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06/12/2020 Antônio Carlos Santini Edição 3931 Os ricos e a solidão
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"O fato é que a riqueza isola o rico. Medo de ser roubado? Defesa contra a partilha? Seja como for, ali está o muro alto, a cerca elétrica, o porteiro eletrônico, a guarita na esquina..."

Antônio Carlos Santini

 Tempos de pandemia, tempos de solidão.

A aversão ao confinamento e ao uso de máscaras são sintomas da dificuldade que as pessoas experimentam diante da redução dos contatos, da interação com grupos, desde a equipe de trabalho até a torcida de futebol.

Presos em casa, marido e mulher podem descobrir que a presença do cônjuge perdeu boa parte do encantamento que os levou ao matrimônio. Podem acabar vivenciando aquilo que Sartre anotou na peça “Huis clos” [Entre quatro paredes], quando o inferno é o outro... Juntos, mas sozinhos.

O tema da solidão atravessa toda a literatura. Em um poema de 1941, tendo por companhia apenas uma bruxa que voava em torno da lâmpada, Drummond se lamentava: “Nesta cidade do Rio / de dois milhões de habitantes / estou sozinho no quarto / estou sozinho na América”. Quatrocentos anos antes, era Camões quem definia o amor: “um solitário andar por entre as gentes”.

Na favela de Heliópolis, porém, praticamente não se experimenta a solidão. Os pobres moram em barracos muito próximos, sem os jardins de Alphaville e os amplos espaços dos apartamentos duplex. O vizinho ao lado é vacina contra a solidão.

O fato é que a riqueza isola o rico. Medo de ser roubado? Defesa contra a partilha? Seja como for, ali está o muro alto, a cerca elétrica, o porteiro eletrônico, a guarita na esquina.

Claro, não se trata de uma condenação para os ricos. Há exemplos de gente rica que rompeu a muralha da solidão orientando sua vida para o próximo. Vale lembrar a figura do industrial Marcelo Candia, conhecido como “o rico que virou santo”.

Em 13 de agosto de 1983, morria em Milão, na Itália, Marcelo Candia, que em 1964 se desfizera da sua indústria química, doando os seus bens e todo o tempo de sua vida aos pobres da Amazônia sem pedir nada em troca, além de morar com eles. Ele começou construindo o Hospital São Camilo, no Amapá, depois transferido aos médicos padres camilianos.

Ao conhecer a triste realidade da lepra na Amazônia, ele se dedicou a construir a colônia-leprosário de Marituba. Em nome dos hansenianos, percorreu boa parte da Europa para angariar fundos que ele direcionava para os leprosos, seus companheiros do leprosário. Sua dedicação chegou a trazer para sua companhia Dom Aristides Pirovano, ex-bispo de Amapá, e alguns padres e irmãs. A fundação que tem o nome de Marcelo Candia mereceu vários prêmios internacionais, mantendo obras sociais em todo o Brasil.

Marcelo não é um caso isolado. É verdade que nas classes mais ricas a generosidade também existe, ainda que em menores proporções. Quando o coração humano fica preso aos bens materiais, logo perde sua capacidade de doação. Segundo os párocos, a maior parte dos dizimistas sai das camadas mais pobres da população. O edifício dos templos costuma ser construído com os palpites dos ricos e a esmola dos pobres...

Mas não é só com doações em dinheiro que a generosidade se manifesta. Muita gente é generosa em doar seu tempo, como voluntários em creches e hospitais, evangelizando nas penitenciárias, rezando nas enfermarias, organizando associações em favelas e bairros de periferia. Tal como a viúva no Templo, cada um dá “de sua penúria”.

Na 2ª Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo nos exorta: “Dê cada um conforme o impulso de seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria. Poderoso é Deus para cumular-vos com toda espécie de benefícios, para que tendo sempre e em todas as coisas o necessário, vos sobre ainda muito para toda espécie de boas obras.” (2Cor 10,7-8)

De qualquer modo, os mais ricos deveriam ter isto em mente: no Juízo Final, os pobres não serão os seus juízes, mas poderão ser convocados como testemunhas...

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