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13/12/2021 Dom Walmor Oliveira de Azevedo Edição 3943 Os gritos dos excluídos, por que incomodam tanto?
F/ Grito dos excluídos
"A lembrança dos pobres não deve ser motivo de incômodo pela ocupação da via pública. Quando aqueles que sofrem são considerados uma presença indesejada, comprova-se a deterioração humanitária de uma sociedade. Espera-se uma postura bem diferente."
 

Causa perplexidade saber que o Grito dos Excluídos traz incômodos e desconfortos para muitas pessoas, insensíveis ante a multidão de pobres e vulneráveis. Ao invés de cultivarem compaixão, reprovam o evento anual realizado no Dia da Pátria e dedicado aos excluídos.  Agora, com os vergonhosos cenários de pobreza da sociedade brasileira se multiplicando, não há outro caminho: os gritos dos excluídos precisam ser ouvidos. Não se trata de questão política, muito menos se relaciona com jogos de interesse de contextos ideológico-partidários, mas uma consideração humanitária diante dos que sofrem. O Brasil está emoldurado por cenários de fome e, por isso, torna-se urgente qualificar a escuta do coração e engajar-se nas ações que impulsionam mudanças, com velocidade ainda mais veloz, para vencer o sofrimento que vitima tantos pobres, mergulhados na insegurança alimentar, passando fome.

Muito já se falou sobre uma das cruéis consequências da pandemia da COVID-19: as desigualdades foram acentuadas, comprovando os retrocessos que, para serem superados, dependem da configuração de nova ordem social, inspirada por valores e princípios éticos alinhados com um humanismo integral. Mas, tristemente, o que se verifica é uma perda grave desse sentido ético-moral, revelada nas irracionalidades para se alcançar enriquecimentos fáceis, nas manipulações interesseiras no campo legislativo, nas conivências que ferem direitos cidadãos. Dentre os direitos essenciais desrespeitados, desponta aquele que garante alimentação a cada pessoa. São necessárias ações governamentais e cidadãs para conter a avalanche destruidora da fome. Iniciativas emergenciais devem se intensificar, humanitariamente, para que sejam evitadas catástrofes irreversíveis, pois a fome mata. Nesse sentido, quem se alimenta com regularidade, sem nada faltar, precisa se recordar, a cada garfada, daqueles que são igualmente seres humanos, com os mesmos direitos, mas passam fome, perambulam pelas ruas, vivem debaixo de pontes e viadutos, dormem diante de casas onde nada falta.

A lembrança dos pobres não deve ser motivo de incômodo pela ocupação da via pública. Quando aqueles que sofrem são considerados uma presença indesejada, comprova-se a deterioração humanitária de uma sociedade. Espera-se uma postura bem diferente. Uma reação de todos para vencer a carência alimentar. Famílias inteiras estão em situação de extrema vulnerabilidade – as vítimas são especialmente crianças e idosos. Esse sofrimento é grito que precisa ser escutado, para que se configure nova sensibilidade social e sejam multiplicadas ações emergenciais, sustentadas pela solidariedade. Essa reação solidária, para resgatar as vítimas da fome, exige recomposição de políticas públicas nas esferas federal, estadual e municipal. Os gritos dos excluídos não podem mais esperar as considerações mesquinhas e pequenas hospedadas em disputas pelo poder.

Os governos têm problemas graves e urgentes para resolver, mas, acima de todos os desafios, está a responsabilidade de não permitir que a população passe fome. Essa responsabilidade exige o reconhecimento de que o dom da vida, bem maior de cada pessoa, não pode estar submetido à lógica do mercado. A lógica do dinheiro, na sua irracionalidade, é “surda” aos gritos dos excluídos. É preciso reagir ao processo de deterioração social que alcança vários âmbitos, com terríveis consequências, sendo a fome uma das mais graves. Essa reação inclui debelar o acelerado processo de desmonte dos direitos sociais e efetivar políticas públicas capazes de vencer o flagelo da fome, do desemprego, da falta de moradia digna, carências nos campos da saúde e da educação.

Os gritos dos excluídos conclamam os cidadãos ao exercício da solidariedade. Os governantes e líderes da sociedade, por obrigação, honestidade e, em nome de uma união nacional, devem lutar pela promoção da igualdade social, valendo-se, evidentemente, de legislações que primam pela transparência – sem aprovar qualquer tipo de “orçamento secreto”.   A gravidade da situação de tantas pessoas que vivem na miséria desenha uma crise humanitária que se não for revertida desencadeará verdadeiro caos. O primeiro passo para superar a dor dos que padecem com a fome é a solidariedade – remédio para a cura de insensibilidades. A sociedade brasileira, que já avançou em muitos aspectos, agora sofre com retrocessos e precisa de um novo rumo, com cidadãos reavaliando seus hábitos, no horizonte inquestionável da ecologia integral, que também precisa balizar esferas legislativas, para que sejam corrigidos descompassos e injustiças.

Nenhuma pessoa, diante do que está acontecendo, tem o direito de cultivar “ouvidos de mercador”. Agora é a hora de um novo entendimento cidadão e político, nos trilhos da solidariedade, que promove a justiça. Para isso, todos, indistintamente, assumam este compromisso: ouvir os gritos dos excluídos, sensibilizando-se, para qualificar a cidadania, fortalecer a solidariedade e cultivar coragem profética. A caminho do Natal, os ouvidos do coração e da razão se exercitem e consigam escutar os gritos dos excluídos para que seja celebrado, com autenticidade – e não com hipocrisias -, o nascimento do Menino Jesus. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça os gritos dos excluídos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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