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12/03/2020 Denilson Mariano da Silva / João Resende   Edição 3921 Fraternidade e vida: Dom e Compromisso
F/ CNBB
"Quaresma exige de nós fraternidade: ver, sentir compaixão, cuidar..."

 

A cada ano a Igreja do Brasil nos convida a aprofundar a experiência de conversão quaresmal através da Campanha da Fraternidade (CF). Trata-se de contemplar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor de frente para a realidade que nós vivemos. Viver a Quaresma não é apenas recordar os sofrimentos de Jesus Cristo, que sofreu e foi injustiçado. Mas, diante dos sofredores e injustiçados de nossa história, recriar as suas atitudes de compaixão e misericórdia que recuperam a vida e a esperança. Daí o tema: “Fraternidade e vida: Dom e Compromisso” e o lema que nos motiva: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

O Objetivo Geral desta CF é: conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como dom e compromisso, que se traduzem em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e diante do planeta, nossa casa comum. Seguindo de perto a parábola do Samaritano, que viu, sentiu e moveu-se por compaixão, a Igreja do Brasil nos leva a ver a nossa realidade, iluminá-la com a Palavra de Deus e buscar pistas para nosso agir “fraterno e solidário”.

Quaresma exige de nós fraternidade. Assim, apesar de muitas críticas, injustas e desonestas, feitas à Campanha da Fraternidade, às CEB´s e à CNBB, nós, por fidelidade a Jesus Cristo e a seu Evangelho, somos convidados a abraçar com carinho e dedicação esta CF 2020. Somos chamados a valorizar, divulgar e fortalecer as inúmeras iniciativas já existentes em favor da vida; conscientizar para a vivência de uma ecologia integral que desperte o compromisso de cuidado para com o planeta terra, nossa casa comum; fortalecer a cultura da fraternidade e a revolução do cuidado como caminho de superação da indiferença e da violência, o que começa pela mudança no olhar.

 

Rever o nosso olhar

Dentro do Evangelho de Lucas, a parábola do samaritano aparece no contexto da subida de Jesus a Jerusalém (Lc 9,51 –19,27), ela nos coloca diante do mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Aí surge uma explicação do que é necessário fazer para entrar na vida eterna. Já que existiam mais de 613 leis e prescrições a serem cumpridas. Diante da dificuldade de cumprir fielmente todos os mandamentos, o doutor da lei, com a intenção de testar Jesus, o questiona sobre o que fazer para herdar a vida eterna.

Jesus responde com outra pergunta: “Que está escrito na Lei? Como lês?” Neste questionamento, Jesus vai além da letra das Escrituras. Ele coloca a questão da interpretação que se dá ao texto. A Palavra de Deus não deve ser apenas lida como o fazem os fundamentalistas. Ela deve passar também pelo crivo da interpretação. A interpretação da Palavra deve ser feita de frente para vida, de olhos abertos à realidade. Procurando sempre a vontade de Deus diante de cada situação que vivenciamos. Por isso, Jesus propõe ao doutor da Lei uma parábola para ajudar a aproximar a Lei e a vida; a teoria e a prática; a fé e a vida; a oração e a ação; o amor a Deus e o amor aos irmãos.

Diante do convite para vivermos uma profunda conversão temos diante de nós duas maneiras de olhar que são apresentadas por Jesus na parábola do bom samaritano: um olhar que vê e passa adiante, vivido pelo sacerdote e pelo levita, e um olhar que vê e se faz próximo, se envolve, se compromete, vivido pelo samaritano. Diante desses olhares, há uma vida em jogo, em perigo, necessitada e vulnerável. Para uma verdadeira conversão, para uma mudança de vida, precisamos rever o nosso olhar. Aprender com Jesus a ter o olhar do Bom Samaritano.

