Variedades Crônica
01/05/2020 Maria Edição 3923 Porta mágica
F/ Pixabay
"De tanto passar por baixo do arco-da-velha, meu coração virou um arco-íris encantado..."

Porta mágica

Maria

(Para meu neto, Rafael, que está aniversariando.)

 

Era apenas uma porta... Tão comum, tão simples... Sua missão era, apenas, exercer o destino de ser porta. Nem ranger ela rangia. Era calada feito uma porta...

Mas... eu penso que ela era uma porta diferente das outras. Acho até que aprendeu a falar na linguagem de portas, tantos sonhos viu passar.

Hoje, já penso em outra coisa - ela era uma porta mágica! Um arco-da-velha! Só podia ser isso! Segundo a Ana da mamãe - nossa pajem - ela conhecia muitas meninas que passavam debaixo do arco-da-velha e voltavam em forma de menino... E muitos meninos que atravessavam o arco voltavam de saias e tranças...

Nunca tive coragem de passar nem perto daquele enfeite bonito que a chuva deixava num canto do céu, tão lindo que era tratado com doçura: arco-íris!

Sem saber, cresci passando por baixo de um arco-íris: não virei menino, mas a cada travessia que eu fazia por ele, eu ficava de um jeito. Ninguém via, mas meu coração sentia o milagre que acontecia com ele, lá no ninho onde ele fez morada, bem dentro do peito da menina.

Quando passava pela porta, acontecia um encantamento e eu podia pisar mundos diferentes...

Se o verde do quintal me chamava, bastava passar por ela e me transformava em uma menina estrelada, de Estrela do Indaiá. “Balangava” alto na gangorra do pé de manga, quase encostando os pés láááá no azul do céu!

Subia nas árvores, onde ficava ouvindo a conversinha do povo miúdo que habitava aquele paraíso particular. Gritinhos, quá-qua-quás, to-fracos, piu-pius, cocoricós, pezinhos ciscando a terra e achando uma comidinha para encher o papo.

Os dois gatos da casa, Romão e Rosca, subiam atrás de mim, segurando nas cascas grossas dos troncos com suas garras afiadas. Lá em cima, guardavam aquelas unhas bravas dentro da almofadinha de suas patinhas fofas...

Cansada daquele mundo, voltava e... tornava a passar pelo arco-íris... num passe de mágica, estava na sobreloja.

Muito mais que um depósito de mercadorias da loja, enxadas Jacaré, machados Collins, fumo de rolo, alças de caixão, latas de querosene, havia uma estante que separava os dois ambientes: além da estante, eu me transformava em outra menina, por novo milagre da porta mágica: era o escritório/biblioteca de meu pai.

Ali, também, tudo tinha vida: os livros me chamavam com voz encantada e dorsos de ouro e, quando bem pequena, eu descobria companheiros novos para inventar brinquedos: palavras, umas bengalinhas engraçadas aqui e ali... Será que havia palavras mancas que usavam bengalas? Umas andavam de chapeuzinho, aposto que eram meninos... Outras usavam um grampinho na cabeça, um pra lá, outro pra cá. Só podiam ser meninas... Havia umas letrinhas engraçadas, pareciam uma orelha com um brinquinho pendurado... Ah! havia, ainda, uns rabicós de leitõezinhos brincando nas costas de algumas palavras, uma gracinha...

De rabicó em rabicó, de chapeuzinho em chapeuzinho, fui juntando tudo, fazendo carreirinhas de letras... Então a máquina de escrever ria pra mim com aquele tanto de dentinhos, e eu sabia que elas estavam me chamando: tlec-tlac-tlectlec, rrrrr... Eu batia em cada dentinho, escrevia palavras em vermelho: batom, coração... Com a parte preta da fita, eu escrevia: escuro, urubu, chapéu do Sô Felipinho... Papai aparecia, me ensinava alguma coisa e ria e ria de minhas ideias.

