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13/02/2020 Frei Edimar Fernando Moreira, Carmelita Edição 3920 Pela maturidade do Religioso Irmão
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"A vocação do religioso irmão é um dom para a Igreja e para o mundo"

 

edimar_fernando@yahoo.com.br

 

Certa vez, uma senhora disse que tinha dificuldade de compreender porque haviam tantas formas de servir a Deus na Igreja e qual era a mais importante. Ela tinha muitos filhos. Então lhe perguntei qual era a profissão de cada um deles. Disse-me que entre seus filhos e filhas havia um enfermeiro, uma cabeleireira, uma advogada, uma faxineira, dois pedreiros, um cozinheiro, uma costureira e assim por diante.

Em seguida, eu lhe perguntei: “desses filhos e filhas todos, qual deles é o mais importante?” Ela pensou um pouquinho e logo soltou: “para mim, eles são todos iguais, todos têm a mesma importância, pois amo cada um do jeito que é e fazendo aquilo que faz”. Parece que é assim que acontece na Igreja também. Deus ama igualmente todos os seus filhos e considera todos eles irmãos entre si, independentemente daquilo que fazem ou dos cargos que ocupam. Por isso, no início do Cristianismo, a Igreja era definida como uma comunidade de irmãos [cf. Mt 23,8] e o termo “irmão” era utilizado para designar qualquer membro da comunidade.

 

Um pouco de história

Até meados do século VI, um dos principais sinais proféticos do seguimento de Jesus era o martírio. Paulatinamente, assiste-se uma diminuição do número de mártires, devido à aceitação do Cristianismo pelo Império Romano. Afloraram, então, novas expressões de seguimento de Jesus. As duas principais referências são Santo Antão [251-356], por meio da vida eremítica, e São Pacômio [290-346], por meio da vida em comunidade. Nesse contexto, surge aquilo que chamamos de Vida Religiosa Consagrada. O objetivo desse modo de vida na Igreja, segundo o Concílio Vaticano II, é buscar colher frutos mais abundantes da consagração batismal [Lumen Gentium 44].

Nesse primeiro momento, uma das características desses religiosos é que eles não eram ordenados padres. A Vida Religiosa surge como um movimento leigo. Porém, com o passar do tempo, essa configuração vai se alterando. Seja por necessidade, seja por conveniência, muitos deles optaram por ordenar-se padres. Acabou-se, assim, que a vida e a vocação dos irmãos ficaram obscurecidas ao longo da história da Igreja.  O importante passou a ser padre. A vocação do irmão era considerada, muitas vezes, de segunda categoria, incompleta.

 

Chamado à fraternidade

O irmão, na verdade, é um religioso, assim como a irmã, que professa seus votos de pobreza, castidade e obediência. Ele vive em comunidade, a partir do carisma de sua congregação. Na variedade de serviços e ministérios da Igreja, o irmão participa da missão de Cristo por meio de serviços em muitos campos eclesiais ou profissionais, tais como na vida espiritual, educação, saúde, administração, gestão etc. Muitos desses homens estão nos altares de nossas igrejas, ornados por uma vida de testemunho profético para a Igreja e para o mundo: são Bento, são Miguel de Febres Cordeiro, são Nuno de Santa Maria, santo Afonso Rodrigues e tantos outros.

Atualmente a Igreja tem se preocupado em recuperar a riqueza desse modo de ser religioso. Para aprofundar esse tema, em 2016, a Igreja lançou um documento chamado “Identidade e missão do Religioso Irmão na Igreja”. No Brasil, aconteceu, entre os dias 17 a 20 de outubro de 2019, o V Seminário Nacional de Religiosos Irmãos, promovido pela Conferência dos Religiosos do Brasil [CRB]. Participaram mais de 100 irmãos, oriundos de diversos lugares do Brasil, representando 30 Congregações de Vida Religiosa Consagrada. O Seminário teve por tema “Plenamente humano, simplesmente irmão” e por lema “Maria, peregrina na fé”. Seu objetivo foi “aprofundar a maturidade do Religioso Irmão, à luz do ser de Maria”.

 

Simplesmente irmãos

Nas comunidades onde os irmãos vivem, com frequência, o povo pergunta: “Você, então, é só irmão?” Por detrás do adjetivo “só”, pode estar uma mentalidade de falta de algo, de ausência, pelo fato de não serem ordenados padres. Permanece uma certa compreensão equivocada de que tais religiosos estão situados no meio do caminho, incompletos, indefinidos. Se o adjetivo “só” remete a uma visão pejorativa, o advérbio “simplesmente” se apresenta como modalidade positiva de qualificar tal vocação, pois simplesmente quer dizer que não falta nada e que a pessoa se sente completa e deve ser reconhecida como tal: somos [simplesmente] irmãos, e isso basta!

Durante o seminário, além de partilhar a alegria de ser irmão, refletiu-se também sobre sua dimensão humana. Nesse sentido, “fazendo a travessia da psicologia para a espiritualidade, o testemunho de Maria ensina-nos que a identidade do irmão não é uma identidade para si mesmo. Ser “simplesmente irmão” não é ser simplório, nem ingênuo. É, pois, viver uma liberdade interior sendo discípulo de Jesus, buscando percorrer uma caminhada em linha reta num horizonte de sentido. Em síntese, viver “marianamente” é ser um discípulo atento e eficaz” [Mensagem final].

A vocação do religioso irmão, em comunhão com todas as outras formas de ser e servir na Igreja, é um dom para a Igreja e para o mundo, pois assume o compromisso público de tornar o rosto de Jesus-irmão visível na cotidianidade da vida. Sua vocação se expressa não tanto “naquilo que se faz”, mas, principalmente, no “como se faz”. A própria vida, independentemente da idade ou cultura, com isso, torna-se missão. Nisso consiste o testemunho desses homens consagrados a Deus que optaram por serem irmãos, simplesmente irmãos.

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