Formação Missão
28/12/2020 Denilson Mariano Edição 3931 Ser profundo sem perder a simplicidade O uso da linguagem simbólico-cultural - Contribuição do João Resende à ação evangelizadora
F/ Arquivo O Lutador
"Um dos legados de João Resende ao serviço de ação evangelizadora, é sem dúvida, o uso e o cultivo da linguagem simbólico-cultural. Ser profundo sem perder a simplicidade."

Denilson Mariano

Um dos legados de João Resende ao serviço de ação evangelizadora da Igreja, é sem dúvida, o uso e o cultivo da linguagem simbólico-cultural. Procuramos evideciar alguns traços desta forma de linguagem que favorece a inculturação e permite uma maior autonomia e protagonismo missionário no seio da Igreja. João Resente tem o dom de ser profundo sem perder a simplicidade.

Em 1991 tive oportunidade de acompanhar o João Resende nos trabalhos missionários no Mato Grosso. Em Reserva do Cabaçal, em meio a outros cursos, houve um encontro com um grupo de casais. João me pediu para falar um pouco da “psicologia das idades”, a fim de ajudar os pais a compreenderem a importância da educação dos filhos desde o ventre materno.

Quando um dos participantes me pediu um exemplo, com disposição fui ao quadro, fiz  um “X” e comecei a falar de um filho hipotético, que vivenciara agressões ainda no ventre materno e seus eventuais reflexos na vida futura. Depois de terminado o encontro, com muito jeito, o João chegou para mim e perguntou: “Ao invés de falar do ‘filho X’ não seria mais claro para as pessoas dar um nome: Pedro, João, Manoel”?... Ele me ajudava a compreender que é preciso ser profundo, mas sem perder a simplicidade. Fazer o conhecimento acessível aos mais simples mas de forma emancipadora, para que se tornem verdadeiros sujeitos.

Eu tinha acabado de concluir o curso de graduação em filosofia, mas não tinha dado conta de como a linguagem racionalista me dominava e, ao invés de facilitar, dificultava a comunicação. João Resende desde que o conheci, no primeiro curso de Semana Santa em 1983, em Manhumirim-MG, sempre manifestou uma sensibilidade especial para expressar coisas profundas de forma muito simples. Uma capacidade de utilizar elementos da natureza, ditados populares e situações da vida cotidiana para tornar o anúncio do Evangelho mais acessível e penetrante. Um meio de fazer com que a leitura da realidade social se torne mais clara a todos. A exemplo de Jesus, que fazia uso constante de parábolas, João Resende utiliza-se de comparações e símbolos oriundos da vida do povo. Ele faz uso de uma linguagem que podemos chamar de simbólico-cultural.

Uso da linguagem simbólico-cultural

Sabemos que a linguagem, em si mesma, já é uma convenção de sinais e símbolos que utilizamos para nos comunicar, mas que facilmente pode também cair em abstrações e racionalismos que a torne inacessível e até incompreensível a uma grande maioria das pessoas. Ao enfatizar esta dimensão simbólica acenamos para a necessidade evitar o racionalismo na linguagem pastoral e, a exemplo de Jesus, priorizar uma linguagem mais próxima do universo de compreensão das pessoas.

O símbolo além de ser algo constitutivo da própria natureza humana, possui a capacidade de expressar, comunicar e entrar em comunhão com as realidades mais profundas. O simbólico não se opõe ao real, mas permite acesso a ele, torna-o mais acessível, permite captar o real de forma diferenciada. Uma troca de alianças indica a união de duas pessoas. O material pode ser ouro, prata, madeira... Porém, seu valor não está no objeto em si, mas naquilo que simboliza. Ainda que o objeto seja trocado, o que simboliza permanece. Pois o simbólico é mais forte que o real. Expressa uma realidade mais profunda, não material, que ultrapassa o que se vê ou que pode ser tocado.

O símbolo está sempre colado ao universo cultural. Fora do universo de compreensão das pessoas, o símbolo se esvazia. Por exemplo, aqui no Brasil e na maioria dos países cristãos, para expressar o luto, usamos traje preto. Já nos países orientais como China e Japão, o branco é que se usa para expressar o luto. Desconhecer esse dado cultural pode levar a incompreensões, a leituras equivocadas da realidade. Eis porque o simbólico não pode distanciar-se do universo cultural, das pessoas envolvidas no processo de comunicação. Sob o risco de virar um mero recurso didático, talvez interessante, mas incapaz de expressar as realidades mais profundas, sem força para penetrar o interior das pessoas e nelas fazer morada. 

A cultura abarca toda a vida: linguagem, símbolos, crenças, ritos, músicas, costumes, hábitos... Conhecer a cultura de um povo é caminho necessário à ação evangelizadora. Talvez um dos motivos pelos quais Jesus tenha vivido no anonimato por aproximadamente 30 anos. Aprendendo, inserindo-se na vida, nos costumes, na cultura do povo de Nazaré e arredores. Talvez por isso, Jesus use, com tanta propriedade, símbolos, imagens, comparações e parábolas que se casam perfeitamente com a cultura de seu povo. Talvez por isso Jesus priorize as imagens mais rurais e Paulo faça uso de imagens do mundo urbano. Sempre em sintonia com o universo cultural das pessoas.

