Formação Missão
10/12/2020 Mons. Raul Motta de Oliveira Edição 3931 João Resende e a Igreja Particular de Caratinga
F/ Revista Diretrizes João Resende, Dom Corrêa e Alípio - 1989
"Com grande base teológica e um estilo simples de falar, usando muitas comparações, João Resende dá novo impulso aos Cursos do MOBON, que se multiplicaram na Diocese de Caratinga e Dioceses vizinhas, desde o Nordeste (Maranhão) até o Sul (Paraná), chegando também ao Mato Grosso, Rondônia e Amazonas."

 

Dom José Eugênio Corrêa, Bispo Diocesano de Caratinga, logo após o Concílio, ganhou uma bolsa do ISPAC, para um curso de catequese renovada, em Santiago do Chile e a ofereceu ao Padre Geraldo Silva SDN, que indicou o jovem Alípio Jacinto da Costa, SDN, para fazê-lo, em 1966. De volta, Alípio montou um pequeno curso de religião, baseado no estudo da Bíblia Sagrada, a que chamou “Boa Nova do Evangelho”. E o trabalho decolou, cresceu e se espalhou pelas paróquias e pelas dioceses vizinhas. E se tornou depois o Movimento da Boa Nova, ou MOBON, atingindo vários estados do Brasil, do norte ao sul.

O livro “Fermento, Sal e Luz”, organizado pelo Denílson Mariano da Silva, celebrando os 40 anos da Casa do Mobon (1979), nos apresentou o João Rezende, ainda estudante de teologia, participando de um curso do “Anúncio da Boa Nova”, como membro da equipe dirigente, juntamente com Pe. Geraldo Silva SDN, Alípio Jacinto da Costa e José Maria Mendes Alves, em Vargem Grande ou Vila Pe. Júlio Maria, de 29 de junho a 6 de julho de 1968.

Em 1969, o jovem seminarista João Resende terminou o Curso de Teologia, em Belo Horizonte e, cheio de entusiasmo pelo trabalho da Equipe do Alípio, faz a opção por não ser ordenado Sacerdote, a fim de se entregar totalmente ao serviço da evangelização, vindo residir em Dom Cavati, em 1970, dando início a uma nova fase do que começou então a ser chamado Movimento da Boa Nova, MOBON.

Equipe de Evangelização da Diocese de Caratinga

Com grande base teológica e um estilo simples de falar, usando muitas comparações, João Resende dá novo impulso a todos os Cursos do MOBON, que desde então se multiplicaram (Curso de Semana Santa, Curso de Pré-Boa Nova, Curso da Boa Nova do Evangelho, Iniciação Bíblica, Preparação de Semana Santa, Fenômenos da Natureza, Introdução ao Livro do Gênesis, Curso de Canto, Encontros de Compositores, Curso de Natal, Encontro de Políticos, etc.) e são dados, não só no MOBON e na Diocese de Caratinga e Dioceses vizinhas, mas também em todo o Brasil, desde o Nordeste (Maranhão) até o Sul (Paraná), chegando também ao Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.

A casa do MOBON, em Dom Cavati, só foi inaugurada dia 11 de março de 1979! Pouco tempo depois da Diocese de Caratinga começar a atual fase dos “Roteiros para os Grupos de Reflexão” (1980), o João Resende começa a participar conosco. Fazia parte da Equipe do MOBON, que, naquela época, chamávamos de “Equipe de Evangelização da Diocese de Caratinga”.

Vejamos um exemplo concreto do “estilo João Resende”, cheio de comparações. Tomemos o Roteiro de abril de 1985. Eram 10 reuniões, estudando o Livro de Rute. Viu-se a situação do povo sofredor no tempo de Rute. E os projetos de reconstrução: Zorobabel (e a rema de Zorobabel hoje), Esdras (entre nós, racismo de grupos), Neemias (a nossa reforma agrária), Rute e a reconstrução do povo (como conseguir o pão, povo reconstruído pela CEB).

Força da linguagem simbólica

E João Resende se utiliza de comparações que se gravavam facilmente na cabeça do nosso povo: que Igreja queremos ser? Igreja Caju, Igreja Abacate ou Igreja Laranja? Vejam como ele explicava:

A) IGREJA TIPO CAJU.

