Formação Leigos
24/02/2021 Denilson Mariano Edição 3933 Fariseus de ontem: “fariseus” de hoje Uma luz sobre a polêmica levantada em torno da CF 2021
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"Muitos dos traços presentes no perfil dos fariseus revelado nos Evangelhos parecem estar presentes no perfil dos que hoje se opõem ao Vaticano II, às Conferências do Episcopado Latino Americano, ao Papa Francisco, à Campanha da Fraternidade e ao Ecumenismo."

 

 Temos presenciado, sobretudo nas redes sociais, uma investida contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021. Pessoas e grupos religiosos, com pretensa atitude de defesa da fé e da Igreja, têm feito uma leitura superficial, tendenciosa e distorcida do Texto Base da Campanha e têm disseminado uma série de posts, vídeos, artigos e mensagens nas redes sociais. Fazem uma contra propaganda à CFE 2021 e à coleta solidária feita anualmente pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Nosso anseio não é colocar mais lenha na fogueira, mas encontrar uma base bíblica que nos ajude a compreender melhor a situação e permita abrir caminhos para um diálogo fecundo e uma eventual superação desse impasse pastoral.

Convido a revisitarmos juntos algumas práticas, atitudes e procedimentos dos fariseus, tal como são apresentados nas Escrituras, para iluminar a desafiante situação que se coloca à nossa frente: a controvérsia sobre esta Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Naturalmente, não podemos pegar um texto bíblico e simplesmente transpor o que está lá para a realidade de hoje. Porém, os relatos bíblicos podem laçar luz sobre a realidade atual. Tomando as devidas distâncias, com sinceridade, honestidade e auxílio das ciências modernas, a Palavra de Deus é capaz de iluminar os desafios de hoje. É isso o que buscamos aqui.

E fazemos a devida ressalva, pois, não identificamos os seguidores do judaísmo, por si só, como opositores a Jesus e aos cristãos. Ressaltamos nossa abertura ao diálogo ecumênico e inter-religioso. Restringimos-nos a indicar as oposições enfrentadas por Jesus e, por meio delas, buscar maior compreensão para as oposições à Campanha da Fraternidade em nossos dias.

 O que significa “fariseu”?

Embora haja algumas divergências, o termo “fariseus” indica os “separados” ou “separadores”. Um grupo, partido ou seita de defensores da Lei, da Tradição, da religião que se julgavam acima e mais importantes que os demais. Como praticantes da Lei, enxergavam a si mesmos como separados e superiores aos outros. Alguns se apresentam nos Evangelhos e no Novo Testamento como pessoas de grande destaque entre os demais como: Nicodemos (Jo 3,7. 45-48); Gamaliel (At 5,34); Saulo (At 23,6-9; Fl 3,5).

Os fariseus eram um grupo de leigos, submissos ao poder romano, que se orgulhavam de defender a Lei (cf. Mt 9,9-17; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32; Lc 18,9-14; Jo 7,49). Nos Evangelhos, em geral, os fariseus aparecem sempre em oposição a Jesus e se revelam hostis à sua pessoa, a seu ensinamento e atitudes. Eles temiam que o novo ensinamento trazido por Jesus ameaçasse a sua posição e prestígio de líderes espirituais. João Batista denuncia os fariseus como “raça de cobra venenosas”, pois eles se apresentavam como seguidores da Lei, mas não se abriam à conversão (Mt 3,7-10; Lc 3,7-9).

 Como agiam os fariseus?

Nos relatos evangélicos, os fariseus estão sempre vigiando Jesus para encontrar n’Ele alguma falha (cf. Jo 4,1). Eles tentam armar laços para surpreenderem Jesus em alguma resposta errada (cf. Mt 20,15; Mc 12,13; Lc 20,20s); questionam Jesus a respeito da Lei (cf. Mt 22,34) e ficam escandalizados quando Ele se junta e come com os cobradores de impostos e pecadores (cf. Mt 9,9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). Eles questionam porque Jesus não obedece ao descanso do sábado (Mt 12,2s; LC 6,2s); porque faz curas (Lc 24,1-3) e não exige dos discípulos o preceito de lavar as mãos antes das refeições (Mt 15,1s; Mc 7,1s). Eles duvidam que Jesus possa perdoar os pecados (Lc 5,17) e quando Jesus expulsa demônios, eles o acusam de ter um pacto com Belzebu (Mt 12,24s). Definitivamente, sentem-se muito incomodados com jeito de ser, de agir e com os ensinamentos de Jesus.

 Pessoas agressivas e incrédulas.

Os fariseus revalavam-se agressivos com Jesus (Jo 89,13; 12,19.42); eram incrédulos, só acreditavam em suas próprias convicções (Jo 7,45-48; 9,13-16). Incomodados, conspiravam contra a vida de Jesus (Mt 12,14; Mc 3,6), eram também avarentos e se colocavam na contramão do Reino anunciado por Jesus (Lc 16,14; 7, 30). Quando pedem um sinal, Jesus se recusa e os declara filhos de uma geração “ímpia e adúltera” (Mt 12,38s; 15,11s; Mc 7,1s). Jesus condena o legalismo dos fariseus pois fazia o povo refém da Lei e impedia o exercício do amor e da misericórdia (Mt 9.9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). E ainda, Jesus condena o formalismo sem vida, intolerável, forte na aparência, mas vazio de justiça e misericórdia (Mt 12, 2s; Mc 2,24s; Lc 6,2s). Jesus denuncia o apego dos fariseus às leis e costumes para fugir de suas obrigações sociais e fraternas (Mt 15,1s; Mc 7,1s).

Em síntese, muitos dos traços presentes no perfil destes fariseus revelado nos Evangelhos parecem estar presentes no perfil dos que hoje se opõem ao Vaticano II, às Conferências do Episcopado Latino Americano, ao Papa Francisco, à Campanha da Fraternidade e ao Ecumenismo.

 Os opositores à CFE 2021

Em certo sentido, os opositores à Campanha da Fraternidade podem ser identificados como os “fariseus de hoje”. São pessoas que se julgam defensores da Igreja, da reta doutrina, da liturgia e da tradição. Conscientemente ou não, se julgam superiores aos demais, até como mais próximos de Deus. Rezam o terço, participam de palestras sobre as Cruzadas, sobre a busca de santidade e participam das missas em latim, tendo o padre de costas para o povo (Missa Tridentina)[1]. Entendem que têm a missão de “recristianizar” o Brasil. Por isso, quem pensa ou toma posturas na Igreja e na sociedade de forma diferente da deles, é visto como inimigo da fé e da doutrina. Grupos e entidades, em sua maioria formado por leigos, com apoio de alguns padres e um ou outro bispo. Em geral pessoas de classe média e de classe média alta, com forte poder econômico. Julgam-se como já convertidos e se veem na obrigação de purificar a fé dos demais.

Assim como os fariseus temiam Jesus, esse grupo de hoje tem medo e aversão à Igreja do Vaticano II, no fundo à Igreja de Jesus formada pelo povo simples. Tem horror à Igreja comunidade de fé comprometida com a vida. Por suas práticas e forma de presença nas mídias sociais, aplica-se a eles palavra profética de João Batista: “raça de cobra venenosas”. Pois, caso quisessem ajudar a Igreja a crescer, se abririam ao diálogo, estariam dispostos a uma troca de ideias. Mas, por se julgarem superiores, - isso inclui a superioridade ao ensinamento da própria Igreja. Ignoram Concílio Vaticano II, o Papa Francisco, os Documentos das Conferências Episcopais, da CNBB e à palavra profética de muitos bispos e padres. Alimentados por essa falsa ideia de superioridade – fazem uma oposição aberta e até pouco honesta a quem pensa e age de foram diferente. Os fariseus de hoje se veem como os únicos “donos da verdade”, daí a dificuldade de um diálogo sincero, maduro e fecundo.

 Sempre em busca de um deslize

Os relatos bíblicos jogam uma luz sobre essa realidade que estamos enfrentando neste momento. A exemplo da atitude dos fariseus com Jesus, os “fariseus” de hoje estão sempre vigiando o Papa Francisco, a Conferência dos Bispos do Brasil – CNBB - , na busca de algum deslize ou falha. Chegam a declarar abertamente a sua oposição ao Magistério do Papa Francisco, acusando-o de “herege”, há os que dizem: “meu Papa é o Bento” e que “a CNBB não me representa”. Na verdade, quem mais se aproxima do Jesus dos Evangelhos, com atitudes de diálogo e gestos de misericórdia, como o Papa Francisco, enfrenta grande oposição desse grupo neofundamentalista moderno.

Na pretensa defesa da Tradição e da Igreja, ignoram quem legitimamente a representa. E, quando a Igreja assume as atitudes de Jesus em proximidade com os excluídos, com pobres e pecadores, encontram uma forma de colocá-la em dificuldade. Quando a Igreja se abre à fraternidade e busca da justiça social e evangélica, eles a acusam de “comunista” ou “marxista”; quando a Igreja procura o diálogo sincero e maduro com irmãos de outras igrejas e religiões, eles a acusam de romper com a tradição. Definitivamente, sentem-se incomodados com uma Igreja de todos e para todos, pois só enxergam como Igreja seu próprio grupo, fechado, preso ao legalismo e mantenedor de um modelo de Igreja da Cristandade que sustentava-se pelo poder e submissão à hierarquia.

