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25/07/2020 GLAUCO ARBIX Edição 3926 Haverá empregos na era das máquinas inteligentes?
F/ Dave Granlund
"Com a Revolução 4.0, impulsionada pela inteligência artificial, estamos diante de um “novo ciclo tecnológico que está apenas começando"

Haverá empregos na era das máquinas inteligentes?

Diretor do Centro de Inteligência Artificial afirma: novo ciclo tecnológico desempregará milhões — inclusive nas profissões “liberais”. Surgem propostas como renda mínima e requalificações em massa. Novo pacto fundador será indispensável.

 Em entrevista concedida ao blog IHU, o sociólogo GLAUCO ARBIX diz que, com a Revolução 4.0, impulsionada pela inteligência artificial, estamos diante de um “novo ciclo tecnológico que está apenas começando”, cujos impactos ainda não podem ser previstos. Glauco Arbix é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP, onde leciona atualmente. Eis uma síntese de sua visão.

 Mudança de época

As implicações da revolução tecnológica são muito grandes em áreas muito diferentes, desde a maneira como o mercado de trabalho se organiza até a própria indústria e a agricultura. Estamos vivendo uma era em que temos tecnologias muito poderosas, que têm impacto em segmentos muito distintos da economia — praticamente todos eles são atingidos de uma maneira ou outra —, e isso exige que governos, empresas, universidades e as pessoas tenham uma postura diferente para encarar essa nova situação.

Por exemplo, com as técnicas novas de inteligência artificial, disponibilidade de dados, novas ferramentas de computação e algoritmos mais sofisticados, a pesquisa científica, em todas as áreas — de exatas, biológicas a humanas —, mudou totalmente de qualidade. Eu cansei de orientar teses de doutorado e dissertações de mestrado em que os alunos faziam pesquisas com 100, 200 ou 350 empresas correspondentes, mas hoje existem à disposição do pesquisador dados de milhares e milhares de empresas e pessoas.

Com relação às pesquisas na área farmacêutica que procuram novas drogas, por exemplo, todo o processo de pesquisa, de identificação e combinação de moléculas, está num patamar completamente diferente do que o de anos atrás. Na física, na química e na matemática, a velocidade da computação para fazer criptografia ou desenvolver equações de alta complexidade mudou o cenário da pesquisa.

O mesmo ocorre na indústria 4.0: a conexão entre fornecedores, consumidores, produtores é enorme. Outro exemplo é a área do jornalismo, em que há uma série de veículos que já produzem notícias via computadores, prescindindo das pessoas, como no anúncio do tempo ou em comerciais.

Portanto, temos uma situação que está levando a um impacto muito grande e a sociedade não está preparada para a velocidade dessas mudanças. Quando falo em sociedade, estou me referindo a todo mundo, pois as universidades, as empresas e os governos não estão preparados para essa realidade.

Claro que há sempre alguns que estão mais avançados do que outros, mas esse preparo é chave se não quisermos ficar encostados na periferia do mundo. O Brasil já está muito atrasado em termos de tecnologia, em termos institucionais e regulatórios. Se não conseguirmos acelerar bastante, a situação ficará bem difícil para todo mundo.

 Impactos da tecnologia

Se trabalharmos com os olhos do passado, vamos encarar o atual ciclo tecnológico e científico como sendo uma espécie de repetição do ciclo anterior, com avanços num patamar distinto. Quando falamos em automação hoje, se pensa em uma automação mais sofisticada, mas há automação desde os anos 1940 e 1950, para dizer o mínimo. O problema é que hoje a situação é muito diferente: a inteligência artificial não é apenas mais “uma” tecnologia, pois estamos diante de um novo ciclo tecnológico, que está apenas começando.

Ninguém tem clareza exatamente de que proporções esse ciclo vai tomar, quais as configurações que vai assumir. O que estamos vendo é que a inteligência artificial está se configurando como uma tecnologia de propósito geral. O que é uma tecnologia de propósito geral? É aquela sem a qual as outras tecnologias têm dificuldade de viver e que impactam todas as outras, desde a maneira de produzir até a maneira como ela se relaciona.

O exemplo mais simples é a eletricidade, pois é um pouco inconcebível pensarmos a sociedade de hoje sem a eletricidade. A tecnologia de inteligência artificial está se configurando dessa maneira, como uma tecnologia que vai nessa direção. Então, a maneira como se produz tecnologia também está influenciada diretamente pela inteligência artificial e tem um impacto muito forte, porque as outras tecnologias acabam ficando dependentes dela.

Falar em automação industrial hoje sem dados, sem analytics, sem a parte de análise dos dados e de algoritmos, é estar reproduzindo processos, é estar com uma metodologia e propostas de modernização que na verdade têm 30, 40 anos; esse é o ponto.

A grande novidade é que estamos entrando em uma era em que as atividades mais qualificadas estão sendo atingidas, e a situação é tão paradoxal, surpreendente, que as máquinas não conseguem de jeito nenhum fazer trabalhos considerados simples. Por exemplo, um computador faz cálculos gigantescos, ganha de qualquer humano no jogo de xadrez e em jogos mais sofisticados, estratégicos, mas tem uma dificuldade muito grande de segurar uma bolinha.

Imaginemos o que significa o trabalho de um cuidador ou cuidadora num hospital ou em casa, alguém que trata pessoas idosas que têm dificuldades de todo o tipo, que têm carências, que precisam ser ouvidas, que muitas vezes são marginalizadas pela família. Quando um idoso encontra um cuidador que tem sensibilidade, a vida dele se transforma, a qualidade de vida melhora muito. O computador não tem a menor condição de fazer isso.

 Pensando a educação

O primeiro passo é voltar para aquilo que os educadores já falavam há muito tempo, mas que hoje se tornou muito crítico: a ideia de ter uma educação permanente. Como as tecnologias estão mudando muito rapidamente, as habilidades também mudam. Não adianta eu falar qual habilidade é preciso hoje, porque daqui a um ano as coisas serão diferentes. Então, as escolas, as universidades, todo o sistema educacional e as pessoas têm que se preocupar com uma ideia muito simples — muito antiga, diga-se de passagem —, de que não tem hora para o conhecimento.

A curiosidade e a necessidade precisam se combinar de tal forma que tenhamos uma qualificação para a vida inteira; não é possível parar. Imaginemos o que alguém formado em engenharia fará daqui a cinco anos. Hoje, no Brasil, nós não temos um sistema que reavalia os profissionais de tempos em tempos.

O segundo ponto é estimular aquilo que as pessoas têm. A ideia de hiperespecialização é algo que o computador faz muito melhor do que nós: ele faz coisas que nós não podemos fazer. Temos que pensar em ter sinergia com o computador, para ele nos auxiliar a sermos seres humanos melhores. Esse é o ponto. A discussão sobre tecnologia não é por causa dos robôs, mas por causa das pessoas; elas têm que melhorar e avançar. A busca do conhecimento permanente é chave: aprender línguas, viajar, conhecer culturas, aprender a conviver com o diferente, ter tolerância. [...]

 

Fonte: IHU, apud Outras Mídias

 

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