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16/11/2021 Dom Edson Oriolo Edição 3942 Fofoca: um mal a ser combatido
F/ Pixabay
"Com as fakes news estamos potencializando a fofoca pela comunicação rápida e irrestrita. Somos mais propensos a acreditar numa mentira sobre alguma pessoa do que em uma verdade sobre a mesma. "

Uma leitura bastante consistente que tem ocupado os expedientes racionais de alguns intelectuais, formadores de opinião, acadêmicos e personalidades como Obama, Bill Gates e Mark Zuckerberg (criador do Facebook) são as obras de Yuval Noah Harari, professor de história na Universidade de Jerusalém. São elas: Sapiens: uma breve história da humanidade; Homo Deus: uma breve história do amanhã e 21 lições para o século XXI, em que ele fala sobre diversidade sexual, privacidade digital, ambientalismo, racismo, meditação, xenofobia, discursos autoritários e algoritmos. Sobre estes últimos afirma: “quando os algoritmos me conhecerem melhor do que eu mesmo, a autoridade passará das pessoas para os sistemas de big data. Existe a possibilidade de uma completa vigilância da humanidade”

Na obra Sapiens: uma breve história da humanidade, Harari apresenta uma teoria sobre a evolução da linguagem. Para ele, o início da linguagem é a necessidade do ser humano de comunicar feitos a alguém. Um caçador ao voltar para a tribo narra como matou a presa. Com o tempo, surgiu a necessidade do caçador contar as vantagens de suas façanhas bélicas, pois isto dava prestígio ao guerreiro. Os animais também têm sons de alerta para avisar que estão em perigo. Podemos perceber, no entanto, que os homens e os animais usam de suas linguagens para terem uma visão daquilo que enxergam para fora e a sua volta. Vejamos as mulheres: ao irem trabalhar na plantação ou lavar roupa no rio, narravam uma para as outras os fatos que presenciaram, inclusive, em forma de canto. Assim sendo, o principal motivo da evolução da linguagem e sua complexidade é a fofoca.

A fofoca pode se tornar maledicência quando a comunicação é manifestada com elementos de vaidade, raiva, ciúme, inveja, rancor, ódio. Estes elementos vêm acompanhados com a intenção de prejudicar o outro, atingindo algum âmbito de sua existência, isto é, sua honra, seu bom nome, o prestígio que pode ter em seu grupo social. Interpretando mal atos ou fatos, atitudes ou palavras de alguém, desvirtuando e propagando, principalmente quando desconhecidos dos outros e dos quais somente o indivíduo é testemunha, a fofoca torna-se maledicência.

Destarte, podemos ter a fofoca como algo que faz parte da natureza humana e da vida das pessoas. Torna-se, porém, algo pejorativo segundo a intenção. Nas conversas, falamos, comentamos, criticamos, injuriamos e, principalmente, trocamos informação com pessoas sobre terceiros que não estão fisicamente presentes. Ao falar do outro sem a sua presença, deliberadamente “vomitamos” seus defeitos e suas limitações, expressando posições equivocadas, juízos precipitados, preconceitos. Assim, elaboramos um cenário falso do outro que é imagem e presença mistérica de Deus.

No entanto, hoje, com as fakes news estamos potencializando a fofoca pela comunicação rápida e irrestrita. Somos mais propensos a acreditar numa mentira sobre alguma pessoa do que em uma verdade sobre a mesma. A lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras informações, elimina-se a confrontação, para correr o risco de se tornar ator involuntário na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas, destruindo reputação dos envolvidos.

Em nosso cotidiano, as redes sociais (o whatsApp, o instagram e tantos outros aplicativos) têm dado publicidade às fofocas. O falar e o escrever mal de alguém ficou mais fácil, pois não há a presença física das pessoas. Nós falamos, opinamos, escrevemos, discutimos sem os interessados terem ciência daquilo que estão falando dele ou sobre ele. Através de comentários maldosos, atacamos, ferimos, maltratamos, acusamos as pessoas. As fofocas nos relacionamentos e nas mídias vêm desgastando muito as relações de convivência familiar, social e no trabalho. Atingem, inclusive, o processo de evangelização na comunidade paroquial. Fragmentam e enfraquecem a ação evangelizadora da Igreja e os seus responsáveis diretamente comprometidos.

Por isso, devemos combater as fofocas no âmbito pessoal e virtual. Necessitamos criar e construir vínculos de confiança muito fortes nos relacionamentos intersubjetivos. Isso exigirá tempo e paciência histórica, mas podemos usar a pedagogia de Jesus ensinada nos evangelhos. Corrigir o irmão comprometido com essa situação, alicerçando-nos nos princípios da tradição judaica, onde a pessoa tem a responsabilidade de advertir o irmão sobre comportamentos que perturbam a convivência comunitária.

 Encontramos no evangelho de São Mateus três importantes passos para melhorar nossos relacionamentos e entendermos que o outro é um grande presente de Deus em nossas vidas:

a) “Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós contigo” (Mt 18,15). Um encontro pessoal a sós com esse irmão. Aquele que foi atingido pela fofoca deve falar pessoalmente com o outro. Explicar o próprio ponto de vista do fato ocorrido, proporcionando que o outro veja, sobretudo, que a sua postura criou transtornos. Estabelecer relações para ganhar o irmão.

b) “Se não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão seja decidida pela palavra de duas ou três testemunhas” (Mt 18,16). Pedir ajuda de outras pessoas. Falar com o interessado, pois falar sobre ele é fofocar.

c) “Se não lhes der ouvido, dize-o à Igreja” (Mt 18,17). Falar à comunidade, isto é, recordar ao infrator as exigências do que significa ser cristão.

Porquanto, diante do exposto, torna-se necessário promover a capacidade de autocrítica, e, sobretudo, desenvolver a habilidade do altruísmo, ou seja, colocar-se no lugar do outro. E, nesta perspectiva de compreensão aplicar a máxima de Jesus: “Não faças ao outro aquilo que não queres que te seja feito” (Mt 7,12). Nunca devemos comentar, escrever e dizer mal de alguém ou sobre ele em sua ausência. Se a correção não for possível pelo processo evangélico apontado, ainda permanece o recurso da oração, em nome de Jesus.

Fonte: Diocese de Leopoldina-MG

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