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28/06/2021 Luis Miguel Modino _ imprensa CELAM Edição 3937 O Processo de Escuta deve ser mútuo, recíproco e transformador CEAMA e REPAM refletem sobre o processo de escuta para a Assembleia Eclesial da América Latina e Caribe
F/ REPAM
"Uma escuta que 'se transforma em reformas e mudanças, como tem acontecido na Amazônia desde o Sínodo... Escutar, no sentido do discernimento da vontade de Deus, produz mudanças, que esperamos sejam irreversíveis na lógica do Povo de Deus'."

 

A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA) convocaram esta segunda-feira, 28 de junho, um seminário virtual no qual, no âmbito do processo de escuta da Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, pretendiam dar passos nesta caminhada continental a partir de uma perspectiva amazônica.

Escutar é muito mais do que ouvir

Mediado por Daniela Cannavina, secretária geral da Confederação Latino-americana de Religiosos (CLAR), contou com a presença de Patrícia Gualinga, do Cardeal Pedro Barreto, Francisco Lima, Mauricio López e Francisco Campos. Queria ser um momento para "exercitarmo-nos na arte de escutar, que é muito mais do que ouvir", de acordo com a secretária da CLAR. Segundo a religiosa, "a escuta ajuda-nos a encontrar o gesto e a palavra oportuna, que nos separa da condição dos espectadores, ajudando-nos a desenvolver o melhor que Deus desenvolveu na nossa própria vida".

O Cardeal Pedro Barreto partiu da ideia de que "quando falamos de uma Igreja com um rosto amazônico, estamos falando de elementos fundamentais da Igreja, porque estamos falando do cuidado da vida, das culturas e da casa comum". O cardeal peruano referiu-se aos sonhos do Papa Francisco na Querida Amazônia e à sinodalidade, que "não é uma invenção do Papa Francisco, mas um regresso às origens". O presidente da REPAM recordou as palavras do Papa Francisco nas quais diz que "a sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja para o terceiro milênio", algo que é desenvolvido na Episcopalis Communio.

O Arcebispo de Huancayo, insistiu na necessidade de difundir a ideia de sinodalidade, de descobrir a importância do "sensus fidei". Segundo o Cardeal, "a sinodalidade faz parte da experiência de um Povo de Deus caminhando na história", que ele definiu como "um processo de escuta de Deus, de discernimento e de atuação como o Povo de Deus a caminho". Nas suas palavras, mostrou a sua alegria por ser a Amazônia e os seus povos uma ajudar para a Igreja pôr-se a caminho.

Todos temos de ser atores na Igreja

Depois de mostrar a importância de estarmos conscientes de que estamos no processo de escuta, salientou-se que "com a Assembleia Eclesial estamos perante um elemento fundamental para o processo de reforma da Igreja Católica". Uma Igreja que escuta e que é um passo prévio para o momento mais importante, que será o Sínodo sobre a Sinodalidade. Finalmente, insistiu que "todos temos de ser atores na Igreja, não há espectadores". 

"Com o Sínodo, a Igreja deixou claro de que lado está, do lado dos mais fracos, dos mais distantes, daqueles de nós que estão no território", afirmou Patrícia Gualinga, que insistiu que "isto tem sido o fruto da escuta dos sentimentos das comunidades". A líder indígena insistiu na necessidade de ter um impacto noutros espaços eclesiais, de nos ouvir, também fora da Amazônia. Para Patrícia, "tudo tem de ir na chave da interculturalidade, o que leva à compreensão das expressões positivas, que podem ser uma contribuição num mundo caótico", algo que tem de ser uma realidade em unidade.

A representante dos povos indígenas na Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), sublinhou que este espaço de escuta nos dá muita esperança, "é uma relação de aliados, deixando para trás as imposições do passado, para construir um presente que pode contribuir dentro do mundo espiritual". Para a indígena Kichwa de Sarayaku, "Deus esteve sempre presente no pensamento espiritual dos povos indígenas, que tem de ser acoplado pela Igreja a partir de chaves interculturais". Ela mostrou a sua confiança no Espírito para que outros espaços possam ser criados na Amazônia, onde a caminhada como irmãos e irmãs é algo presente na vida da Igreja.

Ao falar sobre o contexto da Amazônia no Brasil, Francisco Lima insistia em que “a vida da Amazônia está constantemente ameaçada”, uma realidade que intensificou com o atual governo, que age “sem nenhum respeito aos povos amazônicos, que veem reduzidos ou retirados seus direitos conquistados a duras penas”.

