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10/04/2021 Marcelo Barros Edição 3935 Senso crítico, dúvidas e suspeitas que alimentam a fé
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"Tomé representa o que hoje se chama de “cultura da suspeita”. Jesus respeitou a todos. Aceitou os que duvidavam e aceitou Tomé que suspeitou dos outros e da verdade da ressurreição..."

Marcelo Barros

 Pelo segundo ano consecutivo, celebramos a Páscoa como os discípulos e discípulas dos quais o evangelho de João diz que se reuniam em uma sala de portas fechadas. Para sermos mais concretos, nem nos reunir podemos, menos ainda em uma sala fechada. Eles se mantinham assim por medo dos religiosos do templo. Nós, forçados pela pandemia.

Neste 2o Domingo da Páscoa, o evangelho lido nas Igrejas (João 20, 19- 31) revela que todas as vezes que nos reunimos no nome de Jesus,  refazemos e atualizamos aquele encontro dos discípulos com o Ressuscitado. O evangelho diz que, mesmo se as portas estão fechadas, Jesus se deixa ver pelos discípulos e lhes traz a Paz, a alegria e a reconciliação para iniciar uma nova missão.

A maioria de nós fomos formados em imaginar o Ressuscitado como uma figura gloriosa e coberta de esplendor. Ao contrário, conforme o evangelho, o que, em primeiro lugar, Jesus mostra aos seus amigos e amigas são suas chagas. Ele não mostra um corpo glorioso e etéreo e sim as chagas da cruz. É o curador ferido. Ele ressuscita desse modo: revelando as feridas que têm no corpo e na alma. Assim, nos ensina o caminho da ressurreição. Não mudou nada de quando ele ensinava aos discípulos que a missão implicava no assumir a cruz. Agora, ressuscitado, pede que vençamos o medo e a vergonha e aceitemos revelar nossas feridas interiores. Deixemos que os amigos e amigas possam tocar e cuidar de nossas feridas. Apesar de, pessoalmente, ter muita dificuldade de viver isso (aceitar ser cuidado), sei que só quando assumimos nossas chagas  e aceitamos que os amigos/as cuidem delas, é que podemos viver a experiência da ressurreição. Só assim, podemos anunciar um modo novo de viver ressuscitados. Só quando a gente tem coragem de mostrar as nossas feridas interiores e sociais), parece que a vida pode se recompor e - se tornar nova... Assim, as chagas, do Ressuscitado e as nossas, se tornam como que chagas luminosas. É ao reconhecer Jesus vivo nas pessoas feridas, que os discípulos se enchem de uma imensa alegria, como a alegria que Jesus havia prometido na ceia quando disse: "Hei de ver vocês outra vez e vocês se encherão de uma alegria tal que ninguém poderá tirar de vocês essa alegria" (Jo 16, 20). ?

Hoje é o oitavo dia. Assim como Tomé era discípulo, mas não estava com o grupo no primeiro domingo, também nós não estávamos. Tomé nunca aceitou Jesus ter vindo a Jerusalém e deixou claro no capítulo 11 que ele estava ali forçado. Acreditava em um Jesus, enviado de Deus, mas sem cruz.... E agora não acreditava mais. Os outros tinham medo, tinham dúvidas, não sabiam se acreditavam ou não, mas seja como for, ficaram juntos em uma sala fechada... Tomé, não. A fé dele era individualista, era eu e Deus... E não previa cruz, chagas. (Só se eu tocar nas chagas dele, vou crer que isso é assim, é real).

Para o evangelho, a comunidade dos discípulos e discípulas é o símbolo das pessoas que duvidam e hesitam. Tomé representa o que hoje se chama de “cultura da suspeita”. Jesus respeitou a todos. Aceitou os que duvidavam e aceitou Tomé que suspeitou dos outros e da verdade da ressurreição. Jesus nos aceita na fragilidade e com as dúvidas de fé que temos. Só pede que permaneçamos buscando e juntos. Só quem se isola e abandona a busca não tem como resgatar. Aos outros Jesus se mostra.

No oitavo dia da ressurreição, portanto, no domingo de hoje, Jesus se deixa ver e se deixa tocar... Ao se mostrar aos discípulos, mesmo com portas fechadas, não mostra nenhuma luz especial. Não fala de vitória nenhuma. Não voa, nem parece ter nada de especial... Mostra as chagas e pede que Tomé toque e veja o sangue ainda correndo na ferida que tem no peito nu.

Jesus ressuscitado ressuscita os discípulos. Faz eles passarem do medo à liberdade, à paz, à alegria e ao perdão. Hoje, Ele nos convida para reconstruir as nossas vidas, através do perdão a nós mesmos e aos outros. A ressurreição de Jesus se renova para nós hoje. Como Tomé, podemos tocar nas chagas do Ressuscitado nas pessoas feridas pelas injustiças da vida.

Tanto na época em que o evangelho de João foi escrito, como nas Igrejas e no mundo de hoje, muitas pessoas creem em um Cristo aéreo, celestial e pouco humano. Nós, da caminhada do Cristianismo Social e Libertador, proclamamos a fé em um Jesus histórico, real, com corpo e com chagas. É diante do ser humano meio nu, ferido e sangrando, que fazemos como Tomé, nos prostramos e dizemos: Meu Senhor e meu Deus. Se não formos capazes de fazer isso diante das pessoas concretas, cada uma com suas feridas, não testemunhamos a ressurreição de Jesus.

Tocar as chagas de Jesus é tocar nas chagas da humanidade hoje e ser capaz de reconhecer a presença do Espírito nas vítimas da sociedade atual. E são tantas pessoas. As pessoas que, neste momento, nos diversos serviços, vivem a solidariedade e cuidam dos outros tocam nas chagas de Jesus e testemunham ressurreição. Tocar nas chagas do irmão e irmã feridos e reconhecer neles e nelas o Cristo ressuscitado é o caminho para ouvirmos dele (de Jesus) hoje essa palavra de Paz:

Hoje, o Coronavírus é a chaga que faz sangrar o lado aberto de Jesus, mas a lança que provoca a ferida é mais do que um vírus. É o modelo social que discrimina as pessoas e organiza um mundo sem amor.

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