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03/06/2022 Elio Gasda SJ Edição 3948 Recife: O protesto dos pobres é a voz de Deus (Dom Helder)
F/ Faje-bh
"A sociedade civil aprendeu com Dom Helder e se empenhar em ajudar os que tudo perderam. Já os políticos e os ricos prestam solidariedade às vítimas pelas redes sociais. Classificam o problema como “triste desastre” [...] Para os ricos tudo, para os pobres a desgraça."

“Excesso de chuva provoca desastres e semeia a morte”: Jornal do Commercio de 13 de junho de 1965, Recife.

“Bombeiros retiram mais seis corpos de vítimas de deslizamentos no Grande Recife e total de mortos vai a 106”: g1.globo.com de 31/05/2022.

Rios transbordando. Desabamentos, casas arrastadas pelas águas que engolem estradas, carros, lojas, fábricas, bairros, cidades. Gente desparecida, soterrada. Desesperadas! Centenas de mortos. Descaso!

“As inundações… apenas rasgaram o véu da miséria… nós deveríamos declarar guerra à miséria!”: Palavras de Dom Helder Câmara, ditas em 1965! 57 anos se passaram! Nada mudou! Dom Helder continua tão atual quanto o descaso pelos pobres.

Em junho de 1965, após chegar ao Recife, Dom Helder, o bispo das favelas, presenciou a inundação que deixou centenas de desabrigados. Solidário, iniciou uma campanha de arrecadação de mantimentos e de mobilização da sociedade – partidos políticos, governo, maçonaria, paróquias e escolas, todos em socorro aos flagelados.

A história se repete, agora muito pior! Mas a sociedade civil aprendeu com Dom Helder e se empenhar em ajudar os que tudo perderam. Já os políticos e os ricos prestam solidariedade às vítimas pelas redes sociais. Classificam o problema como “triste desastre”, como declarou Bolsonaro. Para os ricos tudo, para os pobres a desgraça.

É preciso resgatar o legado de Dom Helder. A partir da tragédia de 1965 ele articulou ações entre e Igreja, sociedade civil e o poder público. Nasceu a Operação Esperança Urbana: reduzir desigualdades, melhorar as condições de vida dos pobres. A construção de casas populares envolveu os próprios moradores das comunidades. O Programa estimulava a formação de cooperativas de geração de renda, como a das lavadeiras. Organizou conselhos de moradores para discutir soluções como a coleta de lixo e saneamento. Mas não só.

“Quanto mais escura a noite, mais carrega em si a madrugada” (Dom Helder). Em plena ditadura, o “santo rebelde” estimulou a conscientização crítica da população e a capacitação de lideranças para o trabalho conjunto em prol da comunidade. Sua preocupação era organizar o povo. Pobres como protagonistas. Por isso, Dom Helder foi perseguido e censurado pela ditadura. Mas nunca se intimidou: “[…] O que fiz foi defender a justiça. Se combato as injustiças quando são cometidas em qualquer parte do mundo, por que haveria de calar quando as injustiças e arbitrariedades passam dentro do meu país?”

“Bispo vermelho”, incompreendido e criticado: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. Em 1990 afirmou que o Brasil deveria ter como meta a erradicação da miséria e da pobreza absoluta, como meta o ano 2000. Em 1991, iniciou um movimento contra a fome e lançou a campanha “Ano 2000 Sem Miséria”.  22 anos depois, a fome e a miséria estão maiores. O nível de insegurança alimentar no Brasil é de 36%, índice maior que a média mundial (Marcelo Neri, Centro de Políticas Sociais FGV).

Em sua pequenina casa aos fundos da Igreja de Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras, em Recife, recebia a todos. Contudo, seus visitantes preferidos eram os pobres: “[…]a maioria das visitas que recebia era de mendigos e pessoas desesperadas pedindo ajuda. […] O bispo deve ter a porta aberta a todos e não se esconder por trás das grades das cúrias diocesanas e dos palácios episcopais” (José Comblin).

O idealizador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil era considerado por Paulo VI um místico que havia recebido de Deus a missão de pregar a justiça e o amor como caminho para a paz. João Paulo II o chamava de “Irmão dos Pobres, meu Irmão”.

Era junto aos pobres que se sentia próximo de Deus. Dom Helder costumava frequentar uma ponte sempre no mesmo horário. Ali ficava por um tempo e depois descia para estar com os pobres que viviam sob a ponte. Um dia alguém lhe perguntou o porquê. Dom Helder teria respondido: – Aqui de cima faço minha adoração ao Santíssimo. Quando desço recebo o sopro do Espírito Santo que vem do bafo daqueles meus irmãos.

“O clamor dos sem-vez e sem-voz é a voz de Deus. […] quem é despertado para as injustiças, captará os protestos dos pobres. E o protesto dos pobres é a voz de Deus. A voz dos injustiçados é a voz de Deus” (Dom Helder).

Dom Helder fez sua Páscoa em 1999, com 90 anos. Em 2015, foi declarado “Servo de Deus” pela Congregação para a Causa dos Santos. No final de maio foram enviados ao Vaticano meia tonelada de documentos para a continuidade do processo de sua canonização.

“Quando se sonha sozinho é apenas sonho. Quando sonhamos juntos é apenas o começo da realidade” (Dom Helder).

Élio Gasda SJ é professor e pesquisdador no departamento de Teologia da FAJE

Fonte: FAJE-BH

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