Formação Liturgia
15/06/2019 Frt. Matheus Garbazza Edição 3913 Liturgia, ambiente da fé
"Narremos menos o que acontece na liturgia, e vivamos mais dentro desse expressivo e intenso ambiente de fé. "

 

Frt. Matheus R. Garbazza, SDN

 

É agradável degustar a narrativa dos discípulos de Emaús no Evangelho de Lucas. Quem de nós nunca se colocou no lugar de um dos dois caminhantes que tiveram Jesus como companheiro, partilhando com ele a estrada, a palavra e o pão? Do ponto de vista litúrgico, a cena da ceia (Lc 24,29-33) é bastante emblemática. Percebemos por ela que a explicação das Escrituras forma um pano de fundo insubstituível. Entretanto, os olhos se abrem durante a ceia – quando todas as explicações cessam. É partindo o pão abençoado que o Mistério se desvela diante de nós.

Na celebração litúrgica acontece o mesmo. A catequese, conhecimento da Bíblia e da doutrina, é a base de fé que permite o acesso à participação sacramental. Sem isso o coração não “arde”. Mas na liturgia tudo acontece por meio de gestos e símbolos, isto é, ritualmente.

 Pedagogia litúrgica

O teólogo Romano Guardini (1885-1968), em sua obra-prima “O Espírito da Liturgia”, considera com muito cuidado essa realidade. Relembra que a liturgia deve formar um profundo e propício “ambiente de fé”, que possa fornecer as condições ideais para que o cristão, participando dela, possa se aproximar cada vez mais de Deus. Contemplação do Mistério e impulso de fidelidade à práxis de Jesus se unem no mesmo ato de culto.

Isso significa que a liturgia não é, em sentido estrito, didática. Não é confeccionada de forma a ensinar lições, mandamentos, doutrinas. O ano litúrgico não se pensa a modo de ementa acadêmica, mas de um grande espaço a partir do qual se possa contemplar com proximidade os eventos centrais da história da salvação.

A alma, na liturgia, não reconhece seu Senhor por simples transmissão de conhecimentos, mas porque aquele recorte do tempo-espaço que é a celebração pertence todo a Deus, está impregnado dele em cada um dos mais simples elementos que compõe o todo: um gesto, uma veste, um símbolo, uma vela, um hino, um som, um cheiro...

É assim que podemos, então, conceber uma pedagogia litúrgica. É como a de Jesus: há o momento certo de conversar, de explicar, narrar, instruir. E há o tempo de silenciar, de sentar-se desinteressadamente ao redor da mesa, saborear o momento sem pressa de ir embora ou sem a preocupação de dar conta de um conteúdo. Naturalmente, a partir disso, os olhos se abrem e a vida ganha um novo colorido.

 Consequências práticas

Que significa esta consciência da liturgia como um “ambiente de fé”? Primeiramente que cada uma de nossas celebrações deve ser preparada de forma a conduzir os participantes a uma profunda experiência que seja prazerosa, agradável, sensível. Pensar cada detalhe, na fidelidade à tradição e de acordo com a realidade da comunidade, evitando a todo custo os “ruídos celebrativos” que denunciam a falta de harmonia.

Nesse sentido, precisamos valorizar sempre os ritos como elementos salvíficos, como diz a Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 2). Tudo o que compõe a celebração é importante e deve nos abrir à antecipação daquela liturgia celeste que um dia viveremos diante do Cordeiro, como diz a mesma Constituição (n. 8). Mesmo aquilo que a princípio parece secundário, menos importante ou detalhe possui seu valor e sua importância. Pensar o lado estético da liturgia liga-se diretamente a isso, lembrando que “a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 35).

Numa palavra, deixemos as explicações para a catequese. Narremos menos o que acontece na liturgia, e vivamos mais dentro desse expressivo e intenso ambiente de fé.

 

 

 

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