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29/07/2019 Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN Edição 3914 Fake news, a manipulação a serviço do poder Notícias falsas são um sinal de intolerância
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"Como cristãos, seguidores (as) do Mestre de Nazaré, somos chamados a ser anunciadores da Boa Notícia da verdade e da vida, responsabilizando-nos com um “jornalismo da paz” e não do ódio."

Fake news, a manipulação a serviço do poder

Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

 

Fofoca, mentira, difamação, contra testemunho, manipulação... Estes “ruídos” que travam e dificultam a comunicação sempre estiveram presentes nas relações humana. Como diz o ditado popular: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Porém, o que assistimos em nossos tempos é uma onda de desinformação. As notícias falsas, as chamadas fake news, que estão ligadas, na maioria das vezes à sede de poder, vão muito além das fofocas entre vizinhos, pois a partir de informações infundadas ou baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, elas visam enganar e manipular o destinatário, incitando, muitas vezes, ao ódio e fomentando conflitos. Como nos alerta o Papa Francisco, “as notícias falsas são um sinal de intolerância e de atitudes hipersensíveis e levam apenas à propagação da arrogância e do ódio. Esse é o resultado da mentira”. Numa sociedade digital como a nossa em que num clique se pode espalhar uma notícia para milhares de pessoas, faz-se necessário refletir sobre os efeitos das chamadas fake news, bem como a responsabilidade de quem as produz ou mesmo de quem propaga tais mentiras.

 

Não julgueis para não serdes julgados

Jesus já alertava os seus discípulos para a tentação de querermos ser “juízes” do outro. “Não julgueis, e não sereis julgados. Pois com o mesmo julgamento com que julgardes os outros sereis julgados; e a mesma medida que usardes para os outros servirá para vós. Por que observas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7, 1-3). Jesus chama de hipócritas aqueles que ao invés de olhar para os seus próprios limites e buscar corrigi-los se comprazem em buscar algum desvio no outro e espalhar o veneno da fofoca.  

O Código Direito Canônico (n. 220) assegura a todos o direito à boa fama, “a ninguém é lícito lesar ilegitimamente a boa fama de que alguém goza”. A Constituição Federal (art. 5º) também estabelece que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Portanto, a difamação, a notícia falsa, é um crime perante o Direito Canônico, bem como no direito civil. Porém, como responsabilizar as pessoas que produzem as falsas notícias e ou compartilham tais desinformações, se muitas vezes não se sabe nem a sua origem? Será que em nome da liberdade de expressão podemos aceitar tais crimes? Esta é uma discussão aberta que ainda precisamos aprofundar no debate. Pois “nenhuma desinformação é inofensiva, antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos” (Papa Francisco).

 

Fake news e a sede do poder

Na sua mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais (24/01/18), o Papa Francisco diz que o que está por trás das chamadas fake news é a sede do poder. “As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que caracteriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações econômicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração.” Neste sentido, precisamos ir mais a fundo na discussão acerca das responsabilidades de quem produz e propaga tais mentiras, pois elas têm objetivos muito claros como influenciar opções políticas e favorecer lucros econômicos.

Que as fake news causam um dando irreparável para a comunicação e para o cidadão de bem penso que ninguém tem dúvida. Porém nosso grande desafio é como reconhecê-las, como discernir entre a verdadeira e a falsa notícia, se a cada instante uma enxurrada de informação cai sobre nossas cabeças. “Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados” (Papa Francisco). Por isso, precisamos ter um cuidado especial quando lemos alguma informação, buscando saber as fontes e os autores de tais notícias. E um discernimento ainda maior, para não sermos divulgadores inconscientes de desinformação.

 

Educar para a verdade

A epidemia de informações fragmentadas, a preguiça intelectual, a renúncia ao exercício do pensar... têm colaborado para que as falsas notícias ganhem sempre mais força. O filósofo Blaise Pascal já dizia que “o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes”. É preciso educar de maneira integral e transversal. Educar não apenas para a aquisição de conhecimentos, competências e habilidades, certamente necessários, mas, educar para a verdade, para o amor ao mundo. Pois “uma cabeça bem-feita vale mais do que uma cabeça cheia” (Montaigne).

A educação é o antídoto mais radical ao vírus da falsidade e da cultura da desinformação. Como afirma Hannah Arendt, “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele”. Educar, pois, para a verdade é o que possibilitará às pessoas discernir, avaliar e ponderar desejos e inclinações. Sem reflexão, sem criticidade, seremos levados facilmente pelo sensacionalismo das massas que manipulam e enganam, porque “uma pessoa que não pensa é como um sonâmbulo” (Hannah Arendt). Logo, o que percebemos em nossa sociedade é uma multidão de sonâmbulos que não são capazes de discernir se tal informação é verdadeira ou falsa e se deixam enganar facilmente com tais fake news.

 

Anunciar a Boa Notícia de Jesus

O Evangelho de Jesus é uma Boa Notícia que liberta, gera vida e salvação. A mentira escraviza, engana e gera morte. “Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo” (Dostoevskij. Os irmãos Karamazov, II, 2).

Como cristãos, seguidores (as) do Mestre de Nazaré, somos chamados a ser anunciadores da Boa Notícia da verdade e da vida, responsabilizando-nos com um “jornalismo da paz” e não do ódio; abraçando a bandeira do diálogo que gera comunhão e não da polarização que fomenta violência e morte; comprometendo-nos com uma comunicação que gera proximidade, encontro, informação e não nos compactuando com as falsas notícias que confundem, enganam e manipulam as pessoas. Que o Espírito Santo nos dê lucidez e discernimento para não sermos enganados pelas “serpentes” (cf. Gn 3,1-7) modernas chamadas fake news, pois elas podem nos conduzir ao descrédito na palavra do outro ou até mesmo à morte da verdade. Isso significaria uma catástrofe na comunicação humana.

  * Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo em Belo Horizonte-MG.

 

F/ wikimedia.org

 

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