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27/10/2020 Robson Ribeiro de Oliveira Castro Edição 3929 Fratelli tutti e o cuidado com o próximo em tempos de pandemia
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"Que possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade"

Fratelli tutti e o cuidado com o próximo em tempos de pandemia

Robson Ribeiro de Oliveira Castro*

O Papa Francisco, na nova encíclica lançada dia 03 de outubro passado, que tem por título Fratelli Tutti (FT) sobre a fraternidade e a amizade social nos apresenta aspectos importantes para a nossa condição humana. Fratelli Tutti é uma encíclica social, que faz parte do magistério social da Igreja. Desta maneira temos a realidade de um cuidado com o próximo, a exemplo da parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-35) e sua entrega aos cuidados daquele que nem conhecia.

Desta maneira, atento às diversas realidades e situações vividas nos dias atuais, o Papa Francisco nos convoca a refletir a nossa condição de vida em tempos de pandemia e descaso com os mais fragilizados: “Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade” (FT 8).

Fazer-se próximo

Assim esta convivência e este espirito fraterno são necessário par tentar responder uma pergunta: Quem é o seu próximo? A resposta, ardente no coração de muitos pode ser facilmente respondida, mas dificilmente aceita e colocada em prática. O meu próximo é todo aquele que precisa de mim, principalmente em tempos de isolamento e distanciamento social por conta do novo coronavírus.

Na realidade vivida a forma de se relacionar se tonou algo objetivado e o outro é um bem de consumo. As sombras de um mundo fechado, como nos revela Francisco nos alerta para “algumas tendências do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal” (FT 9).

Pra compreender o que é necessário nesta vida e viver de forma autêntica e consciente sua condição humana, é simples. Basta praticar o que Jesus testemunhou: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10, 27).

Mas também nos perguntamos a cada dia, conforme está nas escrituras: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10, 29). Na realidade não é quem me coloca, socialmente ou economicamente em alguma situação privilegiada. Próximo é todo aquele que precisa de mim. Francisco nos desinstala de nosso comodismo, ele mesmo nos põe a refletir: “Fixemos o modelo do bom samaritano. É um texto que nos convida a fazer ressurgir a nossa vocação de cidadãos do próprio país e do mundo inteiro, construtores dum novo vínculo social” (FT 66).

Estaríamos atentos ao chamado de homens e mulheres que sofrem e que necessitam de acolhimento e cuidados básicos para suas feridas? O Papa Francisco manifestou o desejo de que a Igreja fosse um “Hospital de campanha”, local que aceita todos os feridos, sem distinção, comprometendo-se na prevenção, fazendo observar os diagnósticos e procurando agir com misericórdia diante dos ameaçados de morte e seus familiares.

Tornar-se bom samaritano

Na nossa sociedade, a vida se tornou algo secundário, a falta de amor e comprometimento com o bem estar do outro, tem feito o ser humano tornar-se escravo do seu trabalho, apenas com a intenção de se enriquecer, porém se esquecem que Deus é o autor da vida e esse presente, que recebemos primeiro, é o mais importante.

Destarte, esta realidade é denunciada pela nova Carta Encíclica de Francisco e o Exemplo do bom Samaritano como força motriz para nossa sociedade estagnada frente as dores de cada um. A parábola do Bom Samaritano “é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano” (FT 67).

Assim, frente às mazelas do mundo é à fragilidade das relações, o caminho ético é sempre o caminho de se observar o respeito pelo próximo e sua condição. Desta forma  “O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano” (FT 79). Quando eu souber cuidar da fragilidade e da dor do outro, eu sentirei que a recompensa é a sua boa saúde e dignidade humana.

De fato, nesta realidade, ao final de sua análise sobre a Parábola do Bom Samaritano, Francisco reforça que: “é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos” (FT 86). Que sejamos autênticos Samaritanos sem busca por prestigio, sem ambições por aplausos e com o coração repleto de amor e desejo de cuidar do próximo, com esta realidade, conseguiremos seguir a diante do que é mais necessário: a vida humana.

 * Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF); Colaborador do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA); Editor-gerente da Revista RHEMA, Revista de Filosofia e Teologia do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio.

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