as atrocidades em nome da divindade, via seus escritos “ditos sagrados”, sua hierarquia, seus sacrifícios e conectados com os poderes político, social e econômico. As mordomias, os luxos da liderança paga pelo povo pobre.

A doutrinação do medo: medo do pecado, da condenação, do diabo e do inferno. Cria no fiel a fobia patológica. Molda o infantilismo mental prejudica a maturidade intelectual, profissional, familiar e social. O efeito de tudo isso é o desequilíbrio emocional e as incompatibilidades de relacionamentos com o indiferente e com a liberdade dos outros. Daí a intolerância, o fanatismo, a perseguição e os crimes.

 

Frei Inácio José do Vale

Professor e conferencista

Sociólogo em Ciência da Religião

Fraternidade Sacerdotal Jesus Cárita

E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

 

Fontes:

(1)https://www.paulopes.com.br/2015/04/sociedades-pobres-tendem-adotar-deuses-moralizantes.html#.Wt8r4C7wbIU

(2) https://www.paulopes.com.br/2009/01/pases-menos-religiosos-so-mais-justos.html#.Wt8vWC7wbIU

(3) https://integras.blogspot.com.br/2008/12/pas-menos-religiosos-so-os-mais.html

 

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