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02/08/2020 Pe. Vinícius Augusto Teixeira, CM Edição 3927 Pandemia: tempo de escolhas decisivas
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"Diante de nós, estão a vida e a morte. Resta-nos, pois, saber escolher (cf. Dt 30,19)."

Desde que se instalou a pandemia do COVID-19, tenho sido convidado a compartilhar reflexões sobre a surpreendente travessia que estamos fazendo, cindidos por seus efeitos devastadores. Preferi esperar para viver mais intensamente e observar mais atentamente o que nos envolve, tentando compreender algo da radical novidade do acontecimento, suas causas, suas ressonâncias, seu significado profundo, as realidades que desvela, os apelos que suscita, as possibilidades que nos abre. Além disso, a assombrosa quantidade de análises e interpretações, sob diferentes óticas e perspectivas, algumas mais precipitadas, outras mais amadurecidas, dava-me a impressão de que não havia mais nada a ser dito ou escrito, embora, sim, falte muito a ser contemplado, intuído, descoberto, aplicado. Passados os meses, a impressão não mudou. Aflorou, porém, a consciência de que devo compartilhar – sem fatalismos e sem ingenuidades – alguns lampejos do que essa experiência comum me levou a pensar, rezar e discernir. Nada de inaudito, certamente. Nada que supere o que outros já disseram desde seus pontos de vista, com muito mais ciência e autoridade. Apenas uma leitura, um olhar que se fixa na certeza de que, por detrás de tantas nuvens sombrias, o sol continua brilhando.

 

  1. Um ensaio sobre a vulnerabilidade

 Em seu estupendo Ensaio sobre a cegueira (1995), o Nobel de literatura José Saramago (1922-2010) descreve a desoladora situação dos habitantes de uma cidade colapsada por uma epidemia. Homens e mulheres, de distintos extratos sociais e faixas etárias, se encontram – sucessivamente e dentro de pouco tempo – completamente privados de visão. A aflição do drama é tão contundente que parece enlaçar o leitor desde as primeiras páginas. Confinados em um mesmo espaço e acotovelando-se na mais completa precariedade, os contagiados começam a distinguir-se por suas reações antagônicas. Há aqueles que, nos estertores do desespero, dão vazão aos mais baixos e repugnantes instintos de perversão e desumanidade: busca de vantagens egoístas, indiferença ante o sofrimento alheio, domínio despótico, atos reiterados das mais abjetas formas de abuso e violência. Da cegueira, passam fragorosamente à perda do sentido e deste, ao desespero, à barbárie, à loucura.

Por outro lado, a brutalidade da narrativa é atenuada por aqueles personagens que, embora imersos na mesma calamidade e enfrentando as mesmas privações, preferem lançar mão de uma reserva de humanidade que talvez sequer conhecessem. Estes se prodigalizam em palavras, gestos e iniciativas de generosidade, cuidado e compaixão, acudindo especialmente a debilidade dos mais indefesos. Assim, em meio à mais densa escuridão, despontam luzes; entre impenetráveis pedregulhos, brotam flores; sob rigoroso inverno, acendem-se lareiras. Sem a atuação do segundo grupo, resultaria nauseante a leitura dessa primorosa obra literária, tamanho o realismo das cenas e comportamentos ali descritos.

O que se pode captar da intensidade desse Ensaio? Certamente, um sem-fim de conclusões. Uma, porém, parece impor-se com mais evidência em tempos como o nosso: em situações-limites – quando o ser humano se vê irremediavelmente confrontado com sua própria fragilidade, quando se dá conta da inapelável finitude de suas pretensões, quando apalpa a vã ilusão de sua autossuficiência, quando se descobre enfim desnudado por circunstâncias que parecem tirar-lhe o chão de suas seguranças – é, então, que se lhe descortinam apenas duas possibilidades: viver com sentido e caminhar na direção de um horizonte que lhe preencha o coração e tonifique os passos, despertando e cultivando o que há de melhor em si e ao seu redor; ou deixar-se tragar pelo medo e pela angústia, aterrorizado pela cegueira do absurdo, lastimando os dissabores do agora, trancafiando-se na solidão do individualismo, laqueando enfim sua fecundidade vital, sempre tão rica em potencialidades ainda não advertidas e exploradas. A sabedoria judaico-cristã consignada na Bíblia sintetiza assim esse dilema precípuo da humana condição: diante de nós, estão a vida e a morte. Resta-nos, pois, saber escolher (cf. Dt 30,19).

