Formação Espiritualidade
28/10/2021 Víctor Codina Edição 3941 Precisamos recuperar o sopro do Espírito
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"Nestes momentos de asfixia universal, temos de respirar o Espírito, há tanto tempo esquecido, temos de recuperar seu sopro, pedir seu fôlego de vida. O Espírito do Senhor nos acompanha sempre..."

Nós que sofremos a Covid experimentamos não apenas o isolamento e a solidão, mas também a necessidade de máscaras de oxigênio para evitar a asfixia, o sufocamento. Mas não existe apenas a asfixia vital, física pulmonar, mas também hoje vivemos situações de asfixia coletiva, social, econômica, política, cultural, ambiental e religiosa.

Asfixia local e mundial

Vivemos uma asfixiante situação local e mundial: uma mudança de época e de paradigma, a mudança climática, a pandemia, guerras, migrantes que morrem no cemitério do Mediterrâneo, pobreza crescente das grandes massas do Sul, corrupção, machismo, destruição da Amazônia e da natureza e agora, uma erupção vulcânica na ilha de Palma nas Canárias...

Os jovens são os que mais sofrem as consequências desta situação sufocante, sem poderem estudar nem trabalhar, sem futuro claro. Isso pode explicar as recentes explosões de milhares de estudantes e adolescentes em Madrid e Barcelona em noites de garrafas e música, sem medidas de segurança, que terminaram em destruição e violência, em um sentimento de desespero. Não é o maio de 68 francês, nem o 15 M, que abriam caminhos de esperança. Agora há um sentimento de fracasso, de niilismo, de desânimo diante do mal, com gosto de cinza. Não é apenas uma questão de ordem pública ou de polícia, o mal é mais profundo.

A partir de instâncias responsáveis, cívicas e eclesiais, exorta-se a superar o individualismo, dialogar, ter esperança, cuidar da casa comum (Laudato Si), porque todos somos irmãos (Fratelli tutt ). Somos encorajados a manter a Utopia, o Princípio Esperança, a sonhar com um mundo diferente e melhor, porque outro mundo é possível e necessário.

Porém, muitos jovens não têm hoje nenhum ponto de referência final, eles estão procurando; muitos jovens, também mais velhos, de cultura e tradição cristã, há muito abandonaram a Igreja institucional, escandalizados por seus abusos econômicos e sexuais, sentem-se muito distantes dos dogmas, ensinamentos e ritos litúrgicos da Igreja.

O esquecimento do Espírito

Para muitos de nossos contemporâneos, Deus e Cristo estão muito distantes e o Espírito desapareceu. Um conhecido texto do Patriarca Oriental Inácio IV de Antioquia, no Concílio Ecumênico de Upsala 1968, o expressa com grande lucidez:

“Sem o Espírito, Deus está longe, Cristo permanece no passado, o Evangelho é uma letra morta, a Igreja uma simples organização, a autoridade um domínio, a missão uma propaganda, o culto uma evocação e o agir cristão como uma moralidade de escravos. Mas no Espírito, o Cristo ressuscitado está aqui, o Evangelho é força vital, a Igreja significa comunhão trinitária, a autoridade é um serviço libertador, a missão é um Pentecostes, a liturgia é um memorial e antecipação, o agir humano é divinizado”.

No mundo cristão latino, por várias razões culturais, históricas e políticas, marginalizamos e esquecemos o Espírito Santo, por mais que recitemos o Credo ou o Glória. Muitos cristãos latinos respiram apenas com o pulmão cristológico, mas também precisamos respirar com o pulmão do Espírito, devemos respirar com os dois pulmões. Se quisermos superar a asfixia atual que nos destrói por dentro, temos que recuperar o sopro do Espírito.

Rostos do Espírito

Ao contrário do Filho que se encarnou em Jesus de Nazaré, o Espírito não se encarna em ninguém, nem em um único lugar da história. Biblicamente, o Espírito se expressa por meio de símbolos: ar, vento, água, fogo, pomba; sua expressão hebraica é Ruah, feminina; significa fôlego vital, fôlego de vida presente no caos originário da Criação que engendra a vida (Gn 1,2) e incuba as águas primordiais.

O sopro do Espírito torna a pessoa humana imagem de Deus (Gn 1,27), o Espírito falou por meio dos profetas, tornou possível a encarnação de Jesus no seio de Maria de Nazaré. O Espírito desceu sobre Jesus no batismo, guiou toda a sua vida, deu-lhe força na paixão e na cruz, ressuscitou-o dos mortos, como primícia da nossa futura ressurreição. Jesus ressuscitado sopra sobre os apóstolos para lhes comunicar o seu Espírito (Jo 20); no Pentecostes o Espírito desce sobre o pequeno grupo apostólico em forma de vento impetuoso e línguas de fogo (At 2) e os transforma em evangelizadores e mártires . O Espírito não tem mensagem própria, não é palavra exterior, é silêncio e atua a partir de dentro, nas pessoas e nas comunidades, tem por missão conduzir-nos a Jesus (1 Cor 12,3).

Mas o Espírito não é apenas intraeclesial, mas ultrapassa os muros da Igreja e se derrama sobre toda a Criação: suscita amor e bondade, semeia culturas e religiões, gera beleza, arte, sabedoria, carismas e santidade, promove movimentos sociais e políticos em defesa da justiça e dos direitos humanos em favor dos pobres e rejeitados, liberta a Criação, ainda em dores de parto (Rm, 8 22-25), para gerar nova terra e novos céus, um mundo transfigurado, o reino de Deus.

Precisamos recuperar o sopro do Espírito

É estranho que esse esquecimento teórico e vital do Espírito produza, quer nos jovens ou nos velhos, a sensação de asfixia, agnosticismo, medo, niilismo, caos, morte? Aqueles de nós que vivemos na pandemia de COVID, que sem oxigênio nos sufocamos, também o vivemos no plano humano e espiritual: sem o Espírito não podemos respirar, ficamos sufocados, nos falta fôlego, nos falta vida, nos falta esperança, nos falta alegria, não temos futuro. O Espírito é vivificante, é Senhor e doador de vida, é novidade, sempre ultrapassa os limites conhecidos, quebra esquemas, surpreende, nunca nos abandona, nunca faz greve.

Este Espírito nos conduz a Jesus e nos move a partir de dentro para que sigamos o estilo de Jesus, baseado no amor, perdão, dedicação, respeito, predileção pelos pobres, marginalizados e excluídos, pelas crianças e pelos enfermos, pelas mulheres e estrangeiros, nos dá confiança no Pai, inspira-nos as bem-aventuranças, nos dá esperança na ressurreição e poder participar na nova vida de Jesus ressuscitado.

Nestes momentos de asfixia universal, temos de respirar o Espírito, há tanto tempo esquecido, temos de recuperar seu sopro, pedir seu fôlego de vida. O Espírito está presente justamente nos momentos de caos e morte, quando parecia que tudo estava perdido. O Espírito do Senhor nos acompanha sempre, não podemos ser profetas de calamidades. Respiramos profundamente o Espírito, recuperemos o sopro suave do Espírito. É o nosso oxigênio autêntico vital.

Fonte: Ameríndia

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