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07/05/2019 Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN Edição 3910 Fé em Deus e confiança nas armas Sobre armas e violência
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"A paz se faz quando aprendemos a respeitar as diferenças, quando dialogamos com aqueles que não pensam como nós,..."

Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN

 

O ódio, a vingança, a violência contra o outro estão presentes na humanidade desde os tempos mais remotos. Os primeiros capítulos da Bíblia narram o fratricídio de Caim contra Abel (cf. Gn 4, 1-10), isto é, um irmão que mata o próprio irmão. Os filósofos também procuraram pensar sobre a violência e alguns chegaram a afirmar que o “homem é lobo do homem” (Thomas Hobbes). Porém, mesmo a história da humanidade sendo uma história manchada de sangue, há um grande desejo no coração humano de encontrar o caminho da paz.

O próprio autor sagrado, ao narrar a violência de Caim contra seu irmão Abel, já mostra o caminho de superação da violência não aceitando que Caim seja punido com a pena de morte, ao contrário, “quem matar Caim pagará multiplicado por sete” (Gn 4, 15). E, para os cristãos, Jesus se apresenta como o Príncipe da paz, que em sua vida e em seus ensinamentos testemunhou a força da não-violência. “Sua missão não se realiza pela violência e pela opressão, mas pela mansidão de um pedagogo, que deixa penetrar, nos humildes, gota por gota, o espírito de amor e solidariedade, que faz crescer o verdadeiro Reino de Deus” (Johan Konings).

 

A tentação do poder das armas

O clima de insegurança em que vivemos em nosso país, a crescente onda de violência que atinge nossas cidades e a desconfiança dos cidadãos nos poderes constituídos têm contribuído para crescer a tentação de acreditarmos no poder das armas. Talvez por isso, o decreto presidencial de flexibilização da posse de armas de fogo para o cidadão comum, assinado no último dia 15 de janeiro, mesmo sendo “um decreto anti-evangélico e contra os ensinamentos de Jesus, pois não se trata mais só da legítima defesa: é a violência amparada pela lei” (Dom Diasin), tenha sido recebido com tanta expectativa mesmo por pessoas que professam a fé em Jesus Cristo. Muitos pensam que possuindo uma arma em casa poderão “fazer justiça com as suas próprias mãos”, e assim estarão seguros. Esquecendo do principal mandamento de Deus que perpassa toda Bíblia e que se estende na ética que é o não matai.

Enquanto crentes precisamos nos questionar: onde está a nossa segurança? Será se é possível conciliar a fé no poder de Deus e no poder das armas? Muitos podem dizer que não há contradição entre a fé em Deus e a confiança nas armas. Mas se de fato quisermos ser fieis aos ensinamentos de Jesus de Nazaré que preferiu morrer a matar, essa conciliação não é possível.

 

Jesus ensina a não-violência

Jesus de Nazaré tinha tudo para ser um homem ressentido e violento, pois, desde cedo, sofreu a violência dos poderosos. Ainda criança, seus pais tiveram que fugir com o Menino para o Egito devido à perseguição de Herodes que, por medo de perder o poder, ordenou que matasse “todos os meninos menores de dois anos em Belém e arredores” (Mt 2, 16), tendo assim que viver a sua infância como imigrante em terras estrangeiras. Quando adulto Jesus experimentou novamente a dor dos refugiados ao passar pelas aldeias de samaritanos e não ser acolhido, porém, não aceitou a proposta de vingança da parte dos seus discípulos (cf. Lc 9, 51-55).

Dor maior Ele sofreu ao ser rejeitado pelos seus conterrâneos que, por preconceito e fechamento, não o acolheram e ainda queriam eliminá-lo (cf. Lc 4, 14-30); e, mesmo depois de sofrer a dura violência de ser torturado, humilhado e condenado à morte por um tribunal injusto, “Ele não abriu a boca” (cf. Mc 14, 53-65). Na cruz, Ele olha no rosto de seus algozes, não com ressentimento, ódio ou desejo de vingança, mas com misericórdia. Por isso, no lugar das famosas invectivas proféticas, Jesus prefere derramar sobre eles o perfume do perdão: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).  

