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28/02/2020 Frt. Dione Afonso, SDN Edição 3921 Música e liturgia: cantar a fé, celebrar a vida Entrevista com Equipe Pe. João que a cada ano elabora um livro de cânticos com compositores das Comunidades
F/ Arquivo O Lutador
"Na turma de compositores a gente compartilha que uma boa música litúrgica retrata a vivência de fé e a realidade da comunidade cristã."

 

dafonsohp@outlook.com

 Na Diocese de Caratinga-MG, desde a década de 1970, realiza-se encontro de compositores e a cada ano, seleciona uma série de cânticos litúrgicos e pastorais que fecundam suas paróquias e comunidades. A cada ano é publicado um livrinho de bolso com 50 a 60 canções, em sua maioria criadas por compositores vindos das comunidades. As melodias são ensinadas em cursos de cânticos que se multiplicam e também são gravadas para facilitar sua veiculação. Este trabalho é mantido pela “Equipe Padre João”. Uma referência ao Pe. João Geraldo Rodrigues, entusiasta deste trabalho, falecido ainda jovem em acidente automobilísco (19/05/1989).

Esta equipe iniciada com apoio e motivação do Mons. Raul Motta de Oliveira, ininterruptamente, realiza o trabalho de levar até as comunidades melodias que nascem da experiência de fé do povo simples das comunidades e por isso tocam, sobretudo, o chão da vida de cada um. Os momentos celebrativos se enriquecem com cada estrofe cantada, pois suas músicas têm a missão de dar “harmonia à Palavra de Deus e criar uma sintonia com a vida de fé”.

A cada ano, a Equipe Pe. João reúne o trabalho de vários compositores(as), faz uma seleção e ajustes de métrica, correções ortográficas e de cunho litúrgico pastoral, nas composições enviadas e monta um livrinho de cânticos, com aproximadamente 60 canções. A cada ano os compositores são motivados a buscar uma proximidade com o Tema da Campanha da Fraternidade, isso reflete o anseio de caminhar sempre em sintonia com a Igreja. Vale ressaltar que trata-se de um trabalho que não quer competir com outros, mas deseja ser uma oferta singela para reforçar o cântico litúrgico pastoral nas comunidades. Em um encontro na Casa do Mobon, Dom Cavati-MG, entrevistamos alguns integrantes desse grupo de compositores e aproveitamos para falar de inspiração, riqueza litúrgica e experiência de fé:

 

O Lutador: Qual é a fonte de inspiração para compor? De onde vem a criatividade?

Equipe Pe. João: Tudo parte de Deus. Depois, nossas composições desenham a nossa vida, ou seja, o dia a dia da forma mais sincera e simples. Deus se manifesta nas pequenas coisas. E, está presente nos pequenos, nos simples. Na turma de compositores a gente compartilha que uma boa música litúrgica retrata a vivência de fé e a realidade da comunidade cristã. Nossas músicas cantam uma experiência de vida e de fé em Deus. As composições contam como caminhamos em comunidade.

 

O Lutador: Qual a contribuição desse trabalho para o protagonismo do leigo?

Equipe Pe. João: Nossas músicas têm cheiro da gente. Junto da comunidade reunida, as músicas cantam a realidade. A realidade da comunidade e a de quem nela vive. As pessoas se veem refletidas em cada estrofe entoada. Quando ouvem as músicas eles sentem-se bem, pois percebem que estão cantando a própria história. Sentem-se representados nelas. As pessoas costumam se aproximar de nós e nos dizer que tudo o que elas gostariam de desabafar com Deus, a música falou. Então, nossas músicas são isso: partem da sabedoria simples do povo. Nos grupos de reflexão e nos trabalhos de base a gente adquire experiência de Deus, encontramos o dom e o talento, daí vamos moldando e pensando como que tudo o que vivemos pode chegar até o coração do povo nas celebrações. Letra, melodia, tonalidade, vozes femininas e masculinas... tudo isso é estudado, verificado, discutido para que as músicas possam ganhar os tons e as “cores” de cada experiência vivida e protagonizada pelas pessoas. Nós não somos profissionais da música. Nós compartilhamos pela música um pouco do que somos e vivemos.

 

O Lutador: Esse trabalho passa de geração a geração. Hoje temos um time mais jovem, um protagonismo que apresente um rosto jovem. Como que, dentro desse período, se avalia essa representatividade juvenil?

Equipe Pe. João: Quando avaliamos as composições das primeiras décadas para as de agora, percebemos que essa geração jovem conseguiu colocar mais harmonia aliada à alegria própria da juventude. Houve um crescimento quanto à qualidade do nosso trabalho e à meticulosidade de cada produção que chega até nós. Hoje, por meio dos encontros de compositores, fazemos oficinas de canto, estudamos um pouco o tema da Campanha da Fraternidade do ano, aprendemos um pouco de métrica, ritmo e melodia. Temos uma formação um pouco mais elaborada, um conhecimento mais amplo. Isto tem favorecido o crescimento pessoal de cada compositor, sobretudo dessa nova geração. Através desse trabalho, hoje, temos canções que ampliam os horizontes, tanto no nível de profundidade da letra, quanto no conteúdo orante de cada refrão produzido. Crescemos em produções, letras, melodias, tudo registrado. E, nosso trabalho é contínuo. Ele não para, porque está enraizado no chão de nossa história, o que vivemos é o que cantamos.

 

O Lutador: Como esse trabalho pode contribuir para a liturgia e os momentos celebrativos das comunidades?

Equipe Pe. João: Nenhum material responde 100% às demandas das comunidades. Hoje temos uma variedade de folhetos, cartilhas, e livros de cantos... Estamos na era dos usos dos meios eletrônicos, os datashows, projeções, etc... Nosso objetivo não é brigar por espaço nas liturgias das comunidades. Esse não é o foco. O que produzimos é uma oferta para a vida litúrgica nas comunidades. Nosso trabalho é algo que nasce do chão das comunidades. Algo que dá um rosto mais local, agora tem tido um rosto mais jovem, mas que é algo que antes se viveu e que depois foi transmitido. É algo que vem pra somar, com a experiência de décadas, já que o trabalho está em seu 47° ano de existência. Nós cantamos o que vivemos e vivemos o que cantamos. Quando ouvi a música “Maria” numa pequena comunidade, a emoção foi grande. Foi a primeira música que eu compus. De uma certa forma, somos uma família de compositores, quando um hino é aprovado ele se torna de todo o grupo, e, ao ouvir essas músicas nas comunidades, ficamos alegres porque é um trabalho de todos (João Paulo, Membro da equipe).

 

O Lutador: Que mensagem gostariam de transmitir às nossas comunidades através do trabalho de vocês?

Equipe Pe. João:Nosso trabalho leva o povo a cantar e a rezar sua fé. O canto litúrgico é aquele que leva o povo a cantar a sua fé. Nós aprendemos a dar harmonia à Palavra de Deus e a criar, através da melodia, uma sintonia com a nossa vida de fé. Em termos de liturgia, nós aprendemos que devemos “cantar a liturgia e não na liturgia”. Hoje, vemos que nosso trabalho vem sendo representado por pessoas de todas as idades. Vemos nos encontros adolescentes, jovens, adultos e idosos, cantando a sua fé vinda de experiências várias nas comunidades, em diversas realidades, mas unidas numa mesma melodia. E isso é um trabalho pastoral, porque abraça a todos.

 

A “Equipe Pe. João” é atualmente composta por Denilson Mariano da Silva, da Equipe do MOBON em Dom Cavati-MG, Pe. José Antônio de Oliveira, da Arquidiocese de Mariana, Paulo Felix e João Paulo Delesposte, de Matipó-MG, Jakson Moreira, de Tarumirim-MG, João Bento de Belo Horizonte-MG e MinisonJosé Domingos, de Santa Rita do Itueto-MG, Crisógono Sabino, de Vitória-ES. As gravações e produção musical são feitas pelo Paulo Felix Delesposte, no Studio Sonorplay, em Matipó-MG.

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