Formação Bíblia
07/01/2019 Víctor Codina* Edição 3908 Qual é a raiz desse pecado? A grande tentação religiosa para Israel era a idolatria, era adorar deuses diferentes...
f/periodistadigital
"Eles têm boca e não falam, têm olhos não veem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram; têm mãos e não tocam, têm pés e não andam, sua garganta não tem voz. (Sl 115,5-7). "

Ninguém quer matar diretamente o irmão. Se o faz é por uma razão prevalente, para ganho pessoal.

A tradição bíblica aborda esse problema pelo ponto de vista de idolatria. A grande tentação religiosa para Israel era idolatria, era adorar deuses diferentes de Yahweh.

Toda a pregação profética insiste em afastar-se dos ídolos e adorar a Yahweh, que é o único Deus. Israel, ao chegar à terra de Canaã encontrou-se diante dos Baals, ou deuses dos povos ricos que habitavam aquele lugar.

Logo o povo de Deus teve que enfrentar os deuses da Assíria, Babilônia e seus países vizinhos. Existe como que uma luta dos deuses, entre Yahweh e os Baals, que chega a materializar-se numa espécie de competição entre o profeta Elias e os sacerdotes de Baal (1 Reis 18).

Os profetas insistem que esses deuses são vazios, inexistentes.

Eles têm boca e não falam, têm olhos não veem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram; têm mãos e não tocam, têm pés e não andam, sua garganta não tem voz. (Sl 115,5-7).

Eles são simples produtos humanos, um pedaço de madeira, por isso, não salvam, não conhecem o futuro. Os profetas são irônicos sobre esses ídolos mudos e mortos. Adorá-los é colocar a confiança em um metal.

Porém, esses ídolos não são tão inofensivos como podem parecer. A idolatria se traspassa para as realidades materiais. De fato, os profetas de Israel mencionam a idolatria das alianças de Israel com os impérios poderosos e a idolatria do dinheiro.

Israel deixa de confiar em Yahweh e em suas promessas para cair nos braços de seus aliados políticos, os grandes impérios da época (Egito, Assíria, Babilônia). É uma verdadeira idolatria, eles oferecem presentes a estas potências, como se fossem deuses. Essas alianças, de fato, não fornecem mais força a Israel que ídolos de madeira e constituem uma verdadeira prostituição do Deus verdadeiro E o pior é que o povo sofre as conseqüências dessas alianças idólatras: impostos, colaboração para as campanhas de guerra, escravidão, morte.

O dinheiro também é outro ídolo que causa a morte do pobre. Então Amós grita contra as mulheres de Samaria: 

Escutem esta palavra, vacas de Basan, que moram no monte da Samaria: vocês que oprimem os fracos, maltratam os necessitados e dizem aos seus maridos: "Tragam algo para beber”. O Senhor Javé jura pela sua santidade que para vocês há de chegar o dia em que serão carregadas como ganchos e seus filhos em arpões. (Am 4, 1-2).

Esses ídolos, aparentemente inexistentes, são sanguinários e assassinos. Eles matam o povo. O injusto é um assassino, como diz o Eclesiástico 34, 20-24, em um texto que motivou a conversão do Padre Bartolomeu de Las Casas, o grande profeta dos índios.

O Novo Testamento continua esta mesma linha anti-idólatra. O evangelho nos adverte sobre o terrível risco de servir a dois senhores, a Deus e a Mamon, o ídolo da riqueza (Mt 6, 24; Lc 16, 13). A ganância é chamada de idolatria (Co13,5; Ef 5: 5) e Paulo exorta a abandonar ídolos ou deuses porque:

Para nós existe um único Deus: o Pai. Dele tudo procede, e para ele é que existimos. E há um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo exite e por meio do qual também nós existimos. (1 Cor 8, 6).

Estes ídolos levam à morte, porque por trás destes ídolos estão os demônios (1 Cor 10, 20), que são assassinos desde o começo (Jo 8:44). É o que PabIo chamara de o mistério da iniqüidade (2 Ts 2, 6).

 

* Doutor em Teologia, assiste às comunidades populares de Oruro na Bolívia.
(Texto de seu livro: Parábolas de la Mina y el lago: Teología dese la noche oscura. Ed. Sigueme: Salamanca, 1990 Trad. DM)

 

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS