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14/10/2021 Antônio Carlos Santini Edição 3941 O fim dos milagres
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"A morte NÃO é o fim dos milagres. É pela morte que damos o salto olímpico daquilo que passa para o que não passa, do efêmero para o eterno. E nem imaginamos quanto de miraculoso se experimentará no além-túmulo..."

 

Vivemos cercados de milagres. O sanhaço deixa cair a semente de pitanga e, tempos depois, lá vem brotando a primeira folhinha verde. Um rápido espermatozoide penetra o óvulo e, num átimo, uma pessoa humana está em formação. E não venham me dizer que a ciência “explica” o milagre: no máximo, ela o constata.

Bem, o milagre sempre incomoda. Em São Mateus, ES, comentei com o médico o fato de que um pregador dominicano rezara por um doente atingido por um câncer e, em questão de minutos, o periósteo da perna se regenerou. O amigo torceu o queixo: - “É impossível!”

Claro que é impossível! Por isso é milagre! O poder de Deus e a fé dos homens é capaz disso. Ou será que o Criador, autor das leis físicas e bioquímicas, está proibido de superar suas leis?

Nosso poeta maior, Manuel Bandeira, é o autor do poema “Preparação para a Morte”:

 A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
 

Ele tem razão em um ponto: tudo é milagre. Deixa de ter razão em outro: a morte NÃO é o fim dos milagres. É pela morte que damos o salto olímpico daquilo que passa para o que não passa, do efêmero para o eterno. E nem imaginamos quanto de miraculoso se experimentará no além-túmulo...

Mas os milagres sofrem de terrível vício: nós nos acostumamos com eles. Uma vez repetidos, parecem banais. Ninguém mais arregala os olhos. Lembram do maná que caía do céu? Tempos depois já era uma comida nojenta (cf. Nm 11,6). Os hebreus estavam enfastiados com o milagre divino. E se o pobre Moisés abrisse o Mar Vermelho uma vez por semana, logo iriam perguntar: - “Hoje tem espetáculo?”

É assim quando nasce uma criança: o milagre repetido se resume a uma visita ao cartório e um dado para o IBGE. Querem outro exemplo? Em cada missa, o pão do trigal e o vinho da parreira se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Cristo. Os fiéis presentes comentam: “Ah! bom...” E os ausentes... nem se deram ao trabalho de conferir o milagre.

Um dia, porém, o milagre não acontece. A criança não sara. O câncer não cura. O jovem morre drogado. O velho parte sozinho. E então? De que vamos viver na ausência do milagre?

Seguramente, da fé. Deve ser por isso que Jesus suspirou: - “Bem-aventurados aqueles que não viram... e creram...”

 

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