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05/07/2019 VATICAN NEWS Edição 3914 Humanidade: descendentes do amor de Deus
F/ Vatican News
"O sistema do dinheiro e a ideologia do consumo selecionam as nossas necessidades e manipulam os nossos sonhos, sem qualquer consideração pela beleza da vida ..."

 

Em 11 de fevereiro de 2019, foi divulgada a Carta do Papa Francisco “Humana Communitas”, sobre o tema da Comunidade Humana.

 Por ocasião do XXV aniversário de fundação da Pontifícia Academia para a Vida, o Papa Francisco dirigiu uma carta ao seu Presidente, Dom Vincenzo Paglia. Transcrevemos a seguir excertos do texto.

 A comunidade humana

A comunidade humana é o sonho de Deus desde antes da criação do mundo (cf. Ef 1,3-14). Nela o Filho eterno gerado por Deus assumiu carne e sangue, coração e afetos. No mistério da geração a grande família da humanidade pode encontrar-se a si mesma. De fato, a iniciação familiar na fraternidade entre as criaturas humanas pode ser considerada um verdadeiro tesouro escondido, em vista da reorganização comunitária das políticas sociais e dos direitos humanos, dos quais hoje sentimos grande necessidade. Por isso, é preciso crescer na consciência da nossa descendência comum da criação e do amor de Deus.

A fé cristã confessa a geração do Filho como o mistério inefável da unidade eterna de “fazer ser” e de “amar” que está na intimidade de Deus Uno e Trino. O renovado anúncio desta negligenciada revelação pode abrir um capítulo novo na história da comunidade e da cultura humanas, que hoje invocam — como “gemendo devido às dores do parto” (cf. Rm 8,22) — um novo nascimento no Espírito. No Filho Unigênito revela-se a ternura de Deus e a sua vontade de resgate de cada humanidade que se sente perdida, abandonada, descartada, condenada sem remissão. O mistério do Filho eterno, que se fez um de nós, sela de uma vez por todas esta paixão de Deus. O mistério da Cruz — «por nós e pela nossa salvação» — e da sua Ressurreição — como «primogénito de muitos irmãos» (Rm 8, 29) — diz até que ponto esta paixão de Deus está destinada à redenção e ao cumprimento da criatura humana.

Devemos voltar a evidenciar esta paixão de Deus pela criatura humana e o seu mundo. Ela foi criada por Deus à sua “imagem” — “varão e mulher” a criou (cf. Gn 1,27) — como criatura espiritual e sensível, consciente e livre. A relação entre o homem e a mulher constitui o lugar eminente no qual a criação inteira se torna interlocutora de Deus e testemunha do seu amor. Este nosso mundo é a morada terrena da nossa iniciação na vida, o lugar e o tempo no qual já podemos começar a pregustar a morada celeste à qual estamos destinados (cf. 2Cor 5,1), onde viveremos em plenitude a comunhão com Deus e com todos. A família humana é uma comunidade de origem e de destino, cujo êxito «está escondido, com Cristo, em Deus» (Cl 3,1-4).

Neste nosso tempo, a Igreja é chamada a relançar com vigor o humanismo da vida que promana desta paixão de Deus pela criatura humana. O compromisso a compreender, promover e defender a vida de todos os seres humanos ganha impulso deste incondicional amor de Deus. É a beleza e a atração do Evangelho, que não reduz o amor ao próximo à aplicação de critérios de convivência económica e política nem a «algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas» (Evangelii Gaudium, 39).

Esta paixão animou a atividade da Pontifícia Academia para a Vida desde o momento da sua instituição há vinte e cinco anos, por parte de São João Paulo II, de acordo com a sugestão do Servo de Deus e grande cientista Jérôme Lejeune. Ele, lucidamente convicto da profundidade e da rapidez das mudanças que decorriam no campo biomédico, julgou oportuno apoiar um compromisso bem estruturado e orgânico sobre esta frente. A Academia pôde então desenvolver iniciativas de estudo, formação e informação com o objetivo de tornar «manifesto que ciência e técnica, postas ao serviço da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais, contribuem para o bem integral do homem e para a atuação do projeto divino de salvação (cf. Gaudium et Spes, 35)» (João Paulo II, Vitae Mysterium, 11/02/1994, n. 3). [...]

 

Degradação do humano e paradoxo do “progresso”

Neste momento da história a paixão pelo humano, pela humanidade inteira, está em grave dificuldade. As alegrias das relações familiares e da convivência social parecem profundamente desgastadas. A desconfiança recíproca dos indivíduos e dos povos alimenta-se de uma desmedida busca do próprio interesse e de uma competição exasperada, que não desdenha a violência. A distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parece aumentar: até fazer pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana já esteja em curso um cisma.

Na Encíclica Laudato si’ evidenciei o estado de emergência no qual se encontra a nossa relação com a história da terra e dos povos. É um alarme provocado pela pouca atenção concedida à grande e decisiva questão da unidade da família humana e do seu futuro. A erosão desta sensibilidade, por obra dos poderes mundanos da divisão e da guerra, está a crescer globalmente, com uma velocidade muito superior a da produção dos bens. Trata-se de uma verdadeira cultura — aliás, seria melhor dizer de uma anticultura — da indiferença pela comunidade: hostil aos homens e às mulheres e aliada com a prepotência do dinheiro.

