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14/02/2020 Maíra Mathias e Raquel Torres Edição 3920 O mercado que alimenta os EUA com sangue do México
F/ Evangeline Gallagher, ProPublica
"Em ritmo alucinante, mexicanos vão até o país vizinho vender plasma. Com vistos específicos, “doam” até 2 vezes por semana, como única fonte de renda."

Imagine que você é mexicano e, duas vezes por semana, atravessa a fronteira com os Estados Unidos para “doar” sangue (o que nos tempos correntes, convenhamos, é bastante estressante). Essas “doações” são pagas e, na verdade, são a sua única fonte de renda. Então, mesmo que você saiba (ou sinta) que o seu corpo não tem tempo de se recuperar, pois os sintomas da falta de um anticorpo chamado imunoglobulina G já aparecem – dores de cabeça, desmaios, dificuldade até em levantar objetos – você continua.

Essa é a rotina de Genesis, uma jovem de 21 anos, e de outros milhares de mexicanos que servem, literalmente, de matéria-prima para os EUA. O país é o maior fornecedor de plasma sanguíneo em um mercado global de US$ 21 bilhões. Por lá, uma pessoa pode “doar” sangue até 104 vezes por ano, uma permissão que ultrapassa em muito a regulação da maior parte dos países.

A reportagem da ProPublica, feita em parceria com a TV alemã ARD, entra nos meandros do esquema envolvendo os imigrantes. Os dados da agência reguladora FDA mostram que dos 805 centros de doação de plasma nos EUA, 43 estão localizados ao longo da fronteira sul. E de acordo com documentos internos obtidos de uma das empresas que operam por lá, de longe, eles os mais produtivos. Em média, um centro de coleta da Grifols paga mil doadores por semana, enquanto na fronteira esse número sobe para 2,3 mil. Além disso, eles são os campeões no registro de pessoas que doam 75 vezes por ano ou mais.

Baseando-se em entrevistas com doadores de Ciudad Juárez e outros municípios da fronteira, cada doador mexicano recebe por dia US$ 9, abaixo de US$ 300 por mês. Mas isso varia: quanto mais magra, menos dinheiro a pessoa recebe por doação, numa variação que em outra empresa – a CSL – vai de 20 a 40 dólares. Se por qualquer razão a doação não se completa, a pessoa não recebe um centavo. Muita gente tem nas doações a principal ou a única fonte de renda. Dão o sangue por comida e casa.

A situação está em uma zona cinzenta legal. Os mexicanos que doam sangue têm um visto específico, que permite entrar nos EUA apenas para visitar. Mas Genesis, por exemplo, faz isso há dois anos, duas vezes por semana, no que poderia ser perfeitamente caracterizado como uma relação de trabalho. As empresas negam essa relação e afirmam que o pagamento é uma compensação aos doadores.

No México, o pagamento por doação foi proibido em 1987. No Brasil, isso aconteceu em 1988, com a Constituição. Antes da criação do SUS, o sangue era uma mercadoria como qualquer outra. Máfias operavam esquemas de sangue e a segurança das transfusões era precária. Quando defendeu a criação do sistema público de saúde na Constituinte, o sociólogo Betinho, ele próprio vítima de sangue contaminado, resumiu: “Esta é uma questão nacional, da qual o sangue é apenas uma ponta do iceberg, mas é uma ponta importante, é uma ponta fundamental.”

Fonte: Outra Saúde

 

 

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