Penetrar na alma do povo

A linguagem simbólico cultural permite a inculturação da fé, cria condições para que o Evangelho possa penetrar na alma do povo. Possibilita “tirar o véu”, fazer “descobrir”, propicia uma nova visão sobre a própria realidade. Cria condições para que o Evangelho possa produzir seus frutos no meio das comunidades, na Igreja e na sociedade.

A linguagem simbólica não se desconecta da cultura, antes nasce dela e nela se alimenta constantemente, permite descobrir na realidade um sentido maior, mais denso e profundo.Ela favorece a conexão entre fé e cultura, portanto, um caminho necessário para o serviço da evangelização.

Por trabalhar com elementos já presentes no imaginário, na alma, no coração do povo, a linguagem simbólico-cultural faz alcançar um “plus” de sentido, algo mais forte e profundo que enlaça, envolve com maior força a pessoa diante da realidade por ela vivida.

Simplicidade e profundidade

João Resende procura chegar aos locais de encontro sempre mais cedo. Ele está sempre atento aos sinais da natureza, aos acontecimentos e à partilha espontânea que brota da conversa com as pessoas. Assim brotam muitos dos elementos simbólico-culturais que passam a fazer parte da reflexão que acontece, posteriormente, no salão de curso. Por isso cada encontro, ainda que desenvolva um mesmo assunto, torna-se sempre novo, único e não cai numa mera repetição de conteúdos.

Esta sensibilidade para captar os elementos simbólicos e aplicá-los, de forma contextualizada e próxima do universo cultural das pessoas, tem uma enorme força de penetração na mente e no coração das pessoas e confere à ação evangelizadora uma força extraordinária. As pessoas se sentem à vontade, interagem, ampliam a reflexão e fazem novas aplicações a partir do símbolo. Neste sentido a linguagem simbólico-cultural confere maior autonomia e favorece a atuação dos leigos e leigas como verdadeiro sujeitos no processo de ação evangelizadora.

As palavras e discursos feitos dentro do salão podem se perder com o tempo, mas o simbólico permanece, se enraíza e se perpetua na mente e no coração das pessoas. Em uma das festas do Evangelho, nos anos 1990, João Resende comparou a bíblia e a resistência do povo com a flor do Ipê. Quando tudo está seco, sem vida, o Ipê floresce, renova a esperança, pois tem raízes profundas. Quem se enraíza na Palavra de Deus não perde a esperança diante das dificuldades. Mais de vinte anos depois, vira e mexe, muitos da liderança de comunidade continuam fazendo referência ao “Ipê florido na seca” destacando a necessidade de permanecer firmes na Palavra de Deus para manter viva a esperança diante dos desafios da vida. E o verso feito por ocasião da festa do Evangelho permanece atual: “Passa a chuva, vem a seca, chega o tempo sofrido. Mas a Palavra de Deus é Ipê sempre florido.”

A linguagem simbólico-cultural precisa ser melhor cultivada e apropriada pela Igreja, pelos dirigentes de comunidade e agentes de pastoral. Além de sua enorme força de inculturação da fé, ela dá autonomia, favorece a atuação das pessoas como sujeito na evangelização e penetra na alma do povo, nos pequeninos do Reino.

João Resende, no alto de seus 80 anos, testemunha uma vida a serviço do Evangelho nas pequenas comunidades, anunciado de forma simples e profunda, por meio de uma linguagem simbólico-cultural que emancipa as pessoas e faz delas verdadeiros sujeitos na Igreja e na Sociedade. João é um dos pequeninos do Reino que com seu modo de ser e agir nos ensina e inspira a anunciar a Boa Nova do Reino aos pequenos. Por sua vida e missão dedicadas à ação evangelizadora e pelo bem realizado no meio do povo de tantas comunidades, elevamos a Deus o louvor feito por Jesus:  “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos.” (Mt 11, 25).

 Leia também:
Um bispo que escuta os pequenos
O legado de Francisco
Carta Apostólica Patris Corde
O ano de São José
Rede brasileira de fé e política

Os Ricos e a solidão

Em defesa das populações ameaçadas

Pela unidade dos cristãos
Dom e profetismo
Sementes de um mundo novo
Piracema: força de vida e esperança
Os warao e a Fratelli Tutti

Missionário Incansável

O Som da cor e as sementes da coragem

Tornamo-nos aquilo que escolhemos, para o bem ou o mal

Existem padres na Amazônia?
“Nossa vida está sempre por um fio”
Consciência negra com D. José Maria Pires
Contra o racismo, a favor da vida para todos

 Acesse este link para entrar nosso grupo do WhatsApp: Revista O Lutador Você receberá as novas postagens da Revista O Lutador em primeira mão.

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS