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26/05/2020 Carlos Scheid Edição 3924 No tempo do orelhão
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"Na próxima vez que você pegar o seu celular, procure injetar um pouco de alma nessa máquina fria"

No tempo do orelhão

Carlos Scheid

 Todos sabem que a história da humanidade é contada por suas máquinas e suas ferramentas. Para isso servem os museus. Mas elas contam muito mais: revelam nossa alma...

É o caso do orelhão. Hoje em processo de extinção, como os antigos dinossauros, o orelhão começava a falar por seu formato: uma concha, um espaço côncavo, como se nos dissesse: - “Sou todo ouvidos!”

O côncavo é a imagem da acolhida, da receptividade, como o colo das mães e as grutas onde costuma aparecer a Mãe de Deus. Tão acolhedor era o orelhão, que até nos protegia da chuva inesperada.

Mas esse telefone, que tanto sofreu com os vândalos, mostrava ainda outro traço nada desprezível: ele era “coletivo”. Quem se lembra dos candidatos nas filas, à espera de sua vez? Sim, o orelhão era “nosso”. Era compartilhado. Pertencia à comunidade.

Pois o tempo passou. Estamos na era do celular, do smartphone – inteligente, pode ser, mas extremamente egoísta. Ninguém diz “nosso celular”. Ele é meu. Só meu. Cinco na família? Cinco celulares...

Aliás, bastava examinar o seu formato: quadrado e plano. Não acolhe ninguém. Ele não está interessado em ouvir, quer apenas mostrar as imagens de sua tela. Em vez de uma voz amiga, você recebe uma mensagem escrita. Remota, asséptica, impessoal.

Tenho saudades de meu pai, em seu trabalho na subestação elétrica da RMV, girando a manivela da enorme caixa do telefone pregado na parede. Havia um bocal para falar e uma “orelha” para ouvir. Bons tempos!

Era um telefone com fio. Nas cruzetas dos postes telefônicos, o joão-de-barro edificava seu pequeno forno, onde ficariam bem aquecidos os filhotes cor de argila. A tecnologia andava de braços dados com a natureza.

Não. Não estou chorando. Estou apenas matutando sobre o itinerário que traçaram para nós, a título de facilitar nossa vida e complicar nossas almas. Todo traço interpessoal vai sendo apagado. Todo o coletivo é visto como incômodo. Não estamos dispostos a repartir. E o individual vai envolvendo a pessoa em sua cóclea, como caramujos humanos. Narciso perdido em seu lago interior.

Na Exortação Apostólica publicada após o recente Sínodo – “Querida Amazônia” - o Papa Francisco realça o sentido comunitário da população amazônica: “A luta social implica capacidade de fraternidade, um espírito de comunhão humana. Então, sem diminuir a importância da liberdade pessoal, ressalta-se que os povos nativos da Amazônia possuem um forte sentido comunitário. Vivem assim o trabalho, o descanso, os relacionamentos humanos, os ritos e as celebrações”. (Nº 20.)

Esses irmãos nativos têm muito a nos ensinar, remédios para nosso câncer individualista: “Tudo é compartilhado, os espaços particulares – típicos da modernidade – são mínimos. A vida é um caminho comunitário onde as tarefas e as responsabilidades se dividem e compartilham em função do bem comum. Não há espaço para a ideia de indivíduo separado da comunidade ou de seu território”. (Idem.)

Na próxima vez que você pegar o seu celular, procure injetar um pouco de alma nessa máquina fria. Já que ele não tem orelhas, que tal usar as suas?

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