A não-violência ensinada e praticada por Jesus deve ser paradigma para todos os cristãos. Não é possível ser fiel a Jesus de Nazaré defendendo ou praticando a violência. Seu projeto é de paz. Sua resistência segue a via da humilde mansidão. Sua arma é o amor. Seu maior legado é ter declarado felizes os pobres e não os ricos e poderosos; felizes os que reagem com humilde mansidão e não os violentos e sanguinários; felizes os que choram com os outros e não os que riem da desgraça alheia; felizes os que têm fome e sede de justiça e não que os usam do seu poder para cometer injustiças contra os mais fracos; felizes os misericordiosos e não os vingativos; felizes os que mantêm o coração limpo de tudo o que mancha o amor e não os que alimentam o ódio e o rancor; felizes os que promovem a paz e não os fazedores de guerra; felizes os que abraçam diariamente o caminho do Evangelho mesmo enfrentando perseguições e não que os usam da religião para seu próprio benefício (cf. Mt 5, 1-12).

 

Vivemos tempos de grande violência

Violência no trânsito, nas ruas e praças, nas cidades e no campo, nas famílias e nas igrejas, nas redes sociais, etc. Sem contar a violência silenciosa praticada contra os pobres por meio de uma economia de mercado que não tem a pessoa como foco e sim o lucro e o acúmulo de riquezas. Há também de considerar a violência do preconceito contra aqueles e aquelas que têm uma condição sexual diversa; bem como violência contra os negros e os índios, ou seja, as minorias são diariamente violentadas e desrespeitadas em seus direitos. Diante de tanta violência e insegurança tem-se criado a cultura do medo e do isolamento: muros, grades, cercas elétricas, segurança privada, confiança nas armas, etc. O outro é visto quase sempre como um inimigo em potência do qual eu tenho que me proteger.

Neste contexto de “guerra mundial em pedaços”, a paz deixou de ser buscada como um valor positivo, fruto da fraternidade, do respeito do outro e da mediação pacífica dos conflitos. Busca-se uma paz negativa, orientada pelo uso da força e das armas, da intolerância com os “diferentes”, da punição... pensando que a violência pode construir a paz, mas como escreve H. Arendt “do cano de uma arma jamais pode nascer a paz!”

 

Ser instrumentos de paz

A paz se faz quando aprendemos a respeitar as diferenças, quando dialogamos com aqueles que não pensam como nós, quando reagimos diante das injustiças e trabalhamos juntos por uma sociedade mais justa e igualitária. Pois “uma paz que não surja como fruto do desenvolvimento integral de todos não terá futuro e será sempre semente de novos conflitos e variadas formas de violência”.

Compreender a paz como “mera ausência de violência obtida pela imposição de uma parte sobre as outras. Também seria uma paz falsa aquela que servisse como desculpa para justificar uma organização social que silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que aqueles que gozam dos maiores benefícios possam manter o seu estilo de vida sem sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem” (Papa Francisco. EG, n. 218-219). 

Jesus de Nazaré fez da não-violência uma estratégia de resistência e profecia. A paz que ele nos deu é uma paz que se constrói com o esforço de todos e não por decreto de alguns. Uma paz que não procura eliminar os inimigos, mas, ao contrário, reza por eles, perdoa sempre e toma a iniciativa de fazer o bem aos que nos odeiam (cf. Lc 6, 27). Este caminho novo do amor, da tolerância e do respeito ao outro vivido Jesus e ensinado por Jesus é, na verdade, a única via que temos para obtermos a tão sonhada paz. Do contrário, a humanidade estará se autodestruindo, uma vez que “a prática da violência, como toda ação, muda o mundo, mas a mudança mais provável é para um mundo mais violento” (H. Arendt). Pois a violência gera sempre mais violência, o fruto dela jamais será a paz.

O sonho do profeta Isaías de transformar as armas em instrumento de trabalho: “das espadas forjarão arados e das lanças, foices” (Is (2, 4), deveria ser também o nosso sonho. Pois, como alertou Jesus a Pedro, “quem empunha a espada, pela espada morrerá” (Mt 26,52). Sejamos, portanto, instrumentos da paz, não da violência que mata.  Coloquemos a nossa confiança no SENHOR, pois Ele é a nossa única segurança.

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