Esta emergência revela um paradoxo: como pôde acontecer que, precisamente no momento da história do mundo em que os recursos económicos e tecnológicos disponíveis nos permitiriam cuidar suficientemente da casa comum e da família humana, honrando a entrega que nos fez o próprio Deus, precisamente eles os recursos económicos e tecnológicos dão origem às nossas divisões mais agressivas e aos nossos piores pesadelos? Os povos sentem aguda e dolorosamente, e muitas vezes de modo confuso, o aviltamento espiritual — poderíamos dizer o niilismo — que subordina a vida a um mundo e a uma sociedade súcubos deste paradoxo. A tendência a anestesiar esta profunda dificuldade, através de uma cega corrida para alcançar o gozo material, produz a melancolia de uma vida que não encontra destino à altura da sua qualidade espiritual. Devemos reconhecê-lo: os homens e as mulheres do nosso tempo muitas vezes sentem-se desmoralizados e desorientados, sem visão.

Estamos todos fechados em nós mesmos. O sistema do dinheiro e a ideologia do consumo selecionam as nossas necessidades e manipulam os nossos sonhos, sem qualquer consideração pela beleza da vida partilhada nem pela habitabilidade da casa comum.

 

Uma escuta responsável

O povo cristão, ao ouvir o grito dos sofrimentos dos povos, deve reagir aos espíritos negativos que fomentam a divisão, a indiferença, a hostilidade. Deve fazê-lo não só para si, mas por todos. E deve fazê-lo imediatamente antes que seja demasiado tarde. A família eclesial dos discípulos — e de todos os hóspedes que procuram nela as razões da esperança (cf. 1Pd 3,15) — foi semeada na terra como «sacramento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano» (Lumen Gentium, 1).

A reabilitação da criatura de Deus à feliz esperança do seu destino deve tornar-se a paixão dominante do nosso anúncio. É urgente que os idosos acreditem mais nos seus melhores “sonhos”; e que os jovens tenham “visões” capazes de os impelir a comprometerem-se corajosamente na história (cf. Gl 3,1). Uma nova perspectiva ética universal, atenta aos temas da criação e da vida humana, é o objetivo para o qual nos devemos orientar no plano cultural.

Não podemos continuar no caminho do erro perseguido em tantas décadas de desconstrução do humanismo, confundido com uma ideologia qualquer da vontade de poder. Devemos contrastar uma semelhante ideologia, que se serve do apoio convicto do mercado e da técnica a favor do humanismo. A diferença da vida humana é um bem absoluto, digno de ser eticamente salvaguardado, precioso para o cuidado de toda a criação. O escândalo é o fato de que o humanismo contradiga a si mesmo, em vez de se inspirar no ato do amor de Deus. A Igreja em primeiro lugar deve reencontrar a beleza desta inspiração e fazer a sua parte, com entusiasmo renovado.

 

Tarefa difícil para a Igreja

Estamos cientes de que encontramos dificuldades na reabertura deste horizonte humanista, também no seio da Igreja. Por conseguinte, sejamos os primeiros, questionemo-nos sinceramente: as comunidades eclesiais hoje têm uma visão e oferecem um testemunho à altura desta emergência da época presente? Estão seriamente concentradas na paixão e na alegria de transmitir o amor de Deus por os seus filhos habitarem na Terra? Ou ainda se perdem demasiado nos próprios problemas e em tímidos acordos que não superam a lógica do compromisso mundano?

Devemos perguntar-nos seriamente se fizemos o suficiente para oferecer o nosso contributo específico como cristãos para uma visão do humano capaz de apoiar a unidade da família dos povos nas hodiernas condições políticas e culturais. Ou se até perdemos de vista a sua centralidade, antepondo as ambições da nossa hegemonia espiritual sobre o governo da cidade secular, fechada em si mesma e nos seus bens, aos cuidados da comunidade local, aberta à hospitalidade evangélica para com os pobres e os desesperados.

 

Construir uma fraternidade universal

É tempo de relançar uma nova visão para um humanismo fraterno e solidário dos indivíduos e dos povos. Sabemos que a fé e o amor necessários para esta aliança ganham o seu impulso do mistério da redenção da história em Jesus Cristo, escondido em Deus antes da criação do mundo (cf. Ef 1,7-10; 3, 9-11; Cl 1,13-14). E sabemos também que a consciência e os afetos da criatura humana não são absolutamente impermeáveis, nem insensíveis à fé e às obras desta fraternidade universal, semeada pelo Evangelho do reino de Deus. Devemos pô-la de novo em primeiro plano. Porque uma coisa é sentir-se obrigado a viver juntos, outra é apreciar a riqueza e a beleza das sementes de vida comum que devem ser procuradas e cultivadas em conjunto. Uma questão é resignar-se a conceber a vida como luta contra antagonistas que nunca acabam, outro é reconhecer a família humana como sinal da vitalidade de Deus Pai e promessa de um destino comum para o resgate de todo o amor que, desde já, o mantém em vida. [...]

O Senhor vos conceda estar prontos para esta nova fase da missão, com as lâmpadas cheias de óleo do Espírito, para iluminar o caminho e guiar os vossos passos. Como são belos os pés de quantos anunciam o amor de Deus pela vida de cada um e de todos os que habitam a terra (cf. Is 52, 7; Rm 10, 15).

Vaticano, 6 de janeiro de 2019

Fonte: Vatican News

Francisco

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