No caju vemos que a semente não se mistura com o resto da fruta. A semente é só para uma pega. A Igreja tipo caju não entra nos problemas da vida. Para ela tudo está bom. Se houver algum problema, é coisa secundária, que se resolve com uma moralização dos costumes. Por isso mesmo a preocupação da Igreja tipo caju é mais moralizar do que anunciar. Ela tenta ficar neutra diante da vida. Ela é como uma canoa que desliza por cima dos problemas, sem mergulhar neles. Esta Igreja tipo caju tenta resolver os problemas fazendo um assistencialismo junto aos necessitados. Ela tem medo de mudanças. Prefere conservar as coisas. A conservação é um modo dela se sentir segura. Mas ela se esquece que é mudando que se conserva. Seu ponto de referência é o passado. É uma Igreja tipo carreiro. Fica por cima do cabeçalho. Fica atrás dos bois. Não caminha junto. As coisas são feitas de cima para baixo.

Para este tipo de Igreja a reconstrução do povo já está pré-fabricada. Ela tem receita e respostas para tudo. Não importa a situação do povo. Neste tipo de Igreja, o povo não sabe nada. Quem estudou tem o controle da verdade. Quem está por cima gosta muito deste tipo de Igreja. Dá a ela todo apoio, inclusive o apoio financeiro. Este tipo de Igreja chega a abençoar situações injustas. Não vai à raiz dos problemas. Está fora da História. É uma Igreja para os pequenos e não dos pequenos. Ela se perde em muitas complicações. Em muitas burocracias. Tenta manter um falso equilíbrio.

Apela muito para a obediência, renúncia, disciplina, humildade. Isto é uma forma de manter os fiéis mais submissos. Isto gera o passivismo. O Povo é o que recebe. Deixa de ter iniciativas. E desta maneira sua reconstrução vai ficando para depois, ou nunca. A verdadeira reconstrução do povo ou vem das bases ou então nunca haverá reconstrução coisa nenhuma. Este tipo de Igreja entristece o Espírito Santo. Enrola o povo.

B) IGREJA TIPO ABACATE.

No abacate, a semente está por dentro, mas não se mistura com a massa da fruta. Uma Igreja tipo abacate é aquela que parece estar por dentro dos problemas. Tem uma linguagem atualizada. Cita muito os documentos do Concílio. Fala de povo. Em seus planos tem como trabalho número um a formação de comunidades eclesiais de base. Gosta de planejar. Fala de libertação. Sua aparência é toda renovada. Mas, apesar de toda esta aparência de renovação, seu plano de reconstrução do povo não vai à raiz dos problemas. Acha que é possível transformar o mundo sem ir ao pé da rama. Por isso mesmo se contenta em mudar seu modo de agir. Ela fala de encarnação, mas sem mudar seu lugar antigo que era de ficar mais por cima. Por isso mesmo, fica muito nas teorias.

Tem medo de entrar para valer. Na hora “H”, não desce do muro e começa a fazer considerações. Age como jabuti. Na hora de dizer as teorias põe a cabeça para fora. Na hora da ação concreta, esconde a cabeça. A Igreja tipo abacate não tira Raio X da situação. Se contenta com retratos da situação. Por isso mesmo, apesar da teoria de reconstrução do povo ser bem pintada, muita gente já anda meio – Neste tipo de Igreja-Abacate, a grande preocupação é estar na moda. Tem medo se ser atrasada. As palavras libertadoras estão sempre na ponta da língua. Mas não há um esforço sério dessas palavras se tornarem “PALAVRAÇÃO”. E assim o Vaticano II vai se tornando mais um ponto de chegada e não um ponto de partida.

Os documentos da Igreja ficam muito no papel. – Diante da situação de nosso mundo, não resolve um plano de reconstrução feito apenas com palavras bonitas e atualizadas. Também não adianta mudanças só na casca. Não adianta planos bonitos. Mais do que palavras libertadoras, o nosso povo está precisando de práticas libertadoras que tenham coragem de ir à raiz do mal. Nosso povo está mais sensível a atitudes do que a sermões. – Qual tem sido o efeito das reuniões, assembleias, cursos, em nossas comunidades? Temos atualizado apenas nosso linguajar? Será que não estamos apenas com aparência de renovados? Não será que é por isso que ficamos arrotando nosso títulos, cursos, sem digerir tudo isto em ações concretas? Os cursos têm sentido quando vêm reforçar nosso trabalho na reconstrução do povo.

Esta própria reconstrução exige revisão, aprofundamento. Tentar uma reconstrução do povo sem participar de cursos é cair num ativismo sem sentido. Também os cursos sem ações concretas podem virar blá-blá-blá. É bom a gente ficar acordado neste assunto de renovação, para a gente não ficar arrotando carne quando a gente comeu jiló. O que significa a diferença entre palavra e ação.

C) IGREJA TIPO LARANJA.

Na laranja, semente e gomos estão misturados. Na Igreja tipo laranja, há entrosamento e comunhão entre as pessoas. Não há tanta preocupação com os cargos e títulos. Este entrosamento nasce do fato de que os membros desta Igreja têm a mesma missão libertadora. Esta missão é alimentada no contato com Deus e na convivência com as pessoas, sobretudo as pessoas mais necessitadas. A Igreja tipo laranja vê nos mais necessitados dois grandes valores evangélicos, que são a resistência e a disponibilidade. Por isso começa seu trabalho a partir delas. – A Igreja tipo laranja tem no Espírito Santo sua força principal. Movida pelo Espírito Santo e convivendo com as pessoas, ela vai testemunhando que a vida é mais forte do que a morte. Isto é a ressurreição acontecendo a cada instante. E esta ressurreição vai acontecendo através do testemunho comunitário.

A Igreja tipo laranja age como profeta. Conhece o seu povo. Ama seu povo. Dá a vida para defender o povo. Tem coragem diante das autoridades (At 4, 13-22). Ela não é contra o poder, mas não admite que ele fique nas mãos de poucos. Ela se organiza em função da vida (At 6). Não tem medo de descentralizar o poder. Acredita na capacidade do povo. Por isso seus planos não são feitos de cima para baixo. São fruto de uma escuta, de uma convivência com as pessoas. São respostas às necessidades do povo. Por isso mesmo seus planos não são complicados. Seu palavreado é simples. As reuniões desta Igreja são marcadas por ações fraternas. Não há distinção de pessoas. Suas revisões são um Raio X de sua caminhada.

Esta Igreja tipo laranja, onde domina a comunhão, é una, não só porque tem os mesmos ritos, mas sobretudo porque tem uma mesma missão libertadora. Esta Igreja é santa, não só porque seus membros lutam contra suas falhas pessoais, mas sobretudo porque luta contra aquilo que gera a miséria, a fome. Suas grandes virtudes são a solidariedade, a participação nas decisões comunitárias, amadurecimento das decisões na base, ser perseguida por causa da justiça. Esta Igreja é apostólica, porque toda a Comunidade é que é enviada. Toda Comunidade é que é apostólica. É missionária. 

Esta Igreja tipo laranja se concretiza nas Comunidades Eclesiais de Base. Estas comunidades são o encontro do povo crente e sofrido. Elas nascem do Espírito Santo e se alimentam da Palavra de Deus e das riquezas do povo. As Comunidades, quando são de fato Eclesiais e de Base, vivem em profundidade a solidariedade que as leva a uma oração séria, que lhes dá força para enfrentar as perseguições que têm levado muitos de seus membros ao martírio. – Somente uma Igreja deste jeito tem condição de lutar pela verdadeira reconstrução do povo. Somente nesta Igreja o povo vai acreditar.
(Cf. Roteiro para os Grupos de Reflexão, Caderno 52, abril de 1985).

João Resende, já com seus 80 anos, juntamente com seu discípulo Denílson Mariano (fazendo Doutorado em Teologia!), ambos da Equipe do MOBON, constituem até hoje uma grande força na Equipe que produz os Roteiros para os Grupos de Reflexão, liderada pela Diocese de Caratinga. Louvado seja Deus!

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