Formação Liturgia
30/05/2022 Marcelo Barros   Edição 3947 Saborear agora a vitória que nos é prometida  
F/ Religiondigital
"Jesus não partiu. Deixou de ser visto para, através do seu Espírito (o Espírito Santo), estar dentro deles e delas. Ele se torna invisível à medida que abençoa os discípulos. Para nós, hoje, nessa realidade brasileira, o que significa pensar que Deus assume e, assim, torna divinas nossas lutas e nossas dores, nossa fragilidade e nossas esperanças?"

 

Neste domingo, no Brasil, a Igreja Católica e algumas outras Igrejas celebram a festa da Ascensão de Jesus. O  trecho do evangelho que escutamos é o final do evangelho de Lucas (Lc 24, 46- 53). É o único evangelho que fala propriamente em Ascensão (ele foi elevado) e faz isso para sublinhar que Jesus foi como absorvido por Deus. Na pessoa de Jesus, Deus assumiu toda a humanidade. Tornou divino tudo o que é humano. O evangelho de Lucas finaliza dizendo que “os discípulos (e discípulas) voltaram a Jerusalém com grande alegria e permaneciam sempre no templo, bendizendo a Deus” (Lc 24, 53).

Nesse versículo, Lucas retoma os grandes temas do evangelho. Na época, as comunidades cristãs ainda se sentiam ligadas ao Judaísmo. Não pensavam ser uma religião nova. O evangelho respeita essa inserção cultural e religiosa. Ao contrário, manda que “fiquem na cidade até serem revestidos com a força vinda do alto”. Então, eles e elas deviam permanecer em Jerusalém, isso é, inseridos na sua cultura e na sua história para receber o Espírito Santo e a missão de ser testemunhas da ressurreição e da reconciliação de Deus com toda a humanidade. Hoje, ainda há pessoas nas Igrejas (ministros) que reagem muito negativamente ao fato de que irmãos e irmãs de comunidades afrodescendentes ou indígenas se declarem cristãos, sem deixar sua pertença tradicional à tradição espiritual negra ou indígena. Como se a fé cristã fosse produto comercial e exigisse exclusividade.

O evangelho sublinha que os discípulos e discípulas receberam de Deus o dom da alegria, uma alegria messiânica, imensa e profunda que só pode vir da fé. E este dom divino da alegria precisa ser exercitado. Na exortação Evangelii Gaudium, o papa Francisco nos ensina: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria”. Mesmo em meio a sofrimentos e ao martírio, essa alegria, dom do Espírito, deve se constituir a característica de quem quer ser testemunha da ressurreição de Jesus. 

Lucas insiste que eles e elas permaneceram no templo diariamente bendizendo a Deus. A função do templo era oferecer sacrifícios e não louvar e bendizer. A comunidade de Lucas muda a natureza do templo para uma função mais gratuita e amorosa: bendizer a Deus. Bendizer a Deus é dizer bem da vida, é festejá-la e referi-la ao Espírito. É proclamar que todas as criaturas testemunham sua presença e o seu amor fiel. Infelizmente, até hoje, existe um modo de viver a fé cristã que testemunha um Deus mesquinho, discriminador e amigo só dos seus amigos. Quem vive esse tipo de espiritualidade fala mal do Deus de Jesus.

Finalmente, Lucas insiste na inserção dos discípulos e discípulas na realidade social e política do mundo. O fato de Jesus ter ressuscitado e estar na glória do Pai não nos tira da História. No relato dos Atos dos Apóstolos que tomamos como primeira leitura, os anjos perguntam aos apóstolos: Por que vocês ficam olhando para o céu? Não adianta. Olhem para a terra e vão cumprir a missão de vocês sendo testemunhas disso no meio do mundo e na inserção concreta aqui e agora.

Nossa função de cristãos/ãs é ser testemunhas do projeto divino acontecendo no mundo em meio aos fatos e situações da nossa história concreta. Para isso, contamos com a força do Espírito em nós e conosco. Jesus não partiu. Deixou de ser visto para, através do seu Espírito (o Espírito Santo), estar dentro deles e delas. É importante observar que ele se torna invisível à medida que abençoa os discípulos. Para nós, hoje, nessa realidade brasileira, o que significa pensar que Deus assume e, assim,  torna divinas nossas lutas e nossas dores, nossa fragilidade e nossas esperanças?

Este evangelho nos confirma na opção de que, quanto mais humano formos, mais manifestaremos essa presença do Espírito de Deus Amor em nós. Isso tem relação com o que, na carta aos efésios, Paulo afirma quando propõe “chegarmos ao estado de adultos/as, à estatura do Cristo, em sua plenitude” (Ef 4, 13).

Esse é o objetivo prometido e desejado por Deus e que está ao alcance de todos nós: a plena maturidade humana, até atingirmos a estatura do Cristo, em sua plenitude. É isso. Mesmo se percebemos que ainda falta muito para alcançarmos isso, devemos renovar a confiança de que, apesar dos bloqueios e dificuldades que nós mesmos criamos, Deus vai completar em nós o que Ele mesmo começou. E essa maturidade à estatura do Cristo em sua plenitude, não se refere apenas ao aperfeiçoamento pessoal de cada um/uma. Indica a vocação da humanidade, na qual o Espírito de Deus se insere e vai transformando. Mesmo se a realidade social e política do mundo parece desmentir isso, é nossa vocação não abrir mão dessa fé.

Durante esses próximos dias, antes de Pentecostes, no lecionário litúrgico, a Igreja nos faz escutar a oração sacerdotal de Jesus. Nessa oração, Jesus pede ao Pai que os sinais de amor, que na vida, ele, Jesus, tinha feito ao curar pessoas e testemunhar o projeto divino de vida para todos, a partir de agora deveria ser dado pelos discípulos e discípulas se aceitarem ser unidos/as.  Jesus orou: “Que eles/elas sejam como uma só pessoa, como eu e Tu somos Um, assim também que sejam Um para que o mundo creia” (Jo 17, 20- 22). Há mais de um século, a Igreja nos convida para,  nessa semana entre a Ascensão e Pentecostes, viver a Semana de Oração pela Unidade das Igrejas Cristãs. No Brasil, essa semana é promovida pela CNBB e pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs). É no caminho da unidade e no diálogo com todas as culturas e religiões que podemos testemunhar que Deus assume o Cristo Ressuscitado e este se manifesta a nós em todos os processos de construção de uma humanidade renovada em comunhão com todo o universo.

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