De novo, já queria novidades: esticava o olho para dentro da loja e, se havia meninos da roça, chupando picolé - novidade para eles - acontecia nova mágica: uma menina curiosa saía de dentro de mim e ia tumbar a turma, até ganhar um picolé também...

Gostava de ouvir o nome dos tecidos que os fregueses pediam: chita, riscado, seda, faile, cetim duchese, organdi, brim, frisela, voal, morim Ave-Maria... Os fazendeiros compravam botinas gomeiras e chapéus Ramenzoni...

O melhor era a escolha das miudezas: vidrinhos de água-de-cheiro, meadinhas de linha, dormindo abraçadinhas nas caixas, memórias de pedras coloridas... ramonas para prender os coques das mulheres. Havia uma gama de cores de filó, para serem transformados em véus que as meninas e mulheres usavam na igreja: filó branco, para meninas e moças solteiras, filó preto para as viúvas e filó cinza para as mulheres casadas. Eu vivia perguntando por que havia separação de cores e, sempre, recebia uma resposta mal-humorada:

- Vai brincar, menina! Vai pro quintal, especuladeira!

Mas eu não ia para o quintal. Atravessava o arco-íris para dentro da casa. Caía em outro paraíso, onde uma Singer cantava acompanhando minha mãe - um dueto que nunca vou esquecer...

Tesouras, linhas, agulhas de “mão fina”, agulhas de “mão grossa”, fitas, sianinhas e, o maior encantamento: uma máquina de cobrir botões: miudinhos, grandes, em bola, com aros dourados... Mamãe me deixava apertar o bracinho da máquina e eu quase morria de felicidade, ao ver o botão sair do jeito que ela escolhera...

As peças iam saindo das belas mãos de mamãe...

Em um varal - improvisado a um canto - colocavam-se os cabides com vestidos, saias plissadas e godês, blusas e casacos. Eu ficava meio aflita com aquelas roupas vazias, como se fossem pessoas sem alma... Ainda hoje, roupas no varal me causam essa impressão... trapos vazios, sem corpo e, muito menos, sem alma...

De tanto passar por baixo do arco-da-velha, meu coração virou um arco-íris encantado...

Virei uma bisavó-menina... e meu coração vive pesadinho por carregar todas as outras meninas que ainda moram dentro dele... Nenhuma quis ficar velha... Vivem dentro de minha alma e, são enxeridas, aparecem quando menos espero...

Assim, ainda brinco com palavras e com livros. Tenho uma Singer que canta comigo, e eu não sei se é minha voz ou a voz de mamãe que canta com a velha máquina de costura... E, outras vezes ouço um tlec-tlec dos dentinhos da velha Remington do meu pai: olho para a máquina de escrever e não sei se a que está empoderada em cima da mesinha, é a lembrança de Estrela... ou se é a máquina do BEM e dos filhos todos que alisaram seu teclado... Meu coração acha que as duas se misturaram, por obra e graça do encantamento que o arco-da-velha me deixou...

Repeti, para filhos e netos, todos os milagres que o arco-íris fez na minha alma. Para o encantamento estrelado não desaparecer no tempo...

Aprendi a serzir roupas “levadas” e... tristezas; aprendi a pôr remendos em roupas juninas de meus filhos e... remendos nas feridas da alma. Costurei retalhos de tecidos e retalhos de saudades... Bordei esperanças e teci sapatinhos de tricô para os que iam nascer e, com eles, teci alegrias.

Na máquina do tempo, aprendi a escrever vidas. Com os livros e a Remington, aprendi a dar aula para mil alunos... Aprendi a escrever versos e cartas de amor para o meu BEM...

Alguma fada e algum anjo juntaram tudo para mim...

Quando fico triste, abro o baú de minha vida... Lá dentro encontro o arco-íris e ele me transforma em quantas meninas eu fui um dia...

Era apenas uma porta. Mas descobri que ela era uma PORTA MÁGICA...

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