Formação Catequese
15/01/2020 Pe. José Herval Ferreira, SDN Edição 3919 O uso da Bíblia na catequese
F/ passionistimanduria
"A Bíblia não é um manual de dogmas, mas uma proposta que deixa espaço para o leitor refletir, pensar, discernir, decidir."

 

 

Podemos dizer que a Bíblia é a principal fonte do processo de evangelização, pois a Bíblia é a Palavra de Deus para nós. E se na catequese o que se pretende é ajudar o catequizando a realizar o seu encontro com Deus, fica clara a importância das Sagradas Escrituras para realizar esse encontro. A catequese precisa, portanto, ser centrada na Palavra de Deus. O Catequizando deve aprender a “escutar” a Bíblia e ser incentivado a viver o que escutou. Por meio da Bíblia, Deus se comunica conosco e nós nos comunicamos com Ele.

O uso da Bíblia, porém, pode trazer algumas dificuldades:

 

Dificuldade da linguagem

As traduções da Bíblia, em geral, não usam uma linguagem acessível a crianças e adolescentes. E, às vezes, nem os adultos entendem direito o que foi lido, por causa do vocabulário bíblico e de certos costumes e culturas dos povos antigos, personagens das Sagradas Escrituras.

O desejável seria uma tradução para as crianças que não desfigurasse os textos, mas que apresentasse uma linguagem compreensível de acordo com a idade dos catequizandos. Na verdade, o importante, quando se fala do uso da Bíblia, não é estar simplesmente com a Bíblia na mão, mas compreender sua mensagem. Expressões ou frases, que escapam totalmente do universo mental da criança, precisam ser, no mínimo, adaptadas e, às vezes, excluídas.

Quando se trabalha com adolescentes, jovens ou adultos, principalmente se eles já têm certa caminhada, é importante familiarizá-los com a Bíblia. O catequista incentivará a turma a adquirir a Bíblia e a levá-la para os encontros de catequese. Treinar bem o manuseio e explicar aquilo que não se compreende à primeira vista. (Para o catequista ativo em um grupo de reflexão isso é muito fácil).

 

Dificuldades na Escolha dos textos

Mesmo que a Bíblia seja um livro básico da catequese, o processo catequético não consiste num simples estudo dela. A seleção dos textos para cada encontro levará em conta o conteúdo que se quer transmitir. O material adotado na catequese já traz uma seleção de textos bíblicos. O catequista verá o conteúdo e depois procurará dar a fundamentação bíblica. Com isso entendemos duas coisas:

  1. Não se pode, na catequese, ler os livros bíblicos do começo ao fim, sem organizar os textos a partir de conteúdos programados. Isso para que o catequista não seja tentado a ir comentando partes bíblicas, sem um programa de conteúdos.
  2. E também não se pode realizar um tipo de leitura bíblica, em que se abre a Bíblia ao acaso e se lê o primeiro texto que os olhos alcançam, como se essa fosse a vontade de Deus para aquele momento. Ficaria parecendo uma tentativa de tirar sorte com a Bíblia, forçando Deus a revelar sua vontade na hora em que a gente quiser. Seria manipulação, como a cartomante que joga as cartas para descobrir a “vontade dos astros”.

Geralmente os roteiros de catequese já apresentam uma sugestão de texto bíblico que se encaixam dentro do assunto de cada encontro.

 

Quanto à proclamação dos textos

Toda leitura deve ser bem feita. Mas um texto da Palavra de Deus exige cuidados especiais:

  1. É preciso preparar a turma para escutar. Clima de silêncio, interesse e contemplação.
  2. Antes da leitura, fazer breve comentário a respeito do texto. Isso cria a curiosidade e facilita a compreensão.
  3. A posição de quem lê e de quem escuta. Depois de já ter rezado de pé, o escutar a Palavra assentados ajuda a se concentrar mais e ouvir atentamente.
  4. O tom de voz deve mostrar naturalidade. Não ler “cantando” o texto, mas proclamá-lo conversando. Usar um volume de voz suficiente para ser ouvido, nem gritando e nem sussurrando, como se fosse segredo.