 

  1. Semear entre lágrimas...

 A pandemia representou uma enorme perplexidade para o mundo inteiro. Todos nos vemos atormentados por uma completa incerteza em relação ao futuro. De repente, fomos obrigados a abrir mão de nossos ritmos habituais, a cancelar nossas agendas, a adiar projetos, a recolher-nos em nossas casas e a conviver com o que desconhecíamos. Quem alguma vez poderia ter imaginado que a humanidade passaria por semelhante situação? De fato, jamais teríamos antevisto uma ameaça de tamanha gravidade e tão amplas proporções, precisamente em uma época como a nossa, caracterizada por prodigiosas conquistas no campo das ciências e por ostensivos avanços tecnológicos.

As notícias alarmantes dos exponenciais contingentes de pessoas infectadas e da morte de muitas delas nos confrontam diariamente com a vulnerabilidade de nossa condição. A falta de um antídoto capaz de conter a proliferação do inimigo invisível e debelar seus efeitos joga por terra muitas fantasias de prepotência por parte do ser humano. A elucidativa associação do coronavírus aos desequilíbrios ecológicos provocados pela degradação da Casa Comum desperta-nos para a consciência de que, na teia da vida, tudo está visceralmente interligado. O isolamento compulsório obriga-nos a repensar valores, reordenar costumes e redefinir prioridades. A recessão econômica abre nossos olhos para a desoladora realidade de que, embora estejamos todos sob a mesma tormenta e atravessando os mesmos mares revoltos, navegamos em barcas diferentes, algumas bem abastecidas e equipadas, outras precárias e instáveis, como são as dos que se encontram abaixo da linha de pobreza, dos povos indígenas, dos migrantes e refugiados, dos que se acham nas ruas, etc. E não poderia ser diferente em um mundo no qual uma minoria se delicia na fartura e uma multidão definha na penúria. Outro agravante diz respeito à conduta adotada por instâncias governamentais, geridas por indivíduos desprovidos de sensibilidade, lucidez e competência, cujos argumentos e procedimentos atingem as raias dos mais infaustos absurdos, como o de subjugar cavilosamente a saúde e o bem-estar de toda uma população aos ditames da lei do mercado, minimizando ironicamente as causas e as consequências de um virulento tsunami. Verdadeiro colapso da democracia, emoldurado de cinismo e arrogância. Vemos deflagrar-se uma crise ética que há muito medrava nos terrenos movediços da política, agravada agora pelos estremecedores índices de desemprego em massa, carências elementares e mortes prematuras. E, por falar em morte, o duro golpe dessa penosa realidade se incrementa com a impossibilidade da despedida dos que partem e do abraço mútuo que alivia a saudade.

Tudo isso defrontou-nos seriamente com questões substanciais, como a do sentido da vida, levando-nos a refletir sobre o direcionamento que damos às nossas opções e decisões de cada dia, bem como sobre a consistência das intenções que nos guiam e das motivações que nos animam. Na indigência, costumamos intuir com mais clareza o que realmente importa. É o que experimentamos quando, em um longo percurso sob um sol causticante, descobrimos o valor incalculável da água que sacia nossa sede, da sombra que nos abranda o cansaço, da brisa que seca nossa fronte umedecida. Se, por um lado, a crise não se mostra favorável a escolhas decisivas; por outro, ela as impulsiona, revelando-nos quem somos e cobrando-nos, como é justo, discernimento, sensatez e tenacidade.

