Formação Família
09/09/2019 Pe. Sebastiao Santana, SDN Edição 3915 Papa Francisco: como vai a família?
F/Pixabay
"Francisco constata um crescente individualismo que desvirtua os laços familiares. As tensões causadas pela cultura individualista exagerada de posse e fruição geram, no seio das famílias, dinâmicas de impaciência e agressividade."

Papa Francisco: como vai a família?

Pe. Sebastião Sant'Ana Silva, SDN

 

A ONU declarou 1994 como Ano Internacional da Família. São João Paulo II assumiu a proposta, quis também que a Igreja celebrasse o Ano da Família. Fez mais: publicou a "Carta às Famílias" e realizou o I Encontro Mundial das Famílias (Roma, 8 e 9/10/1994). Em profunda sintonia, no Brasil, o tema da Campanha da Fraternidade de 1994 foi A família, como vai?

Ao celebrarmos os 25 anos desses marcantes eventos familiares, a Comissão Episcopal Vida e Família da CNBB e a Pastoral Familiar propuseram retomarmos A família, como vai? como tema da Semana Nacional da Família de 2019.

O Papa Francisco – que convocou dois Sínodos sobre a Família (2014 e 2015) e nos brindou com a Exortação pós-sinodal Amoris Laetitia (sobre o amor na família) –, vai nos ajudar a responder, com este precioso documento, à grande questão: como vai a família hoje?

 

Fiéis a Cristo, olhar a realidade da família 

No capítulo II da Amoris Laetitia (nn. 31 a 57), o Papa aborda a realidade e os desafios das famílias em toda a sua complexidade, com suas luzes e sombras. Alerta que "as mudanças antropológico-culturais influenciam todos os aspectos da vida e requerem abordagem analítica e diversificada". Hoje há uma "realidade doméstica com mais espaço de liberdade, com uma distribuição equitativa de encargos, responsabilidades e tarefas; valoriza-se mais a comunicação entre os esposos".

Francisco constata, porém, um crescente individualismo que desvirtua os laços familiares. As tensões causadas pela cultura individualista exagerada de posse e fruição geram no seio das famílias dinâmicas de impaciência e agressividade. "Quando não há objetivos nobres e disciplina pessoal, degenera numa incapacidade de se dar generosamente" – adverte o Papa.

 

O Papa nos convida a uma salutar autocrítica 

Francisco lembra que, como cristãos, não podemos renunciar a propor o matrimônio, para não contradizer a sensibilidade atual, para estar na moda, ou por sentimentos de inferioridade face ao descalabro moral e humano; estaríamos privando o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer. Não basta uma denúncia retórica dos males atuais. Nem mesmo querer impor normas pela força da autoridade. Precisamos, sim, apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimônio e a família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece.

O Papa sugere muita humildade, realismo e uma salutar autocrítica. Isto porque muitas vezes apresentamos de tal maneira o matrimônio que o seu fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua foram ofuscados pela ênfase quase exclusiva no dever da procriação. Falta-nos acompanhar melhor os jovens casais nos primeiros anos de matrimônio.

 

Testemunho de casais abre portas a uma pastoral positiva

"Durante muito tempo pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. (...) Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las".

Segundo Francisco, o testemunho dos casais cristãos abre a porta a uma pastoral positiva, acolhedora, que torna possível um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho. Não podemos agir na defensiva, gastando as energias pastorais nos ataques ao mundo decadente. Muitos não sentem a mensagem da Igreja sobre o matrimônio e a família como um reflexo da pregação e das atitudes de Jesus, que propunha um ideal exigente e não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera.

 

Desafios que pedem atitudes pastorais samaritanas

O Papa fala da rapidez com que as pessoas passam de uma relação afetiva para outra. Mostra que jovens são impelidos a não formarem uma família. Pede atenção aos idosos abandonados, às crianças órfãs de pais vivos, aos adolescentes e jovens desorientados. Alerta para a difusão da pornografia, para a comercialização do corpo e a prostituição forçada. Separações e divórcios que trazem sérias consequências para os adultos, os filhos e a sociedade. A toxicodependência, o alcoolismo, os jogos de azar. A mentalidade antinatalista e a dificuldade de educar e transmitir a fé.

Francisco aborda o desemprego, a falta de habitação digna, os filhos nascidos fora do matrimônio, a exploração sexual de crianças, o fenômeno dos "meninos de rua". Pede-nos uma postura samaritana diante dos migrantes e refugiados, das sociedades feridas pela guerra, pelo terrorismo e pelo crime organizado. Refere-se também à violência contra a mulher e à "ideologia de gênero" que esvazia a dimensão humana da família.

 

Papa conclui sua análise com ação de graças e esperança:

"Dou graças a Deus porque muitas famílias, que estão bem longe de se considerarem perfeitas, vivem no amor, realizam a sua vocação e continuam para diante embora caiam muitas vezes ao longo do caminho. Partindo das reflexões sinodais, não se chega a um estereótipo da família ideal, mas um interpelante mosaico formado por muitas realidades diferentes, cheias de alegrias, dramas e sonhos. As realidades que nos preocupam são desafios. Não caiamos na armadilha de nos consumirmos em lamentações auto defensivas, em vez de suscitar uma criatividade missionária. Em todas as situações, a Igreja sente a necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. (...) Os grandes valores do matrimônio e da família cristã correspondem à busca que atravessa a existência humana». Se constatamos muitas dificuldades, estas são um apelo para libertar em nós as energias da esperança, traduzindo-as em sonhos proféticos, ações transformadoras e imaginação da caridade" (AL 57).

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