Um olhar atento para a realidade

Na Amazônia, “a Igreja Católica tem procurado estar sempre com um olhar atento a esta realidade”, segundo o secretário executivo da CNBB Norte 1. Ele destaca que “a Igreja da Amazônia foi buscando seu rosto próprio, deu ênfase na formação do clero autóctone, mas também procurou trabalhar a formação das milhares de lideranças leigas espalhadas por tantas comunidades nesta imensa Amazônia”, relatando o trabalho que vem sendo feito.

Francisco Lima destacou o ânimo dado pelo Papa Francisco neste caminho desde a Conferência de Aparecida, insistindo na necessidade da presença da Igreja na região. Ele lembrava os caminhos indicados pela Laudato Sí, e convocava o Sínodo para a Amazônia, um chamado a buscar “novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”, que “nos abriu novas possibilidades, reafirmou alguns caminhos já trilhados, mais que precisa ser fortalecido, e exigiu de nós muito mais ousadia”.

Estamos diante de um processo que tem fortalecido as comunidades, que tem dado espaço para que as comunidades possam ser escutadas. Também destacava que isso possibilita ecoar a voz dos povos da Amazônia para fora da Amazônia. Francisco Lima chamava a aproveitar este tempo para afirmar que “somos todos Povo de Deus, e que devemos estar em comunhão”.

Escuta mútua, recíproca e transformadora

"A escuta deve ser mútua, recíproca e transformadora", insistiu Mauricio Lopez, uma escuta que "se transforma em reformas e mudanças, como tem acontecido na Amazônia desde o Sínodo. Para o diretor do Centro de Ação Pastoral e Redes do CELAM, "escutar, no sentido do discernimento da vontade de Deus, produz mudanças, que esperamos sejam irreversíveis na lógica do Povo de Deus". Maurício vê a escuta como uma forma de alcançar as periferias geográficas e existenciais, o maior número de pessoas possível. Daí pediu à REPAM que continuasse sendo essa ponte para aqueles que nunca foram ouvidos, ainda mais numa situação que mudou em resultado da pandemia de Covid-19.

Segundo Maurício Lopez, que conhece a realidade amazônica a partir do seu trabalho como secretário executivo da REPAM, "os povos indígenas sempre pediram coerência e mudanças fundamentais, para poderem agir, algo que é a Assembleia Eclesial, que quer tornar-se uma porta aberta para aspirar a uma Igreja mais sinodal, algo nascido no Concílio Vaticano II, onde nos é pedido que sejamos Igreja Povo de Deus". Maurício recordou ideias presentes no Sínodo para a Amazônia, que mostraram a importância de a periferia iluminar o centro, para ajudar a abrir novos caminhos a partir da periferia.

É importante que da REPAM se faça um convite para "abraçar a Assembleia Eclesial como algo próprio, como um lugar para gerar espaços de escuta genuína que transformam", de acordo com Maurício Lopez. Também destacou a ligação com o Sínodo sobre a Sinodalidade, "que pediu que a periferia iluminasse o centro, na chave do transbordamento, que é a forma como Deus resolve o conflito". Por esta razão é necessário "estar ciente de que estamos lutando pelo mesmo", recordando as palavras de Santiago Yahuarcani, que nos chama a compreender a colaboração necessária.

Não podemos esquecer que vivemos num tempo desafiante como Igreja, devido a uma pandemia que mudou a nossa forma de nos relacionarmos uns com os outros, como Francisco Campos nos lembrou. O encarregado da plataforma de escuta da Assembleia Eclesial definiu-a como uma experiência profética, uma novidade. Explicou como funciona a plataforma de escuta, o que dá a possibilidade de participar de três formas: comunitária, fóruns temáticos e pessoal, sendo uma escuta sem filtros.

Campos convidou a ser solidários, a convidar outros a participar e a ajudá-los a fazê-lo, recordando que se trata de promover formas de participação para que a Igreja possa estar presente, sendo portadora da Boa Nova, pondo os meios tecnológicos ao serviço dos outros. Na sua intervenção explicou os diferentes elementos presentes na plataforma, salientando que esta plataforma de escuta continuará sendo um lugar de partilha para além de 30 de agosto, de construção de novos caminhos para a Igreja do continente.

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