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12/03/2020 Philip Yancey   Edição 3921 Os dois poderes
F/ TV Diária
"Deus se fez fraco com um propósito: deixar que os seres humanos livremente escolhessem por si sós o que fazer com ele."

 

A tentação no deserto revela uma profunda diferença entre o poder de Deus e o poder de Satanás. Satanás tem o poder de coagir, de estontear, de forçar a obediência, de destruir. Os seres humanos aprenderam muito desse poder, e os governos beberam fundo desse reservatório. Com um relho, ou um cassetete, ou um AK-47, os seres humanos podem forçar outros seres humanos a fazer qualquer coisa que desejem. O poder de Satanás é externo e coercivo.

O poder de Deus, em contrapartida, é interno e não coercivo. “Não se pode escravizar o homem por meio de um milagre, e a fé necessária é gratuita, não fundamentada em milagre”, disse o Inquisidor a Jesus no romance de Dostoievski. Tal poder pode parecer às vezes fraqueza. Em seu compromisso de transformar gentilmente de dentro para fora e em sua inexorável dependência da escolha humana, o poder de Deus parece uma espécie de abdicação. Como todo pai e todo amante sabe, o amor pode tornar-se impotente se a pessoa amada prefere desprezá-lo.

“Deus não é nazista”, disse Thomas Merton. De fato, Deus não é. O Mestre do universo se tornaria sua vítima, indefeso diante de um pelotão de soldados num jardim. Deus se fez fraco com um propósito: deixar que os seres humanos livremente escolhessem por si sós o que fazer com ele.

Soren Kirkegaard escreveu sobre o leve toque de Deus. “A onipotência que pode colocar a sua mão fortemente sobre o mundo pode também tornar o seu toque tão leve, que a criatura recebe independência.” Às vezes, concordo, desejaria que Deus usasse um toque mais pesado. Minha fé sofre com liberdade em demasia, com demasiadas tentações para descrer. Às vezes desejo que Deus me esmague, para vencer minhas dúvidas com a certeza, para me dar provas finais de sua existência e de seu interesse.

Também quero que Deus desempenhe papel mais ativo nos negócios humanos. Se Deus tivesse apenas estendido a mão e retirado rapidamente Sadam Hussein do trono, quantas vidas teriam sido salvas na Guerra do Golfo? Se Deus tivesse feito o mesmo com Hitler, quantos judeus teriam sido poupados? Por que Deus tem de “sentar sobre suas mãos”?

Quero também que Deus assuma um papel mais ativo em minha história pessoal. Quero respostas rápidas e espetaculares às minhas orações, cura para minhas enfermidades, proteção e segurança para os meus queridos. Quero um Deus sem ambiguidade, um Deus ao qual eu possa recorrer por amor de meus amigos incrédulos.

Quando tenho esses pensamentos, reconheço em mim um eco tênue, abafado, do desafio que Satanás lançou a Jesus há dois mil anos. Deus resiste a essas tentações agora como Jesus resistiu àquelas na terra, estabelecendo um jeito mais lento, mais gentil.

 

(Do livro “O Jesus que eu nunca conheci”, Editora Vida, São Paulo, 1998.)

 

PHILIP YANCEY nasceu em 1949, nos EUA. Escritor e jornalista cristão, seus livros venderam mais de 14 milhões de cópias, desde a sua estreia em 1977, e são lidos em 25 idiomas pelo mundo todo, fazendo dele um dos mais vendidos autores cristãos. Colabora com a revista Christianity Today, como editor associado. Entre seus livros, destacam-se: A Bíblia que Jesus lia, Decepcionado com Deus, Maravilhosa Graça e O Jesus que eu nunca conheci.

 

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