Destaques Atualidade
03/09/2020 Antônio Carlos Santini Edição 3928 O homem descartável
F/ L. Côte
"A história da humanidade é um longo combate entre o bárbaro e o civilizado"

Antônio Carlos Santini

 A pandemia atual, como toda crise da humanidade, abre amplo leque para escolhas e decisões e, em consequência, para uma revisão de nossos princípios e valores. Ou – para ser mais claro – entre a civilização e a barbárie.

Em vários momentos, representantes do governo brasileiro emitiram declarações bastante negativas em relação aos idosos, um dos grupos de risco para a Covid19. A mentalidade de fundo era que uma pessoa velha já está no fim da vida e por isso não há grande perda em caso de óbito.

Obviamente, não é esta a doutrina na Igreja em relação à pessoa humana, dotada de uma dignidade única no campo da Criação e, por isso mesmo, merecedora de respeito e cuidado desde sua concepção até a morte natural.

No portal G1, em 31/07/2020, estavam registradas declarações pungentes, como a de Sivonei Marlei Marques, de 73 anos: “Já fizeram muita chacota com os idosos nas redes sociais, como se a gente fosse algo para jogar no lixo, morrer e enterrar. Isso tudo é muito triste”.

Maria Lúcia Santa Corrêa, 68 anos, comentava: “Vejo o que está acontecendo nessa pandemia e fico chocada com o jeito que tratam as pessoas idosas, os doentes. Pelo fato de ser idosa não significa que ela esteja pronta para morrer ou que ela não sirva mais para a sociedade. As pessoas acima de 60 são ativas, produzem, trabalham”.

A história da humanidade é um longo combate entre o bárbaro e o civilizado. O historiador espanhol Jaime Balmes escreveu sobre o tema, realçando o contraste entre a civilização cristã e o mundo pagão:

“Entre os gregos, o grego é tudo; os estrangeiros, os bárbaros não são nada. Em Roma, o título de cidadão romano é que faz o homem; quem carece desse título, nada é. Nos países cristãos, se nasce uma criatura disforme ou privada de algum membro, ela excita a compaixão, é objeto da mais terna solicitude; para isto, basta-lhe ser homem, e acima de tudo homem desgraçado. Entre os antigos, essa criatura era vista como coisa inútil, desprezível e, em certas cidades, como na Lacedemônia, era proibido alimentá-la, e por ordem dos magistrados encarregados da supervisão dos nascimentos – dizê-lo causa horror! – ela era arremessada em um precipício. Era um homem, mas que importava? Era um homem que não podia servir para nada, e uma sociedade sem entranhas não queria assumir o fardo de mantê-lo”.

Balmes nos faz uma proposta: “Leia Platão (De Republica L. 5) e Aristóteles (Politica L. 7, cap. 15,16), e verá a horrorosa doutrina que professavam a respeito do aborto e do infanticídio; ver-se-ão os meios cruéis que esses filósofos sabiam excogitar para se precaverem do excessivo aumento da população, e se perceberá o imenso progresso feito pela sociedade sob a influência do Cristianismo em tudo o que diz respeito ao homem”.

As guerras, os desastres naturais e as pandemias não pioram o homem, apenas trazem à tona os espectros que já habitavam o seu coração...

 

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS