Destaques Atualidade
01/09/2020 Prof. Geraldo Luis De Mori, FAJE - BH Edição 3928 Não usar o nome de Deus em vão
F/ Pixabay
"Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, pois o Senhor não deixa impune quem pronuncia o seu nome em vão (Ex 20,7). "

Prof. Geraldo Luis De Mori, FAJE - BH

 

“... e sem cessar, o dia inteiro, o meu nome é blasfemado!” (Is 52,5b). 

No dia 22 de agosto, o Papa Francisco declarou em suas redes sociais: “Deus não precisa que ninguém o defenda”, apelando, no dia internacional proposto pela ONU em comemoração das vítimas dos atos de violência baseada na religião ou na crença, a que não “se instrumentalizem as religiões para fomentar o ódio”. No mesmo dia, o Pontífice declarou que “Deus não quer que seu nome seja usado para aterrorizar pessoas”. Essas afirmações intervieram num momento em que o nome de Deus esteve associado, em nosso país, a formas perversas de manipulação. Três episódios, que retratam situações muito diversas, despertaram paixões, chocaram e escandalizaram muitas pessoas na última quinzena de agosto: o do aborto de uma menina de dez anos, vítima de estupro pelo tio; o das investigações do Ministério Público de Goiás contra o Pe. Robson de Oliveira Pereira, acusado de desvio de recursos da Associação Filhos do Pai Eterno (AFIPE); o da Deputada pelo Rio de Janeiro Flordelis, denunciada como mandante do assassinato do marido, o Pastor Anderson do Carmo, ocorrida em 16 de junho de 2019.   

A interrupção de uma gravidez, fruto do estupro de uma criança, desencadeou uma série de discussões, em vários segmentos da sociedade brasileira, envolvendo a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, o bispo encarregado pela comissão da família junto à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o próprio Presidente da CNBB, grupos diversos de católicos e evangélicos radicais contrários ao aborto, alguns dos quais tentando invadir o hospital onde a menina fez o procedimento, entidades religiosas e da sociedade civil a favor ou contra o aborto. Muitos dos argumentos dos dois grupos eram de cunho religioso e tinham como referencial último uma imagem de Deus. Alguns grupos, inclusive, invocavam seu nome, para condenar ou para defender o aborto.  

O escândalo envolvendo o Reitor do Santuário de Trindade, de caráter econômico-financeiro, levanta dúvidas sobre a administração dos recursos doados pelos devotos do Divino Pai Eterno, mas, sobretudo, associa os que falam em nome de Deus a práticas que, já no Primeiro Testamento, desencadeavam a cólera divina e que, no Novo Testamento, levaram Jesus a dizer: “Não está escrito: Minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, fizestes dela uma caverna de bandidos” (Mc 11,17). Mais que condenar, antes de se concluírem as investigações, urge perguntar-se: que imagem de Deus subjaz a gastos tão colossais, pretensamente utilizados na evangelização, mas sob os quais paira a suspeita de malversação, lavagem de dinheiro, corrupção? Deus, a quem Jesus chamava Abba (o verdadeiro Pai eterno), não queria mais “misericórdia que sacrifícios” (Mt 9,3) e não desejava mais ser adorado em “espíritoeemverdade” (Jo 4,23) e no serviço aos pobres e aos mais vulneráveis do mundo do que em templos suntuosos?  

A suposta declaração da deputada Flordelis, “separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus”, chama a atenção quando, segundo a investigação sobre o assassinato de seu marido, ela teria tentado várias vezes envenená-lo, além de ter sido a mentora e mandante de sua morte. Que Deus é esse que se escandaliza com um divórcio, mas não faz nada para impedir um assassinato? Onde fica o mandamento “não matarás!”, tão central na revelação e na moral judaico-cristã, que estão na origem da fé da deputada?   

Os três casos que muito fizeram falar a imprensa e provocaram tantas reações nas redes sociais devem questionar-nos enquanto instituição voltada ao ensino e à pesquisa em filosofia e teologia. Há alguns anos o nome de Deus voltou com força à cena pública brasileira, nem sempre associado à religião, mas como um simples argumento para sustentar opções ideológicas quase sempre contrárias ao significado de seu nome. No processo que levou ao impeachment de Dilma Roussef e no slogan escolhido pelo atual mandatário de nossa nação, Deus é nomeado, em geral, para advogar a verdade do próprio discurso ou da causa de quem a ele recorre. Se falo em nome de Deus ou se defendo a sua causa, ninguém pode me questionar. Se o faz, é porque está do lado dos inimigos de Deus. No fundo, os três episódios que agitaram os ânimos do povo brasileiro nas últimas semanas, apesar de relacionados à religião, se assemelham à utilização ideológica à qual se prestou o uso do nome de Deus em nosso país. O que uma instituição como a nossa Faculdade pode fazer nesse contexto de manipulação e de uso indevido do nome de Deus? 

A tradição profética e a reação de Jesus diante dos que tinham transformado a “casa do Pai” em “covil de ladrões” apontam um caminho, que passa pela denúncia e o desmascaramento dos que “blasfemam o nome divino”, mas não é suficiente. O combate profético contra a idolatria, necessário em todo tempo e lugar, deve também ser acompanhado por uma retomada do caminho de Deus na história de seu povo e na vida de Jesus. O Deus da revelação não é fundamento ideológico de uma verdade ou de uma causa supostamente absoluta, que muitas vezes se mascara na própria ideologia. Ele se oferece também no escondimento da cruz, se mostra vulnerável, sofre com os que sofrem, bate à porta e se convida para ser acolhido e cear conosco (Ap 3,20), além de se identificar com os que têm sede, fome, estão nus, doentes, na prisão, são peregrinos (Mt 25,31-46).  

No mês de setembro, a Igreja do Brasil convida seus fiéis a lerem e redescobrirem o livro do Deuteronômio. Talvez essa leitura possa ajudar-nos a repensar nossa relação com o Nome de Deus. Segundo Ex 3,13-14, o nome divino é impronunciável. Na verdade, mais que um nome, Deus se apresenta como o Deus de uma história (“Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”) e como o Deus de uma destinação (“eu sou aquele que serei”). Segundo a narrativa deuteronomista, as maravilhas do passado (libertação, travessia do deserto, aliança e dom da lei) continuam no futuro quando Israel tomar posse da terra que Deus lhe dará. Sabemos que o ingresso na terra representou acomodação, e a tentação foi identificar o Deus da travessia e da libertação com os ídolos da acomodação, do poder a todo custo. Daí a necessidade dessa “segunda lei”, como às vezes é conhecida a obra deuteronomista. Não estaríamos, enquanto cristãos, chamados a colocar-nos de novo no caminho que faz descobrir o rosto verdadeiro do Deus de Jesus: não um Deus que acusa, que se apropria indevidamente dos bens de seu povo ou que justifica a morte de inocentes, mas um Deus que defende o órfão, a viúva, o estrangeiro, que abomina todo sacrifício à custa de vidas humanas, que se coloca junto aos últimos, para que sejam os primeiros? Não seria esse o Nome a partir do qual invocá-lo, deixando-se de fato converter por ele? 

Em setembro também, algumas igrejas cristãs iniciaram, já há algum tempo, a jornada de oração pelo cuidado da criação. A Igreja Católica participa dessa jornada que na verdade se estende por todo o mês de setembro e termina na festa de São Francisco de Assis, no dia 4 de outubro. No Brasil, várias iniciativas foram propostas, uma delas, feita por jesuítas e franciscanos, denominada Revolução Laudato Sí Brasil, propõe várias atividades em comemoração dos cinco anos desta encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. Essas iniciativas nos despertam para descobrir uma outra imagem de Deus. Não podemos usar o nome de Deus em vão...

 

 

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS