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10/05/2020 Antônio Carlos Santini (org) Edição 3924 Matar-se é um direito?
F/ Pixabay / MesOpinions.com
"Vários países começam a legalizar o direito de morrer. Já se fala em “morte a domicílio”. Que diz a Igreja?"

Em seu blog, o conhecido médico Drauzio Varela publicou: “Gostemos ou não, o direito de dar cabo à própria existência é inalienável. A sociedade e as religiões podem criar regras, leis e princípios morais para condenar o suicídio, porém jamais conseguirão evitá-lo.

A função do Estado é proteger o cidadão do mal que terceiros possam causar a ele, não a de impedir os males que ele pode infligir a si mesmo. Fosse essa a pretensão, haveríamos de acabar com os medicamentos, vedar janelas, terraços de prédios, viadutos, destruir as armas e os objetos cortantes, entre outros cuidados tão inexequíveis quanto inúteis.”

Como se vê, já faz tempo que os caminhos da humanidade chegaram ao ponto de merecer o rótulo de “civilização da morte”. Em 1997, o Estado norte-americano do Oregon implementou o Death With Dignity Act, tornando-se o primeiro Estado a legalizar o suicídio assistido. Passados 20 anos, outros quatro estados americanos também legalizaram, e mais seis estão revisando tal legislação.

Nas últimas duas décadas, registra o Blog Hypeness, 752 pessoas encerraram a própria vida através do suicídio assistido. Somente um cada seis pedidos, porém, é de fato aprovado pela junta médica do Oregon. As exigências no Estado para que o suicídio assistido seja permitido são várias: é preciso que o paciente tenha mais de 18 anos, seja capaz de se comunicar, esteja sofrendo de uma doença terminal que vá encerrar sua vida em no máximo 6 meses, e que o pedido seja assinado por duas testemunhas. O paciente pode desistir a qualquer momento.

É exigido também que se passem 15 dias entre a abertura do pedido e a entrega do formulário preenchido. Um período de 47 dias, em média, decorre entre o pedido e a morte propriamente. O procedimento é normalmente realizado através da ingestão de barbitúricos; em cinco minutos o paciente costuma ficar inconsciente, e em 25 minutos em média ele morre. 95% dos suicídios assistidos acontecem em casa, e quase todos atestam dores insuportáveis e o fato de se tornarem um fardo para família como motivos complementares à decisão.

 

Administradores, não proprietários

Uma rápida consulta ao “Catecismo da Igreja Católica” mostra uma visão completamente diferente. “Cada um é responsável por sua vida diante de Deus, que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para honra dele e salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela.” (CIC, 2280.)

A morte jamais é um “assunto pessoal”, envolvendo um leque amplo de relacionamentos. O Catecismo acrescenta: “O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente ao amor do próximo, porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo”. (CIC, 2281.)

Em seu blog “Testamento Vital”, Luciana Dadalto, faz algumas observações bastante sérias sobre o tema:

  1. A escolha pelo suicídio assistido precisa ser precedida de um longo trabalho de autoconhecimento, inclusive com acompanhamento psicológico.
  2. O suicídio assistido afeta não apenas quem morre, mas todos os seus entes queridos.
  3. A vinculação vazia do suicídio assistido ao envelhecimento populacional é perigosa.
  4. Nenhuma lei no mundo é capaz de acabar com a discussão, nem de obrigar qualquer a pessoa a submeter-se à prática. O tema tem nuances na moralidade, na filosofia, na religiosidade, na espiritualidade, na Medicina, na ética e em inúmeras outras áreas.
  5. A defesa do suicídio assistido precisa ser desvinculada da romantização da morte, sob pena de cairmos em uma verdadeira apologia ao suicídio – “não assistido”.

Vale a pena recordar a história de Marthe Robin [1902-1981], a mística francesa que passou 50 anos entrevada, em decorrência de uma encefalite letárgica, presa a um pequeno divã e cega depois de algum tempo. Nesse espaço de tempo, Marthe fundou a obra dos Foyers de Charité, hoje presente em mais de 40 países, e atendeu pessoalmente ou em pequenos grupos a mais de 100.000 pessoas. Mesmo seriamente limitada em sua saúde, a notável irradiação de sua vida é o melhor argumento para avaliar a questão. (ACS)

 

 

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