Neste período, não houve quem, em algum momento, não tenha parado para pensar a respeito da origem, do sustento e do fim de sua existência, bem como de sua relação com o Transcendente a quem os que cremos chamamos Deus. Ideias distorcidas a respeito de Deus fizeram com que alguns lhe atribuíssem a causa da pandemia, como se se tratara de um desígnio punitivo para castigar as veleidades e transgressões humanas. Outros, ao contrário, fazendo jus à fé professada em um Deus que é amor e só sabe amar, valeram-se das contingências do momento para submergir-se mais profundamente na amplidão do mistério e desfrutar da proximidade reconfortadora daquele que é o amigo incondicional da vida (cf. Sb 11,26), que veste os lírios, alimenta as aves e ocupa-se sem cessar do bem de seus filhos, tal como Jesus nos fez descobrir ao revelar-nos o rosto providente daquele que é seu e nosso Pai (cf. Mt 6,25-34). E em quem mais poderíamos reclinar a cabeça senão naquele que é o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que recolhe em seu odre as lágrimas do mundo (cf. Sl 56,9), consolando-nos para que saibamos consolar os que se acham em aflições maiores do que as nossas (cf. 2Cor 1,4)?

Ao longo deste tempo desconfortável, podemos testemunhar também a generosidade e até o heroísmo de muitas pessoas e grupos que, apesar da apreensão e do medo, conseguem converter o deserto árido em terra fértil, transformando a crise em possibilidade e fazendo da pandemia uma ocasião de aprimoramento humano e de serviço altruísta. O que não dizer dos profissionais da saúde que, permanentemente expostos aos riscos do contágio, se devotam ao cuidado dos doentes em geral e dos infectados em particular? E os que se dispõem a socorrer as pessoas em situação de rua, levando-lhes alimentos, medicamentos e suprimentos? Também os trabalhadores que se ocupam da limpeza, do transporte, da segurança, do abastecimento de nossas cidades são merecedores de gratidão e aplausos. E aqueles que, no escondimento de suas casas, protegem seus entes queridos, especialmente os idosos, enfermos e crianças? Como não apreciar a criatividade de artistas e comunicadores que, gratuitamente ou em ações beneficentes, proporcionam conteúdos capazes de instruir e entreter sadiamente os que se acham confinados? Como não pensar no senso ético de alguns políticos brasileiros que se notabilizam no zelo pelas cidades e estados de que são responsáveis, remando contra a corrente do governo federal e recusando-se a banalizar a tragédia e a dar guarida ao hóspede indesejado? E ainda os líderes religiosos que não interromperam seu labor e não deixam de povoar a solidão de seus fieis com uma presença inspiradora e uma palavra de paz, oferecendo-lhes o conforto da fé? Não podemos olvidar o empenho de cientistas e pesquisadores na tentativa de descobrir uma vacina capaz de pôr fim à ameaça letal do coronavírus. Tantos outros exemplos poderiam ser citados para dizer de homens e mulheres que, no limiar da vida, tocando de perto a própria fragilidade, não amesquinharam o coração: vizinhos que se apoiam mutuamente, grupos que não deixam à mingua os mais necessitados, pessoas que não renunciam ao sentido comum e não relaxam nas medidas sanitárias de prevenção e resguardo, etc. Além disso, não há como desconsiderar o fato de que a tecnologia vem se constituindo em um valioso auxílio para manter e alargar a comunicação e a interação entre as pessoas, favorecendo inclusive iniciativas de solidariedade. E estamos certos: “Quem semeia entre lágrimas, entre sorrisos colherá” (Sl 126,5).

