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11/10/2021 BBC / Religion Digital Edição 3941 Sínodo da Sinodalidade: A grande consulta que pode mudar o futuro da Igreja Católica
F/ Religiondigital
"Ao definir que o próximo sínodo terá como tema a própria sinodalidade - o modo de ser e de agir da Igreja -, inspira-se no modo de vida dos primeiros cristãos, cujas decisões foram tomadas colegialmente. Claro que isso não significa que a Igreja Católica abraçou a democracia."

O Papa Francisco iniciou neste fim de semana um processo que pode mudar o futuro de uma instituição que, ao longo dos séculos, se tornou um símbolo de hierarquia rígida, conservadorismo e falta de transparência.

O Sumo Pontífice exortou os católicos a "não ficarem presos às certezas", mas "a escutarem uns aos outros" ao apresentar a iniciativa na missa deste domingo na Basílica de São Pedro.

“Estamos prontos para a aventura desta viagem? Ou temos medo do desconhecido, preferindo refugiar-nos nas desculpas habituais: 'não adianta' ou 'sempre fizemos assim'?

Amplo processo de Escuta

Francisco deseja que, nos próximos dois anos, a grande maioria dos 1,3 bilhão que se declaram católicos no mundo seja ouvida sobre o futuro da Igreja. Para isso, conta com os impulsos das comunidades locais numa primeira fase, as assembleias regionais na fase seguinte e, por último, o Sínodo dos Bispos previsto para 2023 no Vaticano.

Questões que surgiram mais recentemente, como a maior participação feminina na tomada de decisões da Igreja e maior aceitação de grupos ainda marginalizados pelo catolicismo tradicional, serão algumas das questões que provavelmente aparecerão neste processo de consulta pública, a maior de todos os tempos, realizada na história do catolicismo.

Além disso, Francisco deve aproveitar este momento para consolidar um claro compromisso de seu pontificado com as reformas. Ao definir que o próximo sínodo terá como tema a própria sinodalidade - o modo de ser e de agir da Igreja -, inspira-se no modo de vida dos primeiros cristãos, cujas decisões foram tomadas colegialmente. Claro que isso não significa que a Igreja Católica abraçou a democracia.

As decisões continuam como de costume: respeitando a hierarquia tradicional. A consulta pública será democrática, mas o Papa terá a última palavra. Se for bem sucedida, a instituição terá dado um passo importante.

Para os especialistas consultados pela BBC News Brasil, a chamada sinodalidade pode deixar de ser um método para se tornar uma forma de pensar. O que significa que o modelo levado ao extremo por Francisco dificilmente pode ser deixado de lado, mesmo quando o papa é outro.

A voz do povo

O que começa neste fim de semana é um processo de sinodalidade que visa estar aberto à escuta de todos os católicos que desejam se expressar nos próximos dois anos. Os 1,3 bilhão de católicos representam metade dos cristãos do mundo. O atual pontífice mostra mais uma vez, e de forma contundente, que acredita em uma Igreja que escuta os desejos dos cristãos de todo o mundo.

Este futuro encontro de bispos, portanto, não se limitará a conferências dirigidas por religiosos dentro dos muros do Vaticano. Radical? “É o maior sínodo, a maior experiência de sinodalidade que já se fez na Igreja”, afirma Filipe Domingues, médico da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

“A proposta é ampla, pretende que todos os fiéis batizados tenham a possibilidade, em alguma parte do processo, de serem consultados”. Nunca na história da Igreja houve uma tentativa de consultar todos os católicos do mundo.

“Claro, ninguém vai de porta em porta falar com todo mundo. Mas as reuniões e assembleias devem ser realizadas em paróquias e grupos, devem ser entregues questionários. A ideia é que todos se sintam motivados a participar”, explica Domingues.

“É a tentativa mais ampla de enraizar a sinodalidade, não mais como um processo e uma forma de fazer as coisas, mas como uma mentalidade da Igreja”.

O que o papa Francisco quer

A palavra sínodo vem da união de dois termos gregos, synodos (reunião ou conselho) e hodós (caminho). A sinodalidade, portanto, é uma forma de acreditar que o caminho depende de um entendimento comum, que as decisões não devem ser impostas por uma autoridade, mas vir da base.

Desde que se tornou Papa, em 2013, o argentino Jorge Mario Bergoglio mostrou que esta é a sua aposta para o futuro. De certa forma, ele recupera o modus operandi das primeiras comunidades cristãs antes que a instituição se tornasse poderosa e influente. Naqueles primeiros dias, cada uma das decisões era colegial. Ao longo do caminho, Francisco também aprofunda uma ideia levantada no Concílio Vaticano II.

Em resposta aos desejos expressos pelos padres conciliares, o então Papa Paulo VI (1897-1978) criou em 1965 o Sínodo dos Bispos, uma reunião periódica para reunir representantes episcopais de todo o mundo para discutir questões específicas.

Desde então, já foram realizadas 29 reuniões sinodais, entre ordinárias, extraordinárias e regionais.

A última reunião do novo sínodo acontecerá em 2023, mas ao apresentá-la neste fim de semana, Francisco radicaliza algo que vinha buscando desde o primeiro dos cinco sínodos já convocados por ele: a participação das comunidades.