 

Quanto ao comentário dos textos

É para um verdadeiro aprofundamento do tema. Não basta explicar e compreender o texto. É preciso ligá-lo ao tema e aplicá-lo à realidade da vida. Ficar atento aos tema e ao objetivo do encontro, para não se conversar sobre um tanto de coisas, sem concluir nada. Mas o texto não pode ser visto como uma camisa de força para limitar a reflexão. Ele é ponto de partida para uma conversa atraente de aprofundamento do tema. É hora de diálogo.

O catequista não deve se sentir num púlpito fazendo sermão. Mais importante que falar, é fazer falar, induzindo todos a se expressarem. Quando a turma debate o assunto, tem-se certeza de que alguma coisa foi interiorizada. Usar recursos apropriados que ajudem a reflexão: cartazes, faixas, álbuns seriados, partilha de opiniões. Entendendo e interessando-se pelo assunto, o catequizando vai emitindo a sua opinião e se comprometendo com a comunidade.

 

Quanto ao processo de comunicação

Sobretudo na hora do comentário. A comunicação é horizontal e vertical. A horizontal vai do catequista ao catequizando e do catequizando ao catequista. A vertical vai de Deus ao catequizando e deste volta até Deus, em forma de adesão pessoal e íntima.

Então, o catequista deve se comunicar com os catequizandos, saber falar uma linguagem entendida e apreciada por eles. Isso supõe o catequista seguro no assunto, falando com clareza, sem atitudes que produzam antipatia na turma: mau humor, moralismos, autoritarismos, monopólio da verdade, dificuldade de ouvir os outros.

A comunicação de retorno é mais difícil. Vai exigir do catequista certo jeito de escutar a turma, compreender sua realidade, suas idéias, suas opiniões, seu mundo.

Comunicação sem retorno é sempre incompleta. É como quando se envia uma carta que fica sem resposta. O catequizando não precisa sair do encontro repetindo tudo o que o catequista afirmou. O importante é o catequizando se confrontar com a mensagem proposta e se posicionar ou se decidir diante dela, elaborando o seu conhecimento.

O catequista deve estabelecer a comunicação de Deus com os catequizandos. A Palavra que se ouviu é Palavra de Deus. Com as devidas proporções é Deus falando. A turma precisa ouvir a Palavra, sabendo que Deus quer comunicar algo. É preciso ter cuidado para não colocar nossa vontade como sendo vontade de Deus.

É preciso distinguir o que é opinião pessoal, o que é doutrina ou pensamento da Igreja, que busca sempre o bem de toda humanidade conforme a vontade de Deus.

A vontade de Deus será sempre um mistério. Cada pessoa a ouvirá, a sentirá, diretamente em seu coração, em sua consciência. O catequizando irá aprendendo a concluir o que Deus lhe mostra, a partir de tudo, quando se reflete no encontro. Mas a comunicação de Deus ao catequizando acontecerá sempre no íntimo de cada pessoa.

Ao catequista cabe também incentivar aos catequizandos a dar uma resposta, um retorno àquela iluminação divina que tiver sido captada a partir da reflexão da Palavra. Essa resposta pessoal é que vai produzir nele a mudança de vida, com a adesão mais clara que ele for capaz. A melhor resposta à Palavra de Deus é a simpatia e o amor que o catequizando aprende a ter em relação a Deus criando condições para que floresça no coração uma atração forte por Deus.

 

Então, a Bíblia não é um manual de dogmas, mas uma proposta que deixa espaço para o leitor refletir, pensar, discernir, decidir. A Bíblia pede uma resposta prática, um engajamento consciente, uma fé firme e uma caridade perfeita. Essa é uma conquista de toda uma vida. A leitura diária da Bíblia faz parte do esforço de formação contínua dos fiéis. E a Bíblia na catequese deve ajudar a todos a descobrir a maneira como Deus nos fala hoje, aqui e agora, onde o próprio Deus nos colocou para testemunhar seu amor e sua presença libertadora.

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