 

  1. Sempre aprendizes: rasgados e remendados

Como no Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, a pandemia que afetou a população de forma tão incoercível permitiu-nos tomar maior consciência de nossa finitude e enxergar melhor o caos existente no interior de nós mesmos, das famílias, das instituições e da sociedade em geral. Foi o que afirmou o Papa Francisco, sem circunlóquios, naquela comovente celebração na Praça de São Pedro completamente vazia (27 de março de 2020), inspirando-se em Mc 4,35-41: “A tempestade desmascara nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos nossos programas, nossos projetos, nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade”. E acrescenta, dirigindo-se ao Senhor: “Tu nos chamas a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo de teu juízo, mas de nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a ti, Senhor, e aos outros”. São vagarosos nossos aprendizados, como são tardias nossas descobertas. Nas sendas da fé, sabemos que “o Senhor vai acendendo luzes quando vamos precisando delas”. Assim, a crise, a adversidade e o sofrimento, por mais que pareçam mensageiros de tragédia, podem ajudar-nos a amadurecer, tornando mais límpidos e cristalinos os valores humanos, espirituais e morais que nos enobrecem.

Esperamos que a dura travessia que a pandemia nos impôs resulte em promissores aprendizados. Que saibamos advertir a superficialidade e a agitação em que tantas vezes estacionamos nossa existência, de tal modo que passemos da dispersão à profundidade, identificando o que há de supérfluo em nossa vida, abrindo espaços de contemplação, reflexão e discernimento em nosso cotidiano, redescobrindo o valor da oração, confiando-nos inteiramente a Deus, sem jamais atribuir-lhe o que é responsabilidade nossa ou o que resulta de nosso livre arbítrio. Que saibamos intuir a urgência de uma convivência mais transparente, pacífica e solícita dentro de nossos lares, lapidando nosso temperamento, reconhecendo o que há de melhor nos outros, abrindo-nos à urgência da reconciliação, ajudando-nos mutuamente e sendo agradecidos. Que saibamos acordar para a importância de relações humanas mais equilibradas, respeitosas e cordiais, saindo do confinamento da indiferença, da rispidez e da intolerância, investindo na arte de ser bons e leais. Que saibamos mover-nos à compaixão e à solidariedade com os mais necessitados e sofridos, os de perto e os de longe, engajando-se em iniciativas e projetos de amparo aos mais pobres, de promoção da dignidade humana e de transformação das estruturas sociais. Que saibamos, enfim, sensibilizar-nos ante as agressões sofridas pela natureza, dom de Deus, tantas vezes vilipendiada por interesses mesquinhos, preservando e defendendo nossa Casa Comum mediante uma ecologia integral.

“Viver é um rasgar-se e remendar-se”, dizia um dos mais eminentes representantes da literatura brasileira (G. Rosa). Este é, portanto, um tempo de escolhas decisivas. E estas deverão firmar-se e desenvolver-se daqui para frente, se é que realmente tiramos proveito e inspiração das lições que tão penosamente nos foram impingidas por essa pandemia, da qual esperamos sair mais humanos, mais maduros, mais consistentes e persistentes, mais abertos ao encontro com Deus e com os irmãos. Na escuridão da noite, as estrelas brilham com mais intensidade. E a fé que sinceramente professamos é como “luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos corações” (2Pd 1,19). Recordou, a propósito, o Papa: “Esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais”.

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Como sugere a canção de S. Cristicchi, intitulada Lo chiederemo agli alberi, poderemos aprender das árvores que se mantém firmes e viçosas em meio aos temporais e enchentes que a condição indispensável para isso não é outra senão ter raízes profundas. E aprenderemos também que, ainda que as folhas caiam nos outonos da vida e os rebentos se congelem nos invernos mais severos, há que esperar o sol primaveril cujos raios preparam a beleza das flores e a abundância dos frutos. Ainda aprenderemos das andorinhas a viver com simplicidade, sem excessos, ostentações e artifícios, para voar livremente na vastidão do Mistério que nos irmana a todas as criaturas e que é a fonte originante e a meta derradeira de tudo o que existe.

 

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