“Nesta nova assembleia sinodal, o mais importante não serão as conclusões, mas o processo de escuta e participação eclesial que ela desencadeia”, explica o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Centro de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Além disso, existe a possibilidade de Francisco encerrar seu pontificado, por aposentadoria ou morte, antes do término do sínodo. Assim, o processo sinodal passa a ser um meio de garantir a continuidade do processo de mudança iniciado por Bergoglio, independentemente de quem seja o novo papa.

 

“O ponto crucial é a ampla consulta à comunidade católica, que começará em nível local, nas dioceses e paróquias, e culminará na assembleia episcopal”, acrescenta Borba Ribero Neto. “Essas consultas tornaram-se características de uma 'forma de Francisco' de governar a Igreja, embora processos semelhantes possam ser encontrados em várias experiências anteriores”.

“A ideia é que antes de cada grande decisão, antes de se estabelecer a orientação da Igreja, as pessoas sejam consultadas”, diz Domingues. “No final das contas, a Igreja mantém sua estrutura hierárquica e tudo mais. Sempre será uma autoridade que toma a decisão. Mas será iluminado por essas experiências de baixo para cima”, diz ele.

 

Família, juventude e a Amazônia

Desde que assumiu o comando do Vaticano, Francisco realizou quatro sínodos. Os dois primeiros discutiram a família. O terceiro abordou a questão da juventude. O último, ocorrido em 2019, trouxe para o centro da Igreja Católica um tema urgente hoje: a Amazônia, com todas as suas implicações sociais, geográficas e ambientais.

O Irmão Marcelo Toyansk Guimarães, da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Frades Capuchinhos e assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lembra bem o preparatório dos eventos que ajudou a organizar entre 2018 e 2019.

“Procuramos fazer eco a estes temas durante o processo sinodal, ajudando toda a Igreja a repensar um novo processo: a ecologia integral, uma Igreja de partida e todas as perspectivas que o sínodo trouxe”, afirma.

Maior protagonismo das mulheres

Uma das novidades pode ser um maior protagonismo da mulher na tomada de decisões. Outra novidade recente é a convocação para participar do encontro de especialistas ou especialistas leigos . O evento de 2019, por exemplo, contou com a presença do renomado climatologista brasileiro Carlos Nobre, da equipe ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2007, e de Ban Ki-moon, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Abertura do Sínodo em Roma

Um ano antes, no sínodo que tratou da questão da juventude no mundo contemporâneo, outro leigo brasileiro foi convidado. É sobre Filipe Domingues, que nessa altura fazia o doutoramento na Universidade Gregoriana. “Foi inesperado”, diz ele. Um professor o convidou para participar de uma reunião pré-sinodal. Ele acabou se tornando um dos relatores. Mais tarde, junto com outro colega, acabou sendo chamado para atuar no próprio sínodo.

“Eles queriam que houvesse pelo menos dois jovens relativamente jovens no comitê de especialistas”, explica ele. Ele lida principalmente com questões relacionadas ao uso das mídias sociais na comunicação entre os jovens. Ele destaca a importância de eventos pré-sinodais como aquele. “Isso trouxe questões ao sínodo que, em minha opinião, os bispos sozinhos não teriam pensado ou não teriam pensado o mesmo”, acredita.

“Por exemplo, a participação das mulheres ou mesmo questões de sexualidade, que são importantes. Muitos jovens têm dificuldade em viver o que a Igreja pede nesta área”.

No entanto, também há oposição. No relatório, dois membros ativos da Igreja Católica no Brasil criticam como as reuniões pré-sinodais vêm ocorrendo sob o pontificado de Francisco.

Ambos pediram para não dar seus nomes, mas expressaram seu desconforto pelo fato de as discussões, em tempos de forte polarização ideológica, terem sido monopolizadas por grupos alinhados à esquerda.

No tabuleiro de xadrez do Papa, resta colocar os chamados "progressistas" e "conservadores" do mesmo lado. A ideia de convocar um sínodo para debater a sinodalidade soou inicialmente como uma espécie de provocação. Mas, no limiar do lançamento do processo, já é entendido como um eco profundo do ensinamento de Francisco.

Processo comunitário

O sociólogo Ribeiro Neto enfatiza que a sinodalidade “é um processo 'comunitário'”, que não deve ser confundido com um movimento democrático. “Em um processo democrático, as decisões nascem de uma posição majoritária, muitas vezes determinada pelo voto. Na comunhão, as decisões nascem de um consenso apoiado na sabedoria e na espiritualidade dos mestres da fé”, explica.

“O que Francisco insiste em lembrar é que eles não são necessariamente os líderes ou os doutos, mas qualquer membro da comunidade que tenha o verdadeiro discernimento da fé”, continua Ribeiro Neto. “Francisco é, antes de tudo, um místico. Procura nas polêmicas e muitas vezes nas vozes dissonantes do mundo os sinais da vontade de Deus.

“Para ele, o sínodo é isso: oportunidade de ouvir a voz de Deus que se esconde entre os mais pequenos, não é um processo democrático de consulta à maioria. É um evento de cunho espiritual e místico, mais do que político e organizacional ”, resume o sociólogo.

 Fonte: ReligionDigital

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