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18/02/2022 Marcelo Barros Edição 3945 Se Deus é de direita ou de esquerda
F/ CEBS do Brasil
"Construir a comunidade é continuar a ação de Jesus que, conforme os evangelhos, “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10). Não anunciou a si mesmo e sim testemunhou o projeto de amor e justiça que Deus tem para o mundo (o reinado divino)."

Por vários motivos, no Brasil, esse assunto parece ser dos mais atuais e importantes. Antes de tudo, porque, há várias eleições, não poucos bispos e pastores pentecostais e evangélicos, assim como também alguns padres e bispos católicos, fazem de tudo para mostrar que Deus aceitou ser cabo eleitoral dos candidatos que eles, pastores, defendem. Além disso, querem desmoralizar e demonizar os seus adversários aos quais, indiscriminadamente, denominam como sendo de esquerda, sem se preocupar em saber o que isso possa significar. Não basta terem muito mais dinheiro do que os outros e contarem com o apoio de grandes meios de comunicação. Procuram desviar a discussão dos problemas do país e trazer para o centro das campanhas eleitorais o projeto de manutenção da moral sexual e dos padrões da família brasileira.
Recentemente, no domingo, 23 de janeiro último, Renato Cardoso, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhou à imprensa uma declaração na qual afirma que “cristão de verdade não pode, nem deve compactuar com ideias esquerdistas” e explica: “A esquerda prega contra o casamento convencional e destrói a rede familiar para salvar o povo, usando assistencialismo manipulador” (Cf. Carta Capital, 24/01. 2022).
Qualquer pessoa medianamente informada e com o mínimo de senso crítico percebe que esses ministros religiosos falam de Deus e da fé, como se fossem proprietários da marca Deus. Como se Deus tivesse assinado contrato de exclusividade com eles e os seus grupos.
Para todas as religiões, Deus é Mistério e, como afirmava o Mestre Eckhart, místico medieval: “tudo o que se disser dele, revela mais da pessoa que fala aquilo do que, propriamente, de Deus”. No Budismo, não se fala em Deus. Nas tradições de matriz africana e de povos originários, os cultos e expressões de piedade se fazem às manifestações divinas na natureza.
De acordo com a Bíblia, a primeira recomendação divina no Sinai foi nunca pretender usar o nome de Deus. Um documento cristão do primeiro século afirma que “muitas vezes e de vários modos, Deus nos fala pelos profetas e profetizas, assim como fala, particularmente, por Jesus” (Hb 1, 1). No entanto, nunca os profetas, nem Jesus, se comportaram como donos de Deus. Para receber sua Palavra, tiveram de, em primeiro lugar, receber essa Palavra para si mesmos e viver aquilo que deveriam transmitir aos outros.
Por toda a Bíblia, do início ao final, há uma pergunta que precisa sempre ser respondida: como se sabe se a profecia que é falada vem mesmo de Deus. Para essa pergunta, o apóstolo Paulo propõe dois critérios: 1º – confessar Jesus como Senhor. (É Jesus e não a Igreja). 2º – verificar se aquilo que fala serve para edificar (construir) a comunhão da comunidade (1 Cor 12). As falas que são para semear divisão, jogar pessoas umas contra as outras e criar uma cultura de fake-news só podem vir de falsos profetas.
Construir a comunidade é continuar a ação de Jesus que, conforme os evangelhos, “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10). Não anunciou a si mesmo e sim testemunhou o projeto de amor e justiça que Deus tem para o mundo (o reinado divino). Assim sendo, quando vocês virem pastores pentecostais ou bispos e padres católicos, compactuando com governante genocida ou com juiz venal e desonesto, saibam que esses ministros religiosos são impostores e merecem o que deles afirmava o cineasta Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas esses amigos dele, eu não recomendo a ninguém”.

* Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor. Trabalhar pela unidade das Igrejas, das tradições religiosas e com movimentos populares.

Fonte: CEBs do Brasil

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