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27/03/2020 Pe. Víctor Codina, SJ Edição Por que Deus permite a pandemia e fica calado? É um castigo? Devemos pedir milagres? Onde está Deus?
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"Talvez nossa pandemia nos ajude a encontrar a Deus onde não o esperávamos"
 
"Onde está Deus? Está nas vítimas desta pandemia, está nos médicos e profissionais de saúde que cuidam delas, está nos cientistas que procuram vacinas antivírus, está em todos aqueles que hoje em dia colaboram e ajudam a resolver o problema, e naqueles que rezam pelos outros, naqueles que espalham a esperança "
 
 
"Não estamos diante de um enigma, mas diante de um mistério, um mistério de fé que nos faz acreditar e confiar em um Deus Pai-Mãe criador, que não pune, que é bom e misericordioso, que está sempre conosco"
 
 
 
Felizmente, junto com as notícias terríveis e quase mórbidas da televisão sobre a pandemia, outras vozes alternativas, positivas e esperançosas aparecem.
 
 
Alguns recorrem à história para nos lembrar que a humanidade passou e superou outros tempos de pragas e pandemias, como as da Idade Média e 1918, após a Primeira Guerra Mundial. Outros se surpreendem com a posição unitária européia contra o vírus, quando até agora discordaram sobre mudanças climáticas, imigrantes e armas, provavelmente porque essa pandemia rompe fronteiras e afeta os interesses dos poderosos. Agora, os europeus precisam sofrer um pouco do sofrimento de refugiados e imigrantes que não podem atravessar fronteiras.
 
Há humanistas que apontam que essa crise é uma espécie de "quaresma não-religiosa" que nos concentra em valores essenciais, como vida, amor e solidariedade, e nos obriga a relativizar muitas coisas que até agora acreditávamos serem indispensáveis e intocáveis. De repente, a poluição do ar e o ritmo frenético da vida do consumidor, que não queríamos mudar até agora, sucumbem.
 
Nosso orgulho ocidental de ser protagonistas onipotentes do mundo moderno, senhores da ciência e do progresso, caiu. Em plena quarentena doméstica e sem poder sair, começamos a apreciar a realidade da vida familiar. Nos sentimos mais interdependentes, todos dependemos de todos, somos todos vulneráveis, precisamos um do outro, estamos globalmente interconectados, para o bem e o mal.
 
Também surgem reflexões sobre o problema do mal, o sentido da vida e a realidade da morte, um tópico que agora é tabu. O romance de Albert Camus, “A Peste”, de 1947, tornou-se um best-seller. Não é apenas uma crônica da praga de Oran, mas uma parábola do sofrimento humano, do mal físico e moral do mundo, da necessidade de ternura e solidariedade.
 
Nós, crentes da tradição judaico-cristã, nos perguntamos sobre o silêncio de Deus diante dessa epidemia. Por que Deus permite e se mantém calado? Isso é um castigo? Devemos pedir-lhe milagres, como o padre Penéloux pede em “A Peste”? Devemos devolver a Deus a passagem da vida, como Ivan Karamazov em “Os irmãos Karamazov”, vendo o sofrimento dos inocentes? Onde está Deus?
 
Não estamos diante de um enigma, mas diante de um mistério, um mistério de fé que nos faz acreditar e confiar em um Deus Pai-Mãe que é criador, que não pune, que é bom e misericordioso, que está sempre conosco, é “Emanuel”: cremos e confiamos em Jesus de Nazaré, que vem para nos dar vida em abundância e tem empatia com aqueles que sofrem. Cremos e confiamos em um Espírito que dá vida, Senhor e doador da vida. Essa fé não é uma conquista, é um dom do Espírito do Senhor, que chega até nós através da Palavra na comunidade eclesial.
 
Tudo isso não nos impede, como Jó, de queixar-nos e reclamar diante de Deus ao ver tanto sofrimento, nem nos impede, como o Eclesiastes, de verificar a brevidade, fragilidade e vaidade da vida. Mas não devemos pedir milagres a um Deus que respeita a criação e a nossa liberdade, que quer que colaboremos na realização deste mundo limitado e finito. Teoricamente, Jesus não resolve o problema do mal e do sofrimento, mas através de suas feridas de homem ressuscitado crucificado, abre-nos para o novo horizonte de sua paixão e ressurreição. Jesus, com sua identificação com os pobres e com os sofrimentos, ilumina nossa vida; e com o dom do Espírito, nos dá força e conforto em nossos momentos difíceis de sofrimento e paixão.
 
Onde esta Deus? Está nas vítimas dessa pandemia, está nos médicos e profissionais de saúde que cuidam delas, está nos cientistas que procuram vacinas antivírus, está em todos aqueles que colaboram e ajudam a resolver o problema nos dias de hoje, está naqueles que oram por outros, naqueles que espalham a esperança.
 
Terminemos com um salmo de confiança que a Igreja nos propõe nos domingos, na hora litúrgica da Completa, antes de dormir:
 
 
 
Tu que vives sob a proteção do Altíssimo
 
e passas a noite sob a sombra do Todo-Poderoso,
 
dize ao Senhor: “Meu refúgio, minha fortaleza,
 
meu Deus em quem confio”.
 
Pois ele te livra da rede do caçador, da praga fatal.
 
Com suas penas ele te protege,
 
sob suas asas encontras refúgio.
 
Um escudo é a sua fidelidade.
 
Não temerás o terror da noite,
 
nem a flecha que voa de dia,
 
nem a praga que avança nas trevas,
 
nem o flagelo que assola ao meio-dia
 
(Salmo 90, 2-7)
 
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Víctor Codina SJ, nascido na Espanha, é sacerdote jesuíta e teólogo latino-americano. Residiu na Bolívia por 35 anos, onde alternou a tarefa de professor de Teologia na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba com o trabalho de formação de leigos e na pastoral popular.
 
Fonte: https://www.faculdadejesuita.edu.br/artigo/por-que-deus-permite-a-pandemia-e-fica-calado-e-um-castigo--26032020-225446
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