“Somente um olhar interessado pelo destino do mundo e do ser humano permitirá experimentar a dor pela situação que rege a história, mas que é superada pelo amor de Deus que a envolve. Somente contemplando o mundo com os olhos de Deus é possível perceber e acolher o grito que emerge das várias faces da pobreza e da agonia da criação” (DGAE, Nº 102). A partir do modo de olhar se desdobra um jeito de agir. Se não aprendemos a olhar como Jesus, não agiremos como Ele. Não seremos, de fato seus seguidores, pois só se torna seguidor quem faz a vontade do Pai.... O Papa Francisco, quando visitou a ilha de Lampedusa (julho de 2013), convocou toda a Igreja e todos os cristãos vencer a “globalização da indiferença”. Se já não somos mais capazes de perceber a desumana dor ao nosso lado, também nós nos tornamos desumanizados. É por isso que a Campanha da Fraternidade de 2020 proclama: Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. Isso implicar novo modo de agir.

 

Rever o nosso agir

A CF 2020 continua nos convidando a um processo de conversão que nos faça rever nosso modo de ser e de agir como cristãos na sociedade de hoje. Por isso ela volta nossa atenção para a realidade que nos desafia: A desigualdade é um triste distintivo da sociedade brasileira. Em 2017, o Brasil era o 9º país mais desigual do Planeta em distribuição de renda. Dados do IBGE revelam que, os 50% mais pobres da população brasileira sofreram uma retração de 3,5% nos seus rendimentos do trabalho, enquanto os 10% de brasileiros mais ricos tiveram crescimento de quase 6% em seus rendimentos (TB nº 31). Neste cenário, percebemos que o olhar do descarte e da indiferença gera um sentimento de desprezo sobre a vida.

O Papa Francisco nos ajuda a enxergar melhor essa situação: Ele aponta que o mandamento não matar põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana. Mas é preciso também dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata. Não é possível que a morte de um idoso causada pelo frio, sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa de Valores. Isto é exclusão. Não se pode tolerar o fato de se jogar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. O ser humano é reduzido a um bem de consumo que se usa e depois joga fora. Isso é a cultura do “descartável”. Os excluídos não são apenas explorados, mas descartados (EG 53).

A CF 2020 nos revela que se trata de uma mentalidade que vai assumindo com naturalidade a relativização da vida, o enfraquecimento do conceito de pessoa e até a justificativa legal de modalidades de homicídios e extermínios humanos, sob a alegação de “conquista de direitos”. Uma série de ameaças à vida chega a nós, através dos meios de comunicação, das redes sociais, confundindo os cristãos, iludindo as famílias, atraindo os jovens, para uma mentalidade permissiva disfarçada de progresso científico. As redes sociais têm funcionado como uma caixa amplificada que faz parecer normal todos os tipo de violência, causando grande mal à vida (TB nº 48).

Cresce a banalização da violência, favorecida pelo mundo virtual, por meio das fake news, dos perfis falsos e da disseminação de notícias caluniosas e raivosas sem nenhuma preocupação em verificar a veracidade do que se compartilha e se curte (TB nº 49-50). Isto faz crescer a violência por meio de agressões físicas, homicídios, feminicídio, drogas, desrespeito no trânsito, passando pela agressão psicológica, verbal e simbólica. O Estado que tem o papel de ser o guardião da vida, em muitas situações, apenas administra a morte. A incapacidade do Estado de frear a violência também contribui para a banalização do mal na medida em que as milícias e grupos de extermínio determinam os que devem viver e os que devem morrer (TB nº 56-57). Os que assim pensam fazem coro a ditados como “bandido bom é bandido morto”. Isto está longe do sentido de ser cristão. Temos que rever nosso jeito de cultuar a Deus, de pensar e, sobretudo, nosso jeito de agir.

 

Para aprofundamento:

1.Diante dos sofredores e necessitados nosso olhar é de indiferença, de curiosidade ou de solidariedade? Em que precisamos crescer?

  1. Nossas reações diante da situação de ódio e violência testemunham que somos verdadeiros cristãos? Dê exemplos?

 

[Texto adaptado do Livro Fraternidade e vida: Dom e Compromisso. Dom Cavati: Mobon, 2020.]PAGAR AGORA 

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