Ensaiam uma “guerra santa”. O tom  acusatório e fechado ao diálogo verifica-se nas postagens, nos vídeos e nas redes sociais que se assemelham a um confronto de verdades, uma “guerra santa”. Não economizam ameaças, xingamentos, expressões pesadas e grotescas que diminuem e desprezam quem não pensa ou interpreta as Escrituras e os Documentos da Igreja do mesmo jeito. Não há diálogo, buscam semear confusão na mente e no coração dos mais simples. Pensam ser “soldados de Cristo e da Igreja”, mas seus posicionamentos estão distantes do jeito de Jesus e da sadia e verdadeira Tradição da Igreja. Com grandes recursos econômicos apostam em influenciadores digitais, leigos, leigas, padres em Youtubers e fazem das redes sociais, um campo de batalha onde quem não está conosco é nosso inimigo e “inimigos” da cruz de Cristo.

 Como agir e reagir?

Jesus compara os fariseus aos maus agricultores que se apossam da vinham e se negam a entregar o fruto da colheita e terminam por matar ao filho do dono da vinha (Mt 21, 33-46). Jesus demonstra que são cegos que não querem ver (Jo 9,40) e que usam de falsidade (Lc 18,9-14), se apresentam como pessoas devotas, mas tem o coração cheio de ódio e de vícios. Pessoas que se apresentam como sendo os melhores, mas na verdade, são o piores da comunidade: “sepulcros caiados” que se apegam às formalidades externas da lei para não exercerem a justiça e a misericórdia. Tem as mãos cheias de pedras e estão sempre prontos a condenar. No conjunto dos Evangelhos fica claro que a principal fraqueza do judaísmo do tempo de Jesus é não admitir a possibilidade de crescer além do que já aceitaram como verdade. Esse fechamento impede o avanço da obra salvadora do Reino de Deus. Não é sem motivo que são acusados de cometerem o pecado imperdoável contra o Espírito Santo (Mt 12,3s; Mc 3,28-29).

Não cabe aos verdadeiros cristãos rebaixar-se revidando afrontas, provocações, baixarias. A atitude mais correta nos é apontada por Jesus. Ter clareza dos fatos, não seguir os “boatos”. Estudar de fato as questões. Conhecer melhor as Escrituras. Buscar conhecer os documentos do Magistério, do Vaticano II, do Papa Francisco, das Conferências Episcopais, da CNBB...

No caso concreto desta CFE 2021, só para citar uma das polêmicas levantadas, ela é acusada de fazer apologia à ideologia de gênero, enquanto na verdade em três números do documento o que é denunciado é a violência e morte de “minorias” mulheres, negros, e  pessoas LGBTQI+ (cf. Texto Base CFE 2021 nª 31,58 e 68). Com um mínimo de leitura do Texto Base, percebe-se a falsidade do argumento apresentado. Da mesma forma, o texto base não faz apologia ao abordo como erroneamente se denuncia. Cobram que o texto não contenha elementos catequéticos católicos ou referências à Maria, pois, sendo ecumênico foca-se ao conteúdo da Campanha e procura criar pontes de diálogo e ações conjuntas entre as igrejas.

O Texto Base da CFE 2021 contou com a presença de especialistas, pastoralistas e teólogos responsáveis e com devido respeito à doutrina de cada Igreja. Ele nasce de um processo de diálogo entre as igrejas diante dos desafios sociais da atualidade. A polêmica levantada nasce, justamente, de um fechamento ao diálogo, de fechamento ao ecumenismo.

Assim como Jesus se manteve aberto ao pensar diferente, aberto à dor dos sofredores, aberto à inclusividade, como no diálogo com a mulher Cananéia (Mt 15,21-28). Sigamos os seus passos, a nossa fé é em Cristo, que foi violentado, mas que não usou de violência. Por outro lado, nunca se distanciou da defesa da vida em abundância para todos (Jo 10,10). Sigamos firmes no serviço à vida contra a violência, a serviço da paz e no compromisso do diálogo fraterno e ecumênico. Abrace com carinho esta Campanha do diálogo, da fraternidade, pois “Cristo é a nossa paz, do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14c).

 [1] Cf. OLIVEIRA, Thais Reis. Os católicos ultraconservadores que querem “recristianizar” o Brasil. Disponível em: <https://vermelho.org.br/2020/01/20/os-catolicos-ultraconservadores-que-querem-recristianizar-o-brasil>. Acesso em 20 fev. 2021.

Uma síntese deste texto foi publicado no site DOM TOTAL

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