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08/04/2020 Antônio Carlos Santini   Edição 3923 No coração da Igreja
F/ Inter-American Division
"Sois chamados a pensar e agir como ‘irmãos na fé’, recordando que a fé nasce sempre do encontro pessoal com o Deus vivo"

 

A Santa Igreja é minha mãe. Pelo batismo, ela me gerou para a vida da graça. Por isso mesmo, todos os batizados são meus irmãos.

Devo à minha mãe obediência, respeito e gratidão. Afinal, ela me alimenta com o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia. Ela me ensina, adverte e corrige. Quando eu morrer, ela virá fechar-me os olhos.

Devo a meus irmãos a fraternidade que se materializa em cooperação, amizade e serviço. Eles me educaram, abriram meus olhos para o mundo, apoiaram-me nos momentos difíceis. Entre estes irmãos, estão minha catequista, meus mestres, médicos e enfermeiras, companheiros de comunidade.

Se, porém, percorro as redes sociais, fico espantado com o grau de agressividade (seria ódio?) de tantos batizados contra a Igreja Mãe. As palavras grosseiras e sem ponderação são dirigidas até mesmo contra o Papa, que não se encaixa – segundo eles – nos moldes que decidiram escolher para enquadrar o Sumo Pontífice. Fica visível o pano de fundo de ideologias e interesses que não se coadunam com o Evangelho de Jesus Cristo.

Por outro lado, também entre os irmãos batizados escorre uma lamentável correnteza de antipatias e acusações, zombarias e agressões. É visível que decidiram ignorar o mandamento do amor ao próximo, visto acima de tudo como um adversário a ser derrotado e esmagado.

Em discurso de 16 de novembro de 2019, o Papa Francisco se dirigia aos membros do Dicastério para os leigos, a família e a vida. Ele nos falava de “fazer nosso o coração da Igreja”. Transcrevo parte de suas palavras:

“Em primeiro lugar, trata-se de passar de uma perspectiva local para uma universal: a Igreja não se identifica com a minha diocese de origem, nem com o movimento eclesial ao qual pertenço, nem com a escola teológica ou a tradição espiritual na qual me formei. Por vezes estamos habituados a estes pequenos fechamentos. A Igreja é católica, é universal e é muito mais ampla, com ânimo muito maior, isto é, ‘magnânima’, em relação ao meu ponto de vista individual. ‘Sentir com o coração da Igreja’ significa, portanto, sentir de modo católico e universal, olhando para toda a Igreja e para o mundo e não apenas para uma parte.”

Indiretamente, temos uma séria denúncia contra a visão “paroquial”, que se percebe nos compartilhamentos das redes sociais, feita de pequenos interesses, fechada à realidade planetária em que vivemos.

Francisco prossegue com um convite a assumir a perspectiva da Igreja-mãe: “A Igreja é mãe. Portanto, também vós, como Membros e Consultores, aproveitando todo o conhecimento e experiência que acumulastes ao longo dos anos, sois chamados a dar um passo em frente e a interrogar-vos, diante de um projeto pastoral, de um desafio, de um problema: como vê a Igreja-mãe esta realidade? Como a ‘sente’? Ao fazerdes isto, sereis úteis ao Dicastério, porque sabereis dar voz à Igreja, tendo já purificado e elevado em vós o pensamento e o sentimento pessoal até que se tornem plenamente eclesiais”.

O Papa enumera alguns traços que revelam esse sentimento eclesial: “A Igreja, como verdadeira mãe, deseja sobretudo a harmonia entre todos os seus filhos e não faz favoritismos nem preferências. Por isso, também para vós é importante propor sempre modelos positivos de colaboração entre leigos, sacerdotes e consagrados, entre pastores e fiéis, entre organismos diocesanos e paroquiais, movimentos e associações de leigos, entre jovens e idosos, evitando contrastes e antagonismos estéreis e encorajando sempre a colaboração fraterna para o bem comum da única família que é a Igreja”.

Em um segundo ponto, o Papa reclama de nós um “olhar fraternal”, que sinto ausente no clima de disputas abstratas e de agressões concretas. Diz ele: “Vós não sois ‘engenheiros sociais’ ou ‘eclesiais’ que planificam estratégias a serem aplicadas em todo o mundo para difundir uma certa ideologia religiosa entre os leigos. Sois chamados a pensar e agir como ‘irmãos na fé’, recordando que a fé nasce sempre do encontro pessoal com o Deus vivo e é alimentada pelos Sacramentos da Igreja. Qualquer formação cristã deve basear-se sempre nesta experiência fundamental do encontro com Deus e na vida sacramental”.

Um pagão que nos contempla nas redes sociais com um “olhar de fora” há de pensar que somos inimigos à beira do assassinato. E talvez venha a incluir-se no bloco dos que afirmam ser a religião uma inimiga da paz.

Na próxima missa, logo no ato penitencial, lembremo-nos de pedir perdão por estes dois pecados: não amar a Mãe-Igreja e odiar os irmãos na fé. Em suma, não estar “no coração da Igreja”...

 

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