Variedades Crônica
22/01/2020 Maria   Edição 3919 Manacás
F/ Sitio da Mata / Maria
"Mamãe nunca deixou de plantar manacás. Sempre aquele perfume, aquelas cores, no quadro de nossas janelas."

 

Minha Filha

“Tão prematuramente me fora roubada,

com tamanha e rápida sutileza.

Tanto encanto aos céus fora levado,

cheios de meiguice, doçura e pureza.

Sem consolação, e triste e desolado,

aqui na terra, sem carinho, sem lugar,

lamentando sua falta entre nós, em brado,

consolados com a fé, com a dor, sem chorar.

Serei, um dia, com tua graça, recompensado

com infalível, inexorável chamado,

recebendo o que Deus Onipotente doou.

E, lá no céu dos justos, unidos, juntinhos,

Pai e filha em quieto e bom cantinho,

Gozaremos o que a avara terra negou.”

(Osório Caetano da Cruz, meu pai – 1942)

 

*   *   *

 

Como esquecer que é novembro, se meus pés de manacá estão pesadinhos de estrelinhas pintadas em vários tons de lilás, como?

Como esquecer que é novembro, se as fotografias antigas me chamam com olhos vivos, e sorrisos alegres, como?

Já novembrei muitos novembros e meu coração é um homem da roça que sonda o tempo e adivinha se vai chover, se vai dar enchente, se vai ter fartura...

Meu coração vive em novembro, desde que as primeiras nuvens escuras anunciam as chuvas de fim de ano.

Meu coração novembra em qualquer tempo, isso é a verdade: maio é novembro, mesmo com anjos no altar. Junho é novembro, mesmo com bandeirolas caipiras e roupas de chita dançando na praça. Dezembro é novembro, embora o Jesusinho esteja no seu bercinho de palha... Todos os meses do ano - apesar das alegrias de cada um - lembram-me que é novembro...

E, agora, meu pés de manacá estão carregadinhos de estrelas...

Mamãe nunca deixou de plantar manacás. Sempre aquele perfume, aquelas cores, no quadro de nossas janelas. Qualquer uma que se abrisse, lá estavam os pés de manacás.

E um dia, sem mais nem menos, minha irmãzinha de quatro  anos se foi para sempre. Diziam: “Brincou até à hora de dormir e, no outro dia, estava com febre, febre, febre... A meningite a levou!”

Meus cinco anos eram cem, duzentos, eu fiquei velha sem ser... Eu fiquei triste, sendo alegre, eu fiquei parada, tendo rodinhas nos pés...

Como esquecer aquela cena que os caixeiros da loja resolveram fazer, tentando nos livrar da tristeza pela falta da Neném?

Gente grande não pensa mesmo como gente pequena... Fizeram uma grande fogueira com as roupinhas de minha irmã... Havia esse costume – quase um rito – de que as tristezas e o luto iam embora com as chamas... Levaram as crianças para fora de casa, mas eu voltei a tempo de ver o segredo: as botininhas cor-de-rosa, as meias de renda, os vestidinhos rodados, a boneca de celuloide, tudo ardendo no fogo, bem perto de uma roseira que se escondia atrás da fumaça para não assistir o adeus às heranças de uma menininha...

Depois, depois, mamãe já estava começando a sorrir, papai já não tinha os olhos vermelhos de sangue... Nós começávamos a fazer guisadinho, a vida começava a dizer que o caminho era grande pela frente. Vivêssemos...

Mamãe escolheu uma latada de manacá. O pé estava todo lilás, todo roxinho, quase não se via o verde das folhas...

O Bené carroceiro teve que pedir ajuda a um dos caixeiros para colocar o mimo na carroça... o presente para a Neném... E, muitas vezes, vi que o Bené limpava os olhos com as costas das mãos...

Ficamos todos juntos no alto do passeio, pai, mãe, irmãos, Ana, Madrinha Maria, caixeiros e fregueses – foi uma outra despedida...

Ficamos ali, parados, dando adeus para as flores... Bené nem tinha coragem de dar ordens - em voz alta - para o cavalo; só com as rédeas, o animal entendeu que era para andar... E começou, lentamente, adivinhando que carregava uma encomenda preciosa...

Ficamos juntos, abraçados uns aos outros, até a carroça sumir lá longe, com a latada de manacás...

- Como posso esquecer que é novembro, se meu coração não se esquece das estrelas batendo as cabecinhas ao compasso da carroça, como se dessem adeus para nós, como?

Toda a Estrela chegava às portas e janelas, todo mundo parava para ver o desfile das florezinhas roxas adeusando pelas ruas empoeiradas. Todos em silêncio, quase uma oração, como se a carroça fosse um andor carregando uma santa em procissão pelas ruas.

Já novembrei muitos Finados, já novembrei muitos adeuses.

Em cada novembro, todos voltam, com seus gestos, suas falas, seus abraços, suas ternuras e meu coração até pensa que é Natal...

Então, meu coração renasce com o Menininho que acabou de (re) nascer... Ele nos ensina que o ano, a vida não é feita só de novembros e adeuses...

 

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