Roteiros Pastorais Homilética
08/01/2022 Marcelo Barros   Edição 3944 O batismo, profecia da inserção interior e social
F/ Periodista Digital
"Hoje, essa celebração do batismo de Jesus deve nos ajudar a renovar nosso compromisso de inserção. Nesse compromisso, atualmente, buscamos novas formas de união cósmica entre o céu e a terra. A destruição ecológica revela uma ruptura. O projeto divino pede que procuremos unir novamente céu e terra, humanidade e natureza."

 

Neste domingo, celebramos a festa do Batismo do Senhor. Essa celebração é ainda parte da festa da Epifania. Neste ano C, o evangelho proclamado hoje é Lucas 3, 15- 16 e 21 – 22.

A primeira parte do evangelho é o testemunho de João Batista que já ouvimos no 3º domingo do Advento e a segunda é o testemunho do evangelho sobre o que ocorreu depois do batismo ou em consequência do batismo de Jesus. Lucas não se detém em contar detalhadamente como foi o batismo de Jesus. Diz, apenas: “enquanto todo o povo era batizado e Jesus, batizado, estava em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele, como se fosse em forma corpórea, como uma pomba. E do céu, veio uma voz: Tu és o meu Filho amado. Em ti está o meu agrado” (v 21- 22).

Lucas não conta em si o batismo.

Ele refere-se ao fato de Jesus ter sido batizado como algo já ocorrido. Provavelmente, na época das comunidades do evangelho, contar que João batizou Jesus seria dizer que Jesus se tornou discípulo de João, o que o evangelista não quer afirmar. Por isso, este evangelho conta primeiro que João Batista foi preso e depois fala de Jesus batizado. A missão de Jesus começa quando a de João se encerra. E essa missão é profética.

Batismo é o termo grego para mergulho, inserção. No tempo de Jesus, o mergulho nas águas do rio Jordão era símbolo de purificação e de banho regenerador para uma vida nova. Comumente se diz que o batismo de João era para o perdão dos pecados. Para nós, a noção de pecado é moral. Naquela cultura, o pecado era social e cultural. Era viver uma situação que afastava a pessoa do templo e da pureza ritual. Pecadores eram os trabalhadores pobres que dependiam dos estrangeiros ricos para sobreviver. Eram as mulheres que ficavam impuras quando menstruavam e quando davam a luz. Eram as pessoas que abatiam animais para vender... Isso significa que pecadores eram os pobres marginalizados. Dizia-se que o batismo de João era para perdão dos pecados porque era para libertação das marginalizações que, em nome de Deus, deixavam os pobres fora da fé.

Ao ser mergulhado no Jordão, Jesus assume a vocação de profeta.  O Jordão era o rio que faz fronteira entre o deserto e a terra prometida. No antigo Êxodo, para entrar na posse da terra, o povo tinha de atravessar o Jordão. Ao ser batizado, Jesus retoma esse gesto do antigo Êxodo dos hebreus. O batismo não é apenas um gesto ritual interior. Evoca a luta social de libertação e, ao mesmo tempo com a novidade da intimidade de uma aliança nova, um diálogo íntimo com o Pai através do Espírito. É quando assume a missão de profeta social que, pela primeira vez, Jesus pode ouvir a voz do Pai lhe dizer no mais profundo de si: Tu és o meu filho muito amado.

O Messias nos mergulhará no Espírito Santo

Assim como Jesus, é a voz do Pai de Amor no mais íntimo do nosso ser que nos envia à luta e à profecia da libertação.

No evangelho de Lucas, João Batista diz que ele mergulha as pessoas na água, mas o Messias as mergulhará no Espírito Santo. Na intimidade divina e no projeto que Deus tem para o mundo. Enquanto João é apresentado de forma solene no começo do capítulo, Jesus entra na história quase anonimamente: “quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também...” O batismo ou mergulho em águas correntes era o sinal da renovação de vida que Deus faria na vida de cada pessoa e do mundo. Se quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também, isso significa que ele se inseriu e assumiu a condição de pecador social (marginalizado da religião, impuro). E naquela ocasião, de acordo com esse evangelho, Jesus recebeu do Pai a confirmação de sua missão e a consciência da sua filiação messiânica: Tu és meu Filho. Foi ao se identificar com os pobres marginalizados da religião, que Jesus escuta Deus lhe dizer: Tu és meu filho.

Quando o texto diz: “os céus se abriram”, o povo compreendeu a alusão ao fato de, que desde os tempos do cativeiro da Babilônia, não havia mais profeta. Os céus estavam fechados. A comunicação com Deus era indireta. Agora, os céus se abrem. A partir da inserção de Jesus, os céus estão abertos para todos. Já não existem mais regras e leis para sermos aceitos por Deus. Ele é inclusão total e todos/todas são incondicionalmente acolhidos/as.

Lucas salienta que isso aconteceu no momento em que Jesus orava. Deus escuta e atende a oração de Jesus lhe dando o Espírito Santo. O Espírito desce e pousa para permanecer sobre Jesus. É o mesmo Espírito que plainava sobre as águas na criação (Gn 1). É o Espírito que, ao ligar céu e terra, inicia uma nova criação. Como a pomba que, com um ramo verde no bico, anunciava o fim do dilúvio e o renascimento da vida no mundo (Gn 8, 12), o Espírito desce como se fosse uma pomba (suavemente). Em alguns círculos rabínicos, a pomba era o símbolo nupcial do casamento de Israel com o Senhor. No Cântico dos Cânticos, várias vezes, o namorado chama a amada de “minha pomba” (1, 15; 4, 1; 5, 2; 6,9).

Hoje, essa celebração do batismo de Jesus deve nos ajudar a renovar nosso compromisso de inserção. Nesse compromisso, atualmente, buscamos novas formas de união cósmica entre o céu e a terra. A destruição ecológica revela uma ruptura. O projeto divino pede que procuremos unir novamente céu e terra, humanidade e natureza.

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