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14/06/2020 Helmut Gollwitzer Edição 3925 O patrão e os vinhateiros
F/ ildolomiti.it
"Hoje o Senhor reclama o produto de seu domínio, sobre o qual possui um direito irrecusável. "

O patrão e os vinhateiros

Helmut Gollwitzer

 

Jesus narra uma história que é a de Deus com seu povo. Ele fala de uma vinha, e os ouvintes sabem perfeitamente o que está em questão, pois ela sempre serviu de motivo de louvor para Israel (cf. Is 5,1; 27,2). De fato, Israel tinha consciência de ser o lugar de predileção de Deus para fazer dele a sua propriedade. A vinha fora arroteada e plantada por suas mãos, e ele estava à espera de seus frutos.

Hoje o Senhor reclama o produto de seu domínio, sobre o qual possui um direito irrecusável. E não o exige fora da época, mas no momento conveniente. Os ouvintes o compreendem perfeitamente.

Todos os profetas, então venerados como grandes homens da história, eram uma pergunta de Deus a respeito de sua vindima. Certo, todos sabiam que eles tinham sido expostos à situação de não receber os frutos, da zombaria, dos maus tratos, perseguição e recusa obstinada. E assim Deus revelou sua paciência e sua esperança, enviando sempre novos mensageiros.

A história de Israel foi sempre a história da extrema longanimidade de Deus. Israel cansou Deus com seus malfeitos (cf. Is 43,24). O Deus Todo-poderoso e Único-sábio parece perplexo diante desse endurecimento que resiste a todas as aparentes veleidades de melhora e de conversão: “Que posso eu fazer?” (Os 6,4)

Então, ele se vale do último meio: ele envia a si mesmo, na pessoa de seu Filho Bem-amado. Ele não vem para se vingar, mas para conduzir seu povo à atitude correta em relação a Deus. Por acaso irão levar isso em conta? Jesus explica assim porque, em contradição com as profecias de João, sua vinda não coincide com o Juízo Final. Sua missão, que ainda está sob o signo da paciência de Deus, dá ao povo uma última possibilidade de arrependimento.

Quanto aos vinhateiros, ao contrário, esse envio do Filho revela o verdadeiro desejo deles: “para que a herança fique para nós”. Ao rejeitar o Cristo, o homem procura destronar a Deus para tornar-se o seu próprio patrão. O envio do Filho e seu destino revela a profunda inimizade entre o homem e Deus. Deus deve morrer a fim de que o homem possa, enfim, viver segundo seus próprios desejos. Assim, ele deve matar Deus. Cada passo na desobediência revela sua intenção de suprimir Deus para alcançar o que ele crê ser a verdadeira vida, usurpando a herança de Deus, de quem pretende tomar o lugar.

“Que fará, então, o Senhor da vinha?” Interrogados por Jesus, os próprios ouvintes devem dizer se é possível entrever outro julgamento que não seja a condenação e a morte. O impasse parece sem saída.

No entanto, Jesus não respondeu por inteiro à sua própria pergunta: “Que fará o Senhor da vinha?”, pois a graça não é anunciada ao homem que peca, mas ao homem que já pecou. Ela não e a emanação natural de uma infatigável misericórdia divina, mas se apresenta, ao contrário, como a imprevisível e inesperada vitória do amor de Deus sobre sua cólera, contra toda expectativa e toda razão. Escondida por trás do julgamento inexorável, desenha-se esta nova e imprevisível possibilidade de Deus: um novo e último convite resultará da morte do Filho Bem-amado em favor de seus assassinos. Daquele “tarde demais” surgirá um “ainda” da paciência divina.

Deus não ficará sem um Israel, sem um povo para si, pois a vinha será doada a outros. No horizonte distante, já se entrevê o dia em que todo o Israel será salvo.

 

HELMUT GOLLWITZER [1908-1993] nasceu em Pappenheim, Baviera. Fez seus estudos de teologia no momento da ascensão do regime nazista, ao qual se opôs como membro da Igreja confessante. Convocado para o exército, trabalhou como enfermeiro para não ter de usar uma arma. Prisioneiro do exército russo, permaneceu quatro anos em um goulag. De volta à Alemanha, lecionou teologia nas universidades de Bonn e de Berlin, trabalhando ativamente contra o rearmamento da Alemanha. É autor de um comentário sobre o Evangelho de São Lucas: Die Freude Gottes, 1979.

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