Formação Bíblia
13/07/2019 Wilson e Mariano Edição 3914 Para que n’Ele nossos povos tenham vida
F/ Pixabay
"Só está em comunhão com Deus quem pratica a verdade. "

Para que n’Ele nossos povos tenham vida

Mês da Bíblia 2019 (1/3)

Wilson Cabral e Denilson Mariano

 

Neste ano de 2019 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – nos convida à leitura e ao estudo da Primeira Carta de João com o tema: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”. O lema do mês da Bíblia é “Nós amamos porque Deus primeiro nos amou” (1João 4,19). O amor é resumo da Boa Nova de Jesus e, de fato, ocupa um espaço central na Primeira Carta de João. Para quem se coloca no seguimento de Jesus, ela é um convite especial para permanecer no amor de Deus!

 

Algumas informações sobre a 1ª Carta de João.

Desde os tempos antigos da Igreja, o quarto Evangelho, as três Cartas de João e o Apocalipse, foram identificados como obra de João, o apóstolo de Jesus, filho de Zebedeu (Mt 4,21). São muitas as semelhanças entre o quarto Evangelho e as Cartas joaninas. Os temas: da luz em contraposição às trevas, do amor, da fidelidade e da perseverança, são algumas dessas semelhanças. Existem também algumas diferenças de estilo, mas o objetivo e os gêneros literários do Evangelho e das Cartas podem explicar essas diferenças. Uma coisa é apresentar uma Pessoa, a Boa Nova de Jesus, outra é escrever uma carta para orientar os amigos.

Muitos estudiosos datam o quarto Evangelho em torno dos anos 90 d.C. Nesse período, as comunidades da Ásia Menor, nos arredores de Éfeso, estavam ainda em formação. Junto aos desafios internos para a formação das comunidades, havia os desafios externos: a perseguição por parte do Império Romano e a perseguição por parte dos judeus que denunciavam os cristãos ao Império. Já nos anos 100 d.C. embora continuassem os desafios das perseguições – o Apocalipse nos revela isso –, começam a crescer os problemas internos: as divisões dentro da comunidade nasciam da incompreensão do mistério da encarnação de Jesus. Isso é que motivou o autor a escrever essa Carta para a comunidade.

De modo diferente das outras cartas do Novo Testamento, a 1João não possui remetente, não tem destinatário e nem mesmo uma saudação inicial. A ausência de tais elementos nos faz supor que, primeiramente, ela se tratasse de uma homilia, uma reflexão do autor sobre os desafios vividos nas comunidades. Depois é que foram partilhados com outras comunidades. Por isso a 1João alterna algumas reflexões e ensinamentos sobre a vivência das comunidades e, logo em seguida faz exortações, convites à conversão, à mudança de vida e a assumir a missão cristã.

Ao olhar para nossas comunidades hoje, podemos encontrar muita semelhança com as comunidades de João. Ser cristão no século XXI ainda é um desafio: muitos cristãos são perseguidos, caluniados e mortos por causa do Evangelho. Internamente, vivemos muitas divisões em nossas comunidades, muitas delas surgem pela incompreensão do verdadeiro sentido da Encarnação do Filho de Deus. Ao sermos batizados nos colocamos no seguimento de Jesus, que se fez pobre e passou a vida fazendo o bem e foi fiel ao projeto de vida do Pai até à morte na cruz. Esse Jesus ressuscitou, venceu a morte e nos convida a viver a nossa fé de forma concreta.

 

Para que a nossa alegria seja completa

O quarto evangelho começa com um prólogo, uma introdução em que se apresenta um resumo do que está por vir (Jo 1,1-18); Também a 1João 1,1-4 traz esse prólogo. Em uma frase João resume toda a sua mensagem e seu objetivo: o desejo de comunhão entre aqueles que partilham a mesma fé: “a nossa alegria”.

Na 1ª João, a experiência de Jesus Cristo não é baseada em um conhecimento superior, como pensavam algumas pessoas da época. João revela que a Palavra, o Verbo, que é a luz do mundo, estava junto do Pai desde o início (Jo 1,1.4.); mas essa Palavra se fez carne e veio habitar entre nós (Jo 1,14). João não fala de um conhecimento teórico sobre Deus, fala de uma experiência, daquilo que os apóstolos ouviram, viram, contemplaram com seus olhos, e suas mãos apalparam... A Boa Nova consiste em conhecer a pessoa de Jesus e se comprometer concretamente com o seu projeto de vida. Tocar as chagas de Cristo na pessoa do pobre.

Essa experiência tem que ser testemunhada, transmitida, anunciada. As comunidades receberam essa mensagem e estão em comunhão com o Filho Jesus e com Deus Pai. Essa comunhão é dom de Deus, é Graça, mas supõe um compromisso com o projeto de Jesus. O caminho não será fácil, mas é pela busca dessa comunhão que se chega à alegria completa.

João resume o conteúdo da mensagem de Jesus em uma frase: “Deus é Luz e nele não há treva alguma” (1João 1,5). Isso quer dizer que Deus é plenitude de beleza, de sabedoria, poder, misericórdia e santidade. Mais à frente, essa afirmação será completada com a segunda definição: Deus é amor.

A busca desta definição de Deus no início da carta revela o problema das divisões na comunidade de João. Só está em comunhão com Deus quem pratica a verdade. Muitos se diziam fiéis a Deus, mas na prática viviam de outro modo. Professavam com a boca, não testemunhavam com a vida. Mentiam pelo modo agir, não assumindo uma conduta coerente com o que é verdadeiro.

Para o povo da Bíblia verdade é algo sólido, firme. A palavra hebraica para expressar verdade é AMAN, dela vem o “Amém” que usamos em nossas celebrações e que significa: Assim seja! É isso mesmo! Está certo! Firme! Deste modo, verdadeiro é a pessoa que cumpre o que diz. Na Bíblia Verdade e fidelidade significam a mesma coisa. A mentira não é somente uma palavra ou um discurso falso, mas uma vida contrária aos ensinamentos de Jesus. As comunidades viviam esse problema da incoerência. As pessoas diziam seguir o Deus da Luz, mas viviam em meio às trevas da infidelidade.

Nas comunidades havia aqueles que diziam não ter pecados, enganavam a si mesmos. Uma das condições para estar em comunhão e caminhar na Luz é se reconhecer pecador e romper com o pecado (1João 1,8–2,2). Porém se alguém pecar, nós já temos um advogado junto do Pai: Jesus Cristo. É d´Ele que vem a nossa completa alegria. Com Ele estamos no caminho certo.

O nosso Amém no final das celebrações dão testemunho de que de fato nos comprometemos com o projeto de vida de Jesus?

Eis um apelo da Igreja do Brasil. “A casa permitiu que o cristianismo primitivo se organizasse em comunidades pequenas, com poucas pessoas, que se conheciam e compartilhavam a mesa da refeição cotidiana. Pela partilha da mesa com todos os batizados se estabelecia um novo estilo de vida, marcado pelo seguimento de Jesus Cristo. A hospitalidade era aberta também a pecadores e pagãos.

A credibilidade da comunidade se embasava no seu testemunho de comunhão, que se exprimia: na fidelidade ao ensinamento dos apóstolos; na liturgia celebrada; na diaconia da caridade fraterna; na martiria da fé e da esperança, comprometidas com a justiça do Reino de Deus; e na mistagogia da autêntica vida cristã que se fazia missão, profecia e serviço.” (DGAE, 2019, n. 82 e 83)

Para aprofundamento: Há coerência entre o que falamos e o que fazemos nas